Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O sonho europeu

Verbos defetivos

Ideias

2019-06-10 às 06h00

Moisés de Lemos Martins

Em 1945, à saída da Guerra, o ideal democrático europeu ganhou uma nova vida, mobilizado pelas necessidades de reconstrução da Europa destruída e projetando o sonho de um espaço comum, coeso, inclusivo, de prosperidade e de paz.

Passados setenta anos, este ideal, fundado na aspiração de uma sociedade governada em nome do bem, do justo e do verdadeiro, marca passo, diante da degradação das instituições europeias, do desmoronamento do Estado social e do descrédito da classe política, corroída pelo pior do capitalismo económico-financeiro, a especulação e o agiotismo. Entretanto, tem crescido desmesuradamente no espaço europeu o egoísmo, o indiferentismo e o absentismo políticos.
E enquanto as instituições europeias se degradam, por todo o lado os média transcrevem a vida de todos os dias em espetáculo, fascinando e paralisando a comunidade humana. E lá vamos nós embarcados, em viagens tranquilas e aventuras sem risco, para o reino da evasão, do exotismo e do fantástico, que nos deleitam numa calda de emoções.
À saída da queda do muro de Berlim (1991), a Europa parecia vencida: a depressão demográfica corroía-a e a implosão da União Soviética marginalizava-a. Em termos estratégicos, a Europa deixava de contar.

Passados dez anos, todavia, o declínio demográfico era provisoriamente superado pela absorção da mão-de-obra da Europa de Leste e a Rússia reequilibrava-se, o que bastaria, assim se julgava, para a estabilidade do mundo.
Olhadas as coisas deste ponto de vista, dir-se-ia que os ventos não podiam correr de melhor feição à Europa. A circulação do euro como moeda única era um sucesso. A decisão do alargamento da União aos países da Europa central, oriental e mediterrânica confirmavam-na como uma União solidária, cooperante e aberta. Fora entretanto lançada a “Convenção sobre o futuro da Europa” (2001), com o intuito de repensar o seu desenvolvimento institucional. Para trás ficava a discreta e simbólica “Comunidade europeia do carvão e do aço” (1951), que cinquenta anos antes nos lançara na aventura política que dá pelo nome de “construção europeia”.

Entretanto, em simultâneo com esta a aventura, vimos a Europa deixar-se embalar, durante anos, por uma ordem pragmática e civilizada, uma ordem que sonhava com o sucesso e fantasiava fechar um condomínio para o fruir à vontade. E o nosso ideal democrático sucumbia à ideologia securitária. Tal um desaparecido em combate, vimo-lo em permanentes campanhas de “tolerância zero” e de “risco zero”, contra a droga, o álcool, o banditismo urbano e suburbano, o terrorismo, os resíduos tóxicos, a poluição.

O mal-estar político-institucional apoderou-se da União, com o seu alargamento a vinte e sete membros (2007). Depois disso, já ninguém ficou tranquilo com a perspetiva de um novo alargamento, que incluísse os países dos Balcãs ocidentais, assim como os restantes países da Europa Central, e também os países do Leste Europeu. As reuniões do Conselho europeu passaram a fazer-se acompanhar de manifestações populares violentas. E ficaram-se pela discussão estéril as “conferências intergovernamentais” para a reforma das instituições comunitárias. Uma vaga de fundo percorreu a Europa, que se insurgia contra “os burocratas de Bruxelas”. E depois, com a crise económico-financeira a ribombar sobre as cabeças dos países da Europa do Sul, o euro assemelhou-se mais a um ponto de chegada do que a um ponto de partida. A moeda única parecia não ter mais condições para concluir a construção do mercado, aberta pelo “tratado de Roma” (1957) e destinada, antes de mais, aos agentes económicos. E acima de tudo, mal chegou a prefigurar a união política, sonhada logo no começo para os Estados-nação e para os cidadãos.
A confirmar que a Europa era uma negação política, Blair, Aznar, Berlusconi, Rasmussen e Barroso encarregaram-se, em 2005, de desfazer as dúvidas que persistiam, quando a ideologia securitária a lançou, com os Estados Unidos, na campanha pela “democracia no deserto”. O eurocético Reino Unido, a hesitante Dinamarca e os ressentidos países da Europa do Sul, Itália, Espanha e Portugal, que sempre arrastaram os pés ou fizeram cera ao ouvirem a Alemanha e a França levantar a voz, juntaram-se aos Estados Unidos e também eles gritaram ao infiel.

Durante largos meses, Washington havia lançado sortes sobre o futuro. Suspensa da palavra dos seus áugures, tenham sido eles políticos, vendedores de sondagens ou profissionais dos média, a América foi aprendendo que Osama bin Laden era o tirano de Bagdade. Nem mais, o “império do mal”, onde havia enxofre, choro e ranger de dentes, de novo assentara arraiais nas cavernosas areias de um deserto do Médio Oriente. E logo um clamor imenso atravessou a Europa. Aquilo que os arúspices da América garantiam passou a ser repetido aqui: o monstro do 11 de setembro fora gerado nas entranhas malignas de Saddam Hussein.

A Europa dobrou-se, desse modo, à fatalidade da Realpolitik. Assolada por rivalidades intestinas, rendida por pressões diplomáticas, atraiçoada pela vontade de protagonismo e gozando a volúpia de tomar assento no carro dos vencedores, a Europa foi então esborrachada pelo rolo compressor de uma razão armada de baionetas, passando o seu ideal democrático a afivelar o andar pesado das botas cardadas e a respirar o ar de chumbo da “pax americana”.
Fomos, então, abandonados por aqueles que elegemos para garantir a liberdade, a justiça e a paz. E quem ocupou as nossas instituições apenas manteve cálculos que favoreceram uma reconfiguração do mapa do Médio Oriente, concebida para assegurar o domínio militar dos Estados Unidos e os seus interesses petrolíferos. A chamada “solidariedade atlântica” serviu sobretudo para vincar um distorcido espírito democrático. Tendo a Europa aderido à estratégia de uns Estados Unidos desordeiros, que se converteram em agitadores planetários, ruiu a nossa invisível razão de ser – um espírito de concórdia por uma Europa unida e pela paz no mundo.

Foi esta a história do “império do bem”, quando em 2005, atordoando os ares, se ergueu num turbilhão, por entre patas de galinha e os cacos da Europa.
Entretanto, em 2008, um tsunami financeiro, de ganância, usura e especulação, varreu Wall Street. E, a partir daí, em réplicas sucessivas, este tsunami fez soçobrar os países do Sul da Europa, com a ideia de “construção europeia” a sofrer um novo rombo.

Hoje, crescem soluções autoritárias e populistas, um pouco por toda a União. Em França, Hungria, Áustria, Itália… Crescem também o egoísmo, a intolerância e o racismo. E a Inglaterra está a um passo de deixar a União.

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