Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O sonho e a vida

A serenidade dos nossos lugares sagrados

Conta o Leitor

2018-08-05 às 06h00

Escritor

Autor: João Marga

Osino da aldeia tinha acabado de dar meia-dúzia de badaladas que ecoaram por montes e vales e era como que o despertar para as gentes que se levantam cedo para evitar a canícula do tempo quente.
Aquele som entrou quarto adentro, o João abriu os olhos e tapou as orelhas mas não queria sair da cama. O pai bem lhe berrava de longe para se levantar e ir levar o gado para o monte mas o garoto fez orelhas moucas e cobriu o rosto com o velho cobertor de lã e voltou a adormecer e a sonhar...
E sonhou que era o Pedro e vivia numa casa imponente, com uma enorme piscina e na garagem estava um bólide impressionante. A sua mãe era senhora linda e muito elegante e o pai um empresário de sucesso. Era filho único e tinha um criado para o servir. A sua vida era bela, era só desejar e tinha tudo o que precisava quase na hora. Os pais adoravam-no e ele usava isso em proveito próprio. Tinha tudo o que ambicionava: bicicleta, playstation, jogos de vídeo, um cão enorme que se enrolava nas suas pernas e a quem pouco ligava...mas sentia-se só. Não tinha amigos, a não ser o João, o filho do caseiro, rapaz bem pobre e que nada tinha a não ser energia física e uma vida de trabalho pois os pais obrigavam-no a levantar cedo, trabalhar depois ia à escola, depois trabalhar outra vez e, à noite, quando ia dormir, sonhava que era um menino rico como o Pedro, com tudo o que ele tinha e assim sentia-se feliz.
Um enorme estrondo acordou de vez o rapaz. O pai cansado de tanto esperar entrou no quarto de rompante e abriu a porta mas foi surpreendido pela audácia do filho que tinha colocado um balde no cimo da porta para evitar ser acordado.
- Ah malandro, por nada partias-me a cabeça! - berrou o pai, dando um salto para trás.
O Pedro riu-se sem parar e contagiou o pai que o abraçou dizendo "tal pai tal filho, raios parta!" Eu era como tu, meu malandro - anda lá, levanta-te que se faz tarde...
E lá foram os dois tratar das tarefas diárias, não sem antes beberem uma chávena de leite da vaca turina e um naco de broa que a mãe cozera uns dias antes.
O sol já queimava o corpo franzino do João mas ele nem sentia. Tinha o gado a pastar no monte e às costas levava um cesto para apanhar medronhos e pinhas para a lareira. Mas o que ele mais gostava era de correr atrás dos coelhos bravos, subir às árvores e ver ninhos com passarinhos a piar. Lá no alto das árvores sentia-se o maior de todos os rapazes da aldeia.
O Pedro acordou tarde, espreguiçou-se e continuou enrolado no seu edredão de seda. O seu quarto era enorme, com grandes espelhos e pratas a brilhar como raios de sol.
O cão dormitava no seu tapete persa e a sua língua rosada caía-lhe pelos cantos da boca. Com os seus olhitos negros e profundos observava o Pedro com ar indiferente.
Levantou-se já o sol estava a pino. Tinha tomado um bom o pequeno-almoço na cama. Olhou para os seus brinquedos e nenhum lhe despertou interesse. Nada de novo para fazer. Nadar na piscina? Cansava muito. Brincar com o seu cão? Atirava um pau mas o animal nem ligava, sentava-se a olhar...o pau.
Deitou-se na sombra da frondosa acácia que tinha no seu jardim...e adormeceu. E sonhou que era o seu amigo João e que corria pelos montes atrás dos cordeiros, fazia das ovelhas as suas cavalgaduras, subia às árvores para olhar os passarinhos que de olhos fechados abriam o bico à espera de comida. O Pedro levava-lhes migalhas de broa e eles adoravam. Ele ria-se … Como era tão feliz apesar de ser pobre e não ter um único brinquedo. Mas não precisava deles. Brincava com aquilo que via. Os pais eram pobres e trabalhavam no campo, viviam numa casa com uma pequena lareira e comiam uma comida sem grandes salamaleques, nem criados a servir nem copos a brilhar nem talheres de prata. Eram coisas banais, uma toalha desbotada e uns pratos outrora brancos, floridos e pouco mais. Mas aquela comida cheirava bem e sabia melhor. E falavam das coisas que faziam e riam enquanto comiam. Depois acordou com o latir do seu cão. Abriu os olhos e viu o seu amigo João, cabelo despenteado mas um sorriso radiante. E invejou-o, quis ser ele. O João olhou-o e pensou que bom que seria ser o Pedro, sem nada para fazer, estar a dormir enquanto ele trabalhava…Cada um queria ser o outro…
- Pedro, queres brincar ao esconde – esconde?
- Pode ser, mas sinto-me um pouco cansado de nada fazer. E riu-se…
- Bem, sou eu a contar – retorquiu o João.
- E sabes contar? Até quando?
- Ó Pedro, eu ando na escola e a professora diz que sou muito esperto só que é pena ser tão malandro. O meu pai diz que me está no sangue, que ele era como eu mas que com o tempo eu ganho tino.
- Bem, eu também faço tudo por ser bom aluno – replicou o Pedro - mas também leio muito e é a única coisa de que não me canso. Eu leio e vejo um filme em cada livro e eu sou sempre o herói da história… O que seria de mim se não lesse tanto…
E os dois rapazes lá acabaram a conversa tão rapidamente como a começaram e estiveram algum tempo nestas brincadeiras.
- João! João! – ouviu-se a voz forte do pai - ai moço, então vens ou não apanhar a palha?
- Já vou! Já vou! – ripostou o João.
E o João lá foi a correr ajudar o pai na faina agrícola e o Pedro ficou a olhá-lo e a invejar aquela vida que não tinha momentos de desânimo como a sua e voltou a deitar-se sob a sombra da acácia e tentou retomar o sonho interrompido um pouco antes. A seu lado o cão também se enrolou nas suas pernas e adormeceu mas ninguém sabe o que aquele animal sonhava… seria com o cão do vizinho, de raça vira-latas que só de vê-lo correr cansava? Não, de certeza que não!
A tarde longa e quente começou a esfumar-se. O sol escondeu-se por detrás do monte que ladeava a aldeia. Os pássaros recolhiam aos ninhos e as pessoas a suas casas. Ficou no ar um odor a erva seca e a cantares campestres. E novamente outros sonhos iriam assomar naquelas cabecinhas jovens. E é o sonho que faz esta vida ser tão bela…

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