Correio do Minho

Braga, sexta-feira

O sarampo e as teorias alternativas

O Escutismo Católico no Alvorecer de Abril

Ideias

2018-03-19 às 06h00

Pedro Morgado

Nos últimos anos, um conjunto de teorias alternativas e sem qualquer sustentação pela evidência científica foram granjeando adeptos de uma forma muito surpreendente tendo em conta o aumento dos níveis de escolaridade e literacia das populações do chamado mundo ocidental. Antes de tudo, e para que possamos entender-nos, convém clarificar dois equívocos comuns.
Em primeiro, uma teoria não é um facto mas uma explicação (mais ou menos) fundamentada em factos e que carece de demonstração pela evidência. Por exemplo, quando surgiram os primeiros casos de SIDA, médicos, cientistas e outras pessoas interessadas nas questões de saúde e ciência propuseram distintas teorias acerca da origem da doença: uns acreditavam que era uma doença auto-imune, outros que era provocada por um vírus, outros que era provocada pela simples desregulação dos estilos de vida e outros que era derivada de causas sobrenaturais. Quando os identificaram o vírus em 1983, passou a ser um facto aceite por toda a classe médica e científica que a SIDA é provocada por uma infeção pelo Vírus da Imunodeficiência Adquirida (VIH). Estes cientistas demonstraram que o vírus existia e mostram a evidência desse facto numa publicação científica. Os procedimentos descritos podem ser replicados por qualquer pessoa em qualquer parte do mundo e, por isso, tornaram-se numa evidência científica para o exercício da Medicina.

Em segundo, a opinião de um cientista (ou de alguém com um curso superior de ciência ou de saúde) não é, necessariamente, uma opinião científica. Por absurdo imaginemos que um dos cientistas envolvidos na identificação do VIH passava a defender em entrevistas públicas e em artigos de opinião que o vírus tinha sido introduzido no planeta por extraterrestres do planeta Júpiter. Esta opinião de um cientista (ainda que notável) só poderia constituir-se numa evidência científica caso fosse demonstrada com factos escrutináveis e replicáveis por qualquer pessoa e em qualquer parte do mundo. De outro modo, não passa de uma opinião com o mesmo valor científico que eu achar que o Sporting Clube de Braga é o melhor clube do mundo (e acho mesmo).
O novo surto de sarampo que se instalou no país nos últimos dias não pode deixar ninguém indiferente. Desde logo porque ressuscitou o medo do regresso de doenças terríveis que julgávamos definitivamente erradicadas do mundo ocidental mas também porque resulta de um movimento global, mais ou menos concertado, de desacreditação da Medicina baseada na evidência científica.

Este movimento, como todos os movimentos que assentam em teorias da conspiração, não é respeitável na sua ação: apresenta teorias como se fossem factos demonstrados; utiliza depoimentos de pessoas com cursos superiores de ciência ou de saúde para difundir opiniões sem qualquer fundamento, fazendo o público acreditar que são opiniões científicas; difunde notícias falsas e alarmistas, agora denominadas fake news, para assustar as pessoas em relação aos riscos da Medicina; confunde, propositadamente, disfunções na prestação de serviços de saúde com a base científica da ação da Medicina; e apresenta soluções milagrosas e irrealistas para problemas de saúde muito sérios, desresponsabilizando-se das consequências do abandono dos tratamentos que têm eficácia demonstrada.

É um dado inequívoco que o desenvolvimento científico e tecnológico está na base do sucesso das sociedades democráticas do mundo ocidentais. Vivemos hoje mais tempo e com maior qualidade de vida do que em qualquer outra parte do mundo ou em qualquer tempo da História. Para quem duvida, o facto de termos um mundo tristemente desigual permite observar, em tempo real, como é a vida, a saúde e a doença em países sem acesso generalizado à Medicina baseada na evidência científica.
É por isso que a sociedade deve exigir aos seus políticos que decidam de forma informada e assente na melhor evidência científica, defendendo o interesse das populações e sem ceder aos lobbies das alternativas que se instalaram em alguns corredores político-partidários. E, no entretanto, vacinemo-nos em segurança contra as doenças infectocontagiosas e contra a conspiração travestida de sabedoria.

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