Correio do Minho

Braga,

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O sorriso do Padre Sousa Fernandes

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2019-09-01 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Admito que pode não ser muito simpático recomeçar mais um período de textos no Correio do Minho com a referência ao falecimento de um cidadão. No entanto, pelo percurso que desenvolveu, torna-se imperioso abordar aqui o Padre António Manuel de Sousa Fernandes, que faleceu no dia 26 de agosto de 2019.
Da região do Minho têm saído alguns dos Padres mais notáveis do nosso país. Refiro-me ao ao Padre Martinho, que faleceu há 144 anos, ao Padre Casimiro, que faleceu há 124 anos; ao Abade de Priscos, que faleceu há 89 anos; ao Padre Abel Varzim, que faleceu há 55 anos ou ao Padre David de Oliveira Martins, que faleceu há 29 anos. Refiro estes para não me alongar nesta lista de Padres notáveis.
A dedicação destes Padres à causa pública, ao bem da sociedade e a sua aproximação às pessoas foi de tal forma envolvente, de tal forma marcante, que todos eles se mantiveram, mesmo após a sua morte, na memória de todos os que com eles conviveram. Para além disso, o seu legado mantém-se bem vivo e passa de geração em geração. Até hoje!
O Padre Sousa Fernandes, falecido há uma semana, foi durante a sua vida uma das figuras mais simpáticas e carismáticas da nossa região. Não duvido que agora, que faleceu, seja mantido por todos numa galeria de Padres notáveis da nossa região.
Natural da freguesia de Brunhais, no concelho da Póvoa de Lanhoso, onde nasceu a 24 de março de 1936, Sousa Fernandes destacou-se em várias áreas da sociedade, especialmente na política, na cultura, no ensino e na religião. Em todas estas áreas deixou marcas, que permanecerão.
Com um sorriso muito peculiar, um sorriso envergonhado, tinha uma simpatia que, apesar de contagiante, mantinha respeito. Quando sorria, Sousa Fernandes fazia-o inclinando ligeiramente a cabeça, facto que se tornou numa das suas mais dóceis caraterísticas de personalidade.
Tive o privilégio de conhecer o Padre Sousa Fernandes, nas suas quatro vertentes, e em todas elas fica uma recordação do seu enorme conhecimento científico e de enorme solidariedade.
Quando estava na Universidade, o Padre Sousa Fernandes tocava sempre, de forma suave, nos temas da política e da religião. Fazia-o propositadamente para cativar os alunos para os conteúdos académicos que apresentava. Também por isso as suas aulas passavam rápido e delas extraíamos, sempre, ideias chave e orientações para o estudo que tínhamos de realizar de seguida. É difícil encontrar na área do Ensino alguém que não nutra simpatia pelo Padre Sousa Fernandes. Pelas escolas, pelas universidades portuguesas e estrangeiras, os seus estudos, as suas investigações são estudadas e analisadas. E continuarão a sê-lo.
Quando estava no meio político, o Padre Sousa Fernandes destacava-se pelos valores do respeito, da igualdade e da democracia. Para ele os partidos pouco interessavam, o que era importante era a defesa dos ideais políticos, em prol dos mais desfavorecidos. Foi assim na Assembleia Municipal de Braga, onde exerceu o cargo de Presidente da Assembleia Municipal e foi assim como Presidente da Câmara Municipal de Braga, cargo que exerceu em 1983. A forma exemplar como desempenhou esses cargos granjeou-lhe enorme simpatia em todos os quadrantes políticos. É difícil encontrar na política alguém que não nutra afeição, respeito, pelo Padre Sousa Fernandes. Apesar do seu sorriso, envergonhado. De todas estas paixões, a que mais seduzia o Padre Sousa Fernandes era a área da religião. Apesar do seu enorme prestígio académico e político, o Padre Sousa Fernandes desenvolvia as suas atividades religiosas na Capela de Nossa Senhora de Guadalupe. Em 1981, depois de ter chegado de França, onde fez uma pós-graduação, verificou que a capela de Guadalupe estava quase ao abandono. Foi então que pediu para aí celebrar a missa, aos domingos. E aí se manteve até aos últimos momentos da sua vida. Aí criou fortes laços com os jovens, ajudando-os a integrar-se na sociedade de forma serena, sendo muitos deles, hoje, cidadãos de grande cariz humano e solidário. Era um Padre sem paróquia, como muitas vezes referia, mas mantinha uma envolvente atividade religiosa.
No domingo de Páscoa, dava gosto ver o Padre Sousa Fernandes percorrer calmamente algumas ruas de Braga, seguido pelo seu grupo de jovens, a entrarem nas casas para levarem a mensagem da Ressurreição de Jesus Cristo. Nessa altura, era rara a casa, ou a família, que não abrisse a porta da sua habitação ao Padre Sousa Fernandes. E lá entrava, demorando-se a conversar com as famílias, sempre num tom de humildade e de simpatia, que de imediato se tornava contagiante.
Há uma semana faleceu o Padre Sousa Fernandes. Os dois dias de luto decretados pelo Município de Braga são o exemplo do respeito que todos lhe devem.

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