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O silêncio das armas na noite de Natal

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O silêncio das armas na noite de Natal

Ideias

2021-12-12 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Desde os tempos imemoriáveis, a convivência entre os povos tem sido marcada por vários conflitos, mas também por momentos de cordialidade e de solidariedade. Assim, quando estamos a menos de duas semanas do Natal, quero recordar um dos mais brilhantes episódios de harmonia e paz ocorrido há 107 anos, exatamente no primeiro Natal da Primeira Guerra Mundial.
O ano de 1914, marcado pelo início desse grande conflito, que muitos julgavam ser rápido, acabou por se prolongar por uns dramáticos cinco anos.

Como o inverno na Europa Central é marcado por um clima rigoroso, o dia a dia nos locais de combate, principalmente nas trincheiras, não era nada fácil. Um espaço onde os homens combatiam e viviam acompanhados por ratos e descrito por imundícies. Se associarmos a este quadro, o estado permanente de alerta que era necessário manter, compreende-se desta forma que os soldados desejassem um momento de pausa nesta terrível guerra.
Essa trégua era esperada, há medida que se aproximava o Natal. Uma festa em que os soldados, muitos na casa dos 20 anos, suspiravam para puderem viver alguns momentos de alegria.
No entanto, os violentos combates entre os soldados dos vários países europeus, principalmente entre os alemães e os austríacos, por um lado, e os ingleses e franceses, por outro, impressionavam os cidadãos desses países, que ficavam alarmados com o desenrolar destes acontecimentos. A prová-lo basta recordar as várias tentativas de paz, desenvolvidas por grupos de cidadãos, como foi o caso da célebre “Carta Aberta de Natal” assinada por 101 mulheres sufragistas britânicas, no final de 1914, e direcionada às mulheres da Áustria e da Alemanha.

Também o Papa Bento XV, que tinha iniciado o seu pontificado a 3 de setembro de 1914, já a Guerra tinha eclodido, tentou por todas as formas envolver-se em constantes tentativas de pacificação deste conflito, mediando encontros entre os representantes dos países beligerantes, assim como apresentando propostas que visassem o fim do conflito armado.
No dia 10 de dezembro de 1914 o “Commercio do Minho” faz referência a essa tentativa do Papa Bento XV, efetuada a 7 de dezembro de 1914, na qual refere que “O Papa iniciou negociações diplomaticas com os belligerantes para conseguir a suspensão de hostilidades no dia de Natal”. Expectantes e otimistas, o redator do jornal acreditava que “O pedido do Papa será favoravelmente acolhido, embora uma parte dos belligerantes seja orthodoxa e a outra muçulmana”. Infelizmente, esta iniciativa acabou por não ser aceite pelos altos responsáveis dos países em confronto.

Já a 1 de novembro de 1914, o Papa Bento XV tinha demonstrado a sua grande preocupação pela situação política e social do momento, ao referir em Roma que a procura da paz devia ser permanente, perante uma tempestade que atingia a sociedade. Também no 7 de fevereiro de 1915, as igrejas de toda a Europa realizaram preces pela paz, por ordem de Bento XV.
No meio desta agitada situação diplomática e militar, revelavam-se momentos de convívio e de harmonia entre militares de ambos os lados, verificando-se esporádicos episódios como, por exemplo, o socorro prestado a soldados inimigos feridos. Contudo, o momento mais marcante ocorreu na noite de Natal de 1914, quando alguns soldados alemães resolveram decorar as trincheiras onde se encontravam, na região de Ypres, Bélgica, com objetos alusivos ao Natal, nomeadamente velas e árvores. Separados por escassas dezenas de metros, os soldados ingleses, franceses e belgas responderam também com cânticos de Natal, chegando ao ponto de todos acabarem por cantar, em uníssono, as mesmas canções de Natal.

No dia 25 de dezembro, logo pela manhã, realizou-se uma missa, em inglês e alemão, celebrada por um padre escocês e um seminarista alemão.
Na ocasião, ocorreram outros episódios de fraternidade, tal era o cansaço dos soldados. Um deles tem como protagonista um soldado britânico, aspirante a barbeiro, que cortou o cabelo a vários colegas alemães! Bruce Bairnsfather, o soldado britânico que assistiu a estes momentos, escreveu que “Eu não perderia aquele único e estranho dia de Natal por nada deste mundo... reparei num dos meus artilheiros, que era cabeleireiro amador na vida civil, a cortar o cabelo bastante longo de um boche dócil, que estava pacientemente ajoelhado no chão, enquanto a máquina de corte deslizava em volta de seu pescoço”. (1)
Também Richard Schirrmann escreveu que "Quando os sinos de Natal soaram nas aldeias do Vosges atrás das linhas... aconteceu uma coisa nada militar. As tropas alemãs e as francesas fizeram espontaneamente as pazes e cessaram as hostilidades; eles se visitaram uns aos outros através de túneis de trincheira em desuso, trocaram vinho, conhaque, cigarros, pão-preto da Vestefália, biscoitos e presunto. Eles permaneceram bons amigos mesmo depois do Natal." (2)

Há referências, embora não confirmadas, a um possível jogo de futebol, realizado na localidade de Saint-Yves (Bélgica), na véspera de Natal de 1914, entre soldados ingleses e alemães, tendo os ingleses vencido por 3-2.
Estes pacíficos momentos entre soldados inimigos não foram do agrado nem das autoridades militares, nem de outros soldados que tiveram conhecimento deste episódio. Um deles foi Adolf Hitler, na altura com 25 anos e membro do 16ª Reserva Bávara de Infantaria, que referiu que ocorrências que envolvessem convívio entre inimigos não deveriam ser permitidas!
A poucos dias do Natal, numa altura em que a nossa sociedade vive também momentos de desgaste emocional, creio ser oportuno recordar estas tréguas de Natal, como um dos mais emocionantes acontecimentos a que a Humanidade assistiu, no meio de tantos que marcaram de forma terrível o século XX!


1) "Bullets & Billets”, Bruce Bairnsfather, 2012.
2) “The first youth hosteller”, Richard Schirrmann, 1962.

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