Correio do Minho

Braga, terça-feira

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O sino de S. Vicente que foi parar a Tadim

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2019-03-31 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Braga é conhecida pela quantidade de igrejas e pelos sinos que cada uma comporta. Através destes a população era cnhecedora não só das atividades religiosas, mas também dos alertas referentes a algum incidente que a localidade estava a sofrer ou em risco de sofrer.
No entanto, o toque dos sinos incomodava alguns habitantes, ao ponto de ser proibido o seu toque à noite. Em Braga, em outubro de 1861, o toque dos sinos foi proibido durante a noite, por decisão do arcebispo de Braga. Apesar de ter sido uma decisão sensata, que agradou à maior parte dos bracarenses, os sacristãos e armadores não ficaram nada contentes com esta proibição. Tal como se pode ler em “O Bracarense”, de 15 de outubro de 1861, esses “taes sachristãos, que vivem do badalo, começaram a oppôr-se ás ordens do Prelado, e parece que s. exc.ª precisou de toda a energia para resistir ás exclamações e intrigas dos salafrarios”.
Apesar da proibição ter sido respeitada, em algumas ocasiões ainda se ouvia o toque dos sinos à noite, pois “n’uma das noutes passadas ouviu-se também o sino d’agonia – pregoeiro da morte, que serve só de afligir os sãos e apressar o termo fatal dos enfermos”.
Apesar de tudo, com o decorrer dos anos, o toque dos sinos continuou a incomodar muita gente. O editor do “Correio do Minho” (Manuel José de Castro), na edição n.º 98, de 6 de fevereiro de 1903, desenvolveu a questão relacionada com os sinos, referindo que Braga é uma terra conhecida a nível nacional e internacional pela enorme quantidade de sinos que tem, de tal forma que “se fosse de molde a elevar-nos no conceito social, nenhuma terra se nos avantajaria”. No entanto, este reconhecimento de Braga no país apenas serve para “cobrir de ridículo a ideia triste que pelo paiz se forma de nós…”.
O ridículo a que o editor se referia era à forma como eram tocados alguns sinos em Braga: “Se ao menos fossem sinos de gente civilisada, vade. Mas não; com excepção dos sinos de Santa Cruz e S. Vicente, são uns monstros de metal, que causam ruídos ensurdecedores e desordenados, d’arripiar, ferir e sangrar os ouvidos de quem esteja acostumado aos sons musicais que tanto educam como deliciam o espirito”.
As críticas do editor, que porventura dava voz às queixas que existiam por parte das populações, especificavam os responsáveis desta situação, concretamente os “snrs sineiros, talvez muito honestas pessoas, mas sem duvida ainda não muito distantes dos seus originários anthropoides (sem offensa) sentem-se artistas lá no alto das torres, e é vêl-os, puxa d’aqui, puxa d’ahi a extrahir ruídos medonhos com que elles se envaidecem”.
O incómodo provocado por este barulho era de tal ordem que “depois do primeiro repique, vem segundo, terceiro e mais, e de cada vez o artista do sino se sente mais artista e com mais gosto e mais enphase, estica pela corda do badalo”. A convicção e certeza desta análise está bem explicita na afirmação: “Façam favor de reparar no sineiro dos Congregados e verão como lhes dizemos a verdade”! As pessoas que necessitam de repouso eram incomodadas pelos sinos que, de tanto “badalar impiedosamente”, acabam por “tolher” o dia às pessoas.
Manuel José de Castro diz reconhecer que a religião católica é oficial em Portugal e reconhece que os sinos são importantes para chamar os fiéis aos templos. Por isso, sugeria que os sinos fossem limitados ao máximo e deviam ser “afinados como os de Santa Cruz”, que permitiam a audição de “sons agradáveis e musicaes, próprios para pessoas civilisadas e portanto delicadas nas manifestações de sensibilidade e não os ruídos desconchavados que para ahi se ouvem dignos d’uma dança infernal de pretos selvagens”.
Na maior parte das terras civilizadas, raramente se ouvem os sinos a tocar, e quando isso acontece, os sons não “mexem com os nervos como os nossos”. Assim, para Manuel José de Castro, os monumentais sinos que existem em Braga deviam ser substituídos por “carrilhões harmónicos e afinados” de tamanho bem mais reduzido. E com esta alteração, todos ficariam a ganhar, desde as pessoas, às confrarias que acabariam por meter “dinheiro nos cofres”.
Passados pouco mais de dois anos destas críticas, o maior sino, que fazia parte do antigo carrilhão da igreja de S. Vicente, foi transferido para a igreja de Tadim. Pesava 1080 Kg e foi oferecido por Custódio Braga, diretor do Banco do Comércio do Rio de Janeiro.
Esse enorme sino foi colocado na torre da igreja de Tadim, no dia 15 de outubro de 1905, e para esse trabalho foram necessários vários homens para o conseguir colocar no cimo da torre. A dificuldade do trabalho era tão elevada, que um dos homens acabou por ficar ferido!

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