Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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O senhor deputado da Nação

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Ideias

2019-09-29 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Das eleições legislativas, que irão realizar-se daqui a uma semana, serão eleitos 230 deputados que, nos próximos quatro anos, terão a tarefa de contribuir para o desenvolvimento de Portugal.
De todos os deputados com assento na Assembleia da República, entre os quais os 19 eleitos pelo distrito de Braga, poucos irão destacar-se no Parlamento e obter uma reputação pública correspondente ao cargo de enorme prestígio, como o de deputado da Nação!
A falta de notoriedade de alguns deputados contrasta com o prestígio dos representantes da nação portuguesa, no século XIX. Entre esses, destacou-se um bracarense, José Borges Pacheco Pereira de Faria.
O cargo de deputado, exercido em Lisboa, implicava que os parlamentares que viessem de mais longe, da província, como então se dizia, tivessem de ficar durante semanas seguidas ausentes de casa. Por isso, quando regressavam, os que tinham maior notoriedade eram sujeitos a enorme receção. Foi o que aconteceu com o deputado José Borges de Faria.
Natural de Braga (nasceu a 29 de abril de 1850), Borges de Faria foi presidente da Câmara Municipal de Braga de 1882 a 1886, deputado por Braga e por Esposende, Comissário da Polícia e um dos fundadores da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Braga.
Como presidente da Câmara Municipal de Braga, o seu mandato ficou marcado pelo melhoramento das estradas da cidade e do concelho de Braga, pela reformulação dos serviços municipais e ainda pela inauguração da sala das sessões da Câmara Municipal de Braga, que ocorreu a 6 de julho de 1886.
O cargo de deputado implicava, então, que passasse muitas semanas seguidas em Lisboa. Por isso, quando regressava a Braga, Borges de Faria era recebido com grande entusiasmo pelos bracarenses. Foi o que aconteceu no início de março de 1886.
No dia 2 de março de 1886, o periódico “O Commercio do Minho” referia que “Saiu esta noite de Lisboa, no comboio das 10 e meia, o exc.mo snr dr. José Borges de Faria, digno presidente da camara municipal d’este concelho, deputado por este circulo e um dos mais prestigiados membros da comissão de defesa da integridade do distrito de Braga. S.ex.ª terá uma sympathica recepção feita pelos seus numerosos amigos”.
No dia 6 de março de 1886 foi descrito, em “A Correspondência do Norte”, a receção feita em Braga ao deputado José Borges de Faria. Pese o facto de o dia ser marcado por chuva torrencial e muito vento, logo às 9 horas da manhã a estação dos caminhos-de-ferro de Braga encontrava-se já apinhada de gente: “a gare estava perfeitamente repleta. Viam-se ali varias corporações, a camara municipal, funccionarios, associações, membros da imprensa e um subido numero de pessoas de todas as classes sociaes: mais de três mil pessoas aguardavam a chegada de um dos mais dignos defensores dos direitos d’esta cidade”.
Apesar de “chover a bem chover, mais de 3:000 pessoas aguardavam, na gare da estação do caminho ferro, a chegada do nobre deputado, que tanto se tem empenhado pela defesa da integridade do districto de Braga”.
O orgulho dos bracarenses em relação ao seu Deputado era de tal forma grandioso que, mal o comboio chegou à estação, vindo de Lisboa, numa viagem que durou exatamente 12 horas, foram lançadas várias girândolas de foguetes e três bandas de música tocaram o hino de Braga.
Quando “s. ex.ª apeiou houve uma scena de delirio, porque todos procuravam approximar-se do prestimoso membro da commissão de defesa da integridade d’este districto e significar-lhe felicitações e agradecimentos”.
Recorde-se que o ano de 1886 ficou marcado pela célebre polémica relacionada com o projeto de lei apresentado pelo deputado João Franco Castelo Branco, no qual solicitava a desanexação do concelho de Guimarães do distrito de Braga e a sua junção ao distrito do Porto.
A multidão, que começou por ser de cerca de três mil pessoas à saída da estação de Braga, foi aumentando, até chegar à sua habitação, o célebre palacete situado no Campo das Hortas.
Na sua casa, José Borges de Faria permaneceu algumas horas, a descansar. Ao início da tarde resolveu dirigir-se à casa da sua família, o palacete de Infias. Entre o palacete das Hortas e o palacete de Infias, a multidão de pessoas permaneceu aí desde o meio da manhã até ao início da tarde, só para ver o político que muito admiravam. Entre a rua de S. Vicente e a casa de Infias, todo o percurso estava repleto de bandeiras.
Nos jardins da casa das Hortas foram “levantados vivas ao nobre defensor da causa de Braga, e as musicas executaram dentro do jardim da casa das Hortas os hymnos nacional, bracarense e da comissão”.
Com essa brilhante receção a Borges de Faria (pai dos célebres Irmãos Roby, que se destacaram nas campanhas militares em África) os bracarenses apresentavam “Os parabéns ao illustre deputado, nosso conterrâneo, que viu emfim coroados do melhor exito os seus esforços e canceiras”.

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