Correio do Minho

Braga, terça-feira

O sineiro que caiu da torre da Sé de Braga

Três apontamentos

Ideias

2017-03-19 às 06h00

Joaquim Gomes

Durante o dia é frequente ouvirmos o toque dos sinos das igrejas que nos rodeiam quase revivendo os versos pessoanos: “Ó sino da minha aldeia,/Dolente na tarde calma,/Cada tua badalada/Soa dentro da minha alma.”
Apesar de ter sido utilizado já na Grécia Antiga, o uso do sino passou a vigorar na civilização europeia quando, em 604, o Papa Sabiniano, para além de determinar que as igrejas deveriam ter sempre lâmpadas acesas, regularizou também o som dos sinos para assinalar o momento da oração e do recolhimento.
A partir desta altura, as igrejas na Europa passaram a tê-los nas suas torres para anunciarem aos fiéis as suas obrigações religiosas.
Para além das funções religiosas, os sinos serviram, durante séculos, como meio de informação e de alerta às populações sobre a iminência de ataques de outros povos ou de calamidades naturais.
Atendendo ao catolicismo bastante vincado em Braga, não é de estranhar que os fiéis rapidamente se habituassem aos toques dos sinos. O batismo, o casamento, o funeral, ou até a saída e chegada do arcebispo a Braga eram marcados por diferentes sons produzidos pelo seu badalo e que as populações identificavam de cor!
A Sé de Braga, o expoente máximo do Cristianismo na região, não podia deixar de ter nas suas torres os respetivos sinos e ainda aqueles que dominavam a arte de os tocar. Foi neste contexto que ocorreu uma tragédia na torre da Catedral envolvendo o seu sineiro! Tudo aconteceu há 144 anos, um domingo, dia 8 de junho de 1873.
A década de setenta, do século XIX, foi marcada pelas dificuldades económicas dos bracarenses e dos portugueses, visíveis nas habitações pouco dignas (que dividiam com animais), numa alimentação deficitária e em espaços públicos marcados por uma sujidade quase permanente (muita poeira no verão; muita lama no inverno).
Nesta conjuntura, as grandes famílias de Braga preferiam passar os seus dias no conforto dos seus belos lares, saindo à rua poucas vezes ao longo do ano e, normalmente, apenas para cerimónias públicas, principalmente as políticas ou religiosas.
Por outro lado, a maioria da população era pobre e tinha que trabalhar arduamente para conseguir sobreviver. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o sineiro da Sé de Braga.
Uma vez que o dinheiro que recebia na arte de tocar o sino da Sé não era suficiente para manter a família, o sineiro António José Rodrigues intercalava-a com arte de sapateiro. Assim, aproveitava todo o tempo livre que o toque dos sinos lhe proporcionava, para consertar o maior número de sapatos possível.
Nesse sábado, dia 7 de junho de 1873, António José Rodrigues tinha trabalhado durante quase todo o dia na sua oficina a satisfazer os seus clientes. No dia seguinte, domingo, logo pela manhã, dirigiu-se para a torre da Sé de Braga para tocar o sino, como habitualmente o fazia. De seguida, desceu da torre e integrou o coro da igreja, para regressar, findo a cerimónia religiosa, ao alto da torre, preparando-se para novo ritual do toque do sino, que alertava a população para a cerimónia religiosa seguinte. No entanto, quando se encontrava à espera do sinal para continuar a tocar o sino, “teve a imprudência de deitar-se n’um dos campanários fronteiro à rua do Poço, á espera de signal para prosseguir nos costumados toques”. (1)
Cansado de um dia e de uma noite de trabalho, António José Rodrigues adormeceu, num sono leve, que não o impediu de ouvir na totalidade as suaves badaladas que uma pequena sineta lhe transmitia para, de seguida, voltar a tocar o sino da Sé.
Quando novamente a sineta tocou, alertando-o para a obrigação de repetir o toque do sino, António José Rodrigues levantou-se precipitadamente e, meio ensonado, em vez de dirigir-se para o lado da torre onde se encontrava o sino fê-lo no sentido contrário e, com os “olhos ainda fechados, talvez, procurava sahir da borda do abysmo em que se havia colocado, para ir cumprir a sua obrigação”. Contudo, desequilibrou-se de imediato e “persuadido, porém, que se voltava para o centro da torre, voltou-se para o lado de fóra”, caindo estrondosamente sob a calçada da rua.
A queda de António José Rodrigues do alto da torre da Sé de Braga foi de tal forma violenta que o seu corpo ficou num estado lastimável, perecendo logo ali. Juntaram-se de imediato centenas de pessoas no local que comprovaram o horror ao ver o corpo do sineiro da Sé de Braga, já cadáver.
Os gritos de pranto e de alarme rapidamente ecoaram por todo o largo da Sé, ficando esse domingo, dia 8 de junho de 1873, na memória dos bracarenses, como o dia em que, do alto da torre da Sé, o seu estimado sineiro caiu e morreu!

1) Jornal “O Commercio do Minho”, de 10 de junho de 1873

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