Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O sheriff de Nottingham

Sinais de pontuação

Ideias

2013-01-26 às 06h00

José Manuel Cruz

Dum tempo remoto, em que a televisão passava a preto e branco e que nós, catraios, corríamos para o único aparelho disponível na esquina da rua de Janes, para seguirmos alguma série eleita das tardes de sábado ou de domingo, recordo hoje, por curto-circuito com a realidade, a figura do sheriff de Nottingham, vilão execrável da vida romanesca de Robin dos Bosques.

Episódio após episódio havia uma patifaria orquestrada pela cupidez do sheriff, que logo Robin e companheiros de armas desfaziam: algum cativo que era devolvido à liberdade, algum plano mirabolante para resgatar os bens ou o metal que, exorbitando, o sheriff cobrava em taxas e impostos, que arrastavam os aldeões para a penúria, e que pelos artifícios dos fora-da-lei nunca chegavam a entrar senão transitoriamente nos arcazes do déspota.

Todos gostávamos de Robin e dos seus companheiros, todos víamos como legítima a espoliação do espoliador. Era um tempo em que ainda ecoavam as façanhas do Zé do Telhado que, dizia-se, na Stª Marta teria o seu refúgio mais setentrional. Era o tempo em que se podia arrastar uma partida de polícias e ladrões por toda uma tarde, sem que o papel dos ladrões tivesse uma conotação pejorativa, esperando-se, aliás, que na equipa dos ladrões houvesse o rasgo e a agilidade para libertar sistematicamente os pares entretanto aprisionados.

É assim que, às primeiras notícias da manhã, propagando-se que o Governo se prepara para acrescer portagens a estradas já portajadas - para, por ridículo maior, acrescentar um pórtico de cobrança adiante da portagem da Maia -, me vem à memória o infausto sheriff de Nottingham que, como quer que se desdobrasse em estratégias para esmifrar o último centavo dos seus súbditos, nada via acumular nos cofres da fazenda. Connosco passa-se algo de semelhante: taxas, tarifas, impostos, eclodem como cogumelos após chuva outonal, mas nada estanca a apetência de recursos para prover às necessidades orçamentais.

O desemprego galga como uma torrente em fúria, não há investimento produtivo nem crescimento económico que o detenha. Toda a gente sabe que só uma inversão dramática do desemprego pode aliviar o quadro opressivo em que vivemos. Seguro diz no Parlamento que a prioridade são os portugueses, não o regresso aos mercados, que a prioridade é o emprego, não o controlo do défice.

As verdades cristalinas de Seguro não esbatem a falsa promessa do seu antecessor. Todos nos lembramos dos 150000 postos de trabalho, promessa eleitoral com que Sócrates chegou ao poder. Já então o desemprego era uma chaga, que agora vemos quadruplicada. Sócrates, falhando, procurou iludir a promessa não cumprida: que não era uma promessa, era um objectivo; que a criação de trabalho na dimensão referida não significava que a taxa de desemprego não aumentasse, pela perda ainda mais expressiva de postos de trabalho provocada por falências e deslocalizações.

Sócrates falhou redondamente na promessa de emprego. Coelho falhou redondamente na promessa de não aumentar a austeridade. Seguro, ainda longe do poder, sabe que o que diz é de validade puramente estratégica, para recuperar a cadeira que o seu partido tem ocupado repetidamente desde 1975, salvo a década de Cavaco e os três anos em conjunto de Durão Barroso e Santana Lopes.

Que nos diga Seguro, como é que num seu consulado aumentaria o emprego: graças a quê? De Passos Coelho estamos desenganados. Há registo público duma conferência de Passos Coelho, em Novembro, em que taxativamente diz que não são os governos que criam emprego. Quer dizer, até pode haver governos que se dediquem à criação de emprego, mas não um governo de Passos Coelho, que muito possivelmente se reserva para tarefas bem mais relevantes, vá-se lá saber quais possam ser.

Passos Coelho não vê que caia no seu papel de governante a criação de emprego que absorva a força de trabalho do País. Talvez seja só um deslize de sentidos, mais que um jogo de palavras. O Governo negoceia a criação de emprego, pelo menos é na dignidade de governante que vejo Paulo Portas a anunciar 120 postos de trabalho que uma multinacional francesa irá criar no Fundão. Só que por dez dúzias de novos empregos não há como julgar positivamente um governo ou um governante. São precisas 500 vezes mais empregos que aqueles escassos 120 para que alguma estabilidade se instale entre nós, no País e nas nossas famílias. Até lá, qualquer governante não fará mais do que um caudilho da idade média: multiplicará taxas. Talvez consiga a proeza de fazer pagar duas vezes a mesma portagem.

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