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O Tabardilho na Cidade dos Arcebispos

A estratégia cultural que tarda

O Tabardilho na Cidade dos Arcebispos

Voz aos Escritores

2020-10-16 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Otifo enxantemático surgiu em Portugal no final do século XV. Desde essa época há registos de vários surtos epidémicos, os mais graves associados a períodos conturbados como as Invasões Napoleónicas e as Guerras Liberais. Na segunda década do século XX ocorreram três epidemias que fustigaram os portugueses: o tifo epidémico, a gripe pneumónica e a varíola. “Portugal é um paiz tifico”, disse-o o insigne Dr. Ricardo Jorge. O tabardilho, tifo enxantemático, ceifava vidas sem comiseração na Lusitana Nação. No Norte do país, o inimigo silencioso apossou-se dos penitentes bracarenses. A fé no Deus salvífico, no séquito de santos e santas, nas bruxas e nas curandeiras milagreiras, não exorcizava o bicho, o nojento piolho que os picava e lhes transmitia a doença, pintalgando-lhes os corpos padecentes. O tifo, o tabardilho, a que os populares chamavam “pintas”, comichava-os e atormentava-lhes as penosas existências.

Há apenas cem anos, Portugal pouco diferia da negrura da Idade Média, um Portugal estagnado, vulnerável, achacado às mortíferas enfermidades. O relato da epidemia nas palavras do Dr. Eurico de Almeida, médico do Porto que integrou o pessoal de saúde que esteve em Braga durante o surto do tabardilho, remete-nos para uma Cidade dos Arcebispos decadente, uma urbe onde grassava a miséria, a gritante pobreza de posses e de espírito. A degradação social e a ignorância abriam as portas à propagação da doença. A mortandade principiou na freguesia de São Victor, um lugar insalubre, de casebres precários e sobrepovoados, atulhado de operários alheios à higiene, tasqueiros que se emborrachavam em grupos nas tabernas de terra batida, sorviam o tinto carrascão nas malgas partilhadas e surradas, emborcavam a ilusão no mata-bicho e apartavam a água e o sabão. Homens pulguentos e piolhosos que pegavam a bicheza aos ranchos de filhos maltrapilhos, fedelhos descalços e ranhosos que dormiam enrolados em cobertores ratados, corpos franzinos uns nos outros anichados, uns nos outros infectados. Nas soleiras das portas carcomidas, as mulheres desabafavam as agruras e as tareias da ciumeira dos machos, o mulherio ajuntava-se em contaminadoras confissões, em diz-que-disse fatais. O mal ruim a estendeu-se à freguesia de São Lázaro cujos paroquianos se acotovelavam na igreja, nas oficinas, nas fábricas e nas tascas. Tombada a noite, em tropeções etílicos, levavam para casa os corpos derreados, marrecos pelo cansaço e pelo peso dos cornos imaginários, a rala marmita esvaziada e a doença mortal e desvairada; o mesmo cenário no bairro da Cruz de Pedra; pior na Rua de Santo António, artéria estreita como a mentalidade do povo, prolifera de alcouces, antros de perdição e de contaminação, a ralé, a escória, a soldadesca a espraiar a luxúria e a doença; o mesmo na Avenida pejada de vadios, indigentes encostados às paredes da Arcada a disseminarem os asquerosos parasitas portadores do mal letal.

O tabardilho agigantou-se na freguesia de São Lázaro, o doente mais famoso da Bíblia. Os paroquianos eram avessos às medidas anti-epidémicas, gente que coabitava com porcos, coelhos e galinhas, artesãos que laboravam em oficinas insalubres atapetadas de esterco, que ameaçavam de facas e cutelos em riste os profissionais de saúde quando estes lhes sugeriam medidas de higiene profiláticas da epidemia.
As crianças chafurdavam na imundice, urinavam e defecavam nas ruas. As mulheres eram compelidas pelos maridos a um indecoroso desleixo, porquanto os homens tacanhos tinham como desonestos determinados cuidados e atribuíam à água malefícios deterioradores. As mulheres arrastavam os moncos nos aventais e no maior descaro, de pernas abertas, despejavam-se em riachos de urina onde calhava a vontade, enxugavam as vergonhas nas saias fedegosas e remendadas, comichavam as guedelhas desgrenhadas e catavam-se uma às outras como macacas, marafonas repugnantes e malcheirosas que no dizer das entidades da saúde envergonhavam a sociedade portuguesa. Os homens descuravam a aparência e mostravam um notório desinteresse pelo seu aspecto andrajoso que os emporcalhava. Das casas, enxovias lúgubres e pardacentas, evolava um fedor pestilencial. Perante estas condições trogloditas e as atitudes bárbaras da população, aliadas à deficitária alimentação e à ausência de fármacos eficazes, não era de admirar que os registos dos contaminados pelo tabardilho aumentassem de mês para mês, escrevia o Dr. Eurico de Almeida.

À luz do Mundo de hoje, também a braços com uma pandemia, é-nos difícil imaginar um quadro tão mórbido, feio, triste, injusto e elitista como o descrito pelo Dr. Eurico de Almeida na sua tese de doutoramento defendida na Faculdade de Medicina do Porto em 1920.
A História relata-nos epidemias tremendas e medidas terríveis e desumanas para as combater, como os lazaretos, os degredos ou os entaipamentos de ruas e bairros.
Passado um século do surto do tabardilho, outra epidemia amedronta a Humanidade. Como nos flagelos que a antecederam, resta-nos a esperança na descoberta da vacina ou na imunidade generaliza- da.

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