Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O roubo na agência de Braga do Banco de Portugal

Por mais cultura do treino e treino baseado na ciência

Ideias

2018-09-16 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

Manuel de Paiva Pinheiro era casado e residia na rua D. Pedro V, em Braga. Era um funcionário da agência de Braga do Banco de Portugal e, pelas suas mãos, passavam diariamente muitas transações financeiras, a sua maior parte em dinheiro.
Nessa altura, em janeiro de 1900, o nosso país atravessava uma crise económica que se repercutia no quotidiano das pessoas. O emprego na região era escasso, a indústria quase inexistente, a agricultura constituía a ocupação predominante da nossa população e a emigração para o Brasil era a fuga possível para aqueles que já não conseguiam obter o seu sustento no campo.
Assim, foi neste contexto de debilidade económica e social que Manuel de Paiva Pinheiro perdeu a cabeça com a maquia em dinheiro que viu à sua frente e resolveu desviar letras no valor de 500$000 e ainda alguns milhares de réis.
Logo que este caso foi do conhecimento público, os colegas de Manuel Pinheiro, na agência de Braga do Banco de Portugal, não hesitaram em culpá-lo, pois há algum tempo desconfiavam dos comportamentos estranhos e menos corretos do colega.
A notícia do roubo que ocorreu no Banco de Portugal, agência de Braga, rapidamente se espalhou e o consequente desaparecimento de valores elevados para a época agudizou as atenções e as curiosidades nesta região. O certo é que, logo após o conhecimento deste desvio, Manuel de Paiva deixou de comparecer no local de trabalho, desaparecendo mesmo da sua residência. Em Braga e nesta região não havia rasto de Manuel!
Logo foram desencadeadas buscas, levadas a cabo por colegas, por vizinhos e até pela polícia. Como não o encontravam nestas proximidades, as autoridades policiais alargaram o perímetro das buscas, desencadeando várias diligências para tentar descobrir o paradeiro de Manuel Pinheiro, quer em território nacional, quer em Espanha, tendo inclusivamente deslocado a Vigo um agente da polícia judiciária.
Uns dias depois veio a confirmar-se que Manuel Pinheiro fugira para Espanha, onde embarcou num porto em Vigo com destino ao Brasil. Uma vez que era frequente as embarcações espanholas fazerem paragens em portos portugueses, antes de partirem para o Brasil, a polícia portuguesa ficou em estado de alerta em todos os portos nacionais, no sentido de fiscalizar qualquer embarcação espanhola que aqui efetuasse paragem. De seguida, foram informadas as autoridades brasileiras, caso este bracarense pisasse território na ex-colónia portuguesa.
Enquanto não sabiam do paradeiro do larápio, a polícia capturou, e manteve em prisão, duas pessoas próximas do fugitivo, na expectativa destas virem a revelar algumas pistas acerca desta fuga.
Entretanto, os dias passavam e nem em Braga nem nesta região havia sinais da presença de Manuel Pinheiro. Até que, no final da segunda semana de fevereiro, surgiu a notícia de que este bracarense tinha sido capturado no porto de Pernambuco, no Brasil, para onde tinha viajado a bordo do vapor da Mala Real Inglesa.
Aí capturado, de imediato Manuel Pinheiro foi repatriado para Portugal, fazendo a viagem de regresso ao nosso país a bordo do vapor “Thames”.
Regressado a Portugal já no mês de março de 1900, Manuel Pinheiro foi presente ao Comissário da Polícia de Emigração, em Lisboa, a quem explicou as razões que o levaram a sair de Portugal, de forma clandestina, e ainda das causas que estiveram por detrás deste roubo de dinheiro na agência de Braga do Banco de Portugal.
Como o crime não compensa e, mais tarde ou mais cedo, acaba por ser descoberto, nada melhor do que recordar o episódio do funcionário da agência de Braga do Banco de Portugal. Para que sirva de exemplo e para que envergonhe aqueles que usam e abusam do dinheiro que não lhes pertence!

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