Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O rosto de quem encontro, de Torres de Campos

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2010-08-22 às 06h00

Escritor

No rosto de cada moçambicano descubro que o outro não é um punhado de pó, que podemos usar e deitar fora. Ele é alguém que em mim é como a água no mar, para que o oceano possa existir. Este povo ensinou-me que sou brisa que alastra ao cair do pôr-do-sol, quando me deixo inquietar pelo limiar do horizonte que é outro em mim. Ele não é noite, nem estrangeiro, mas é sempre madrugada a raiar no nascer de cada dia e me impele para ser soneto, mesmo quando a tristeza bate à porta da alma. Ensinou-me também que devo abrir sempre o sótão da existência ao outro e deixá-lo bailar em mim, mesmo quando não dançamos a mesma música.
Nenhum africano é sozinho, mas sempre em relação a alguém. Sozinho não é ninguém. Sem referências ao seu clã ou á sua tribo não passa de uma árvore seca que só serve para ser queimada. Está sempre preso a alguém que existiu e que agora é seu antepassado, alguém que existe e que agora é o seu aio. Preso numa rede de relações que o situam e definem, que lhe fornece uma linguagem, lhe impõe códigos, direitos e deveres, que nunca devem ser esquecidos.
Na semana passada, alguém veio pedir-me ajuda dizendo que ia visitar um irmão que se encontrava noutra província e que estava doente. Precisava de percorrer 2500 Km para encontrá-lo, mesmo sabendo que ele ia morrer. Precisava de vê-lo, de estar com ele... “Sr. Padre se eu sei por alguém, que meu irmão está doente e não vou visitá-lo não sou digno de continuar a viver” dizia-me ele com bastante confiança. É impressionante esta forma de ver o mundo e o outro. Este desejo de encontro, esta vontade de pôr-se a caminho só para ver e acalentar o sofrimento de alguém, como se fosse o seu e vê-lo é encontrar a sua própria vida e o direito de continuar a viver.
É nesta relação de face-a-face, entre o eu e o outro, que se estabelece a proximidade e se conquista a própria vida, cujo sentido primordial e último é a responsabilidade do eu pelo outro. Viver é este mistério de entregar-se a causas maiores, mesmo que seja só por um momento. É desprender-se de si próprio, das suas coisas e do seu egoísmo para responder ao outro, para defender precisamente o direito do outro que é gente, mesmo que para isso se tenha que vender tudo o que se tem. Com estes gestos vou descobrindo a liturgia da relação com os outros, sem a qual, é impossível estar aqui e ser feliz.
O africano é uma pessoa com esperança. Ele não necessita de ter certezas. Acredita na vida como um presente de Deus dado ao seu clã. Sente-se ligado a um destino para além das coisas que tem e acredita que mesmo depois de morto continua viver na memória do seu clã.
Sou um privilegiado ao ser recolhido pelo olhar atento deste povo, no meio destas ondas culturais! E, no enigma deste encontro fraterno, é espantoso como a comunicação entre irmãos outrora desconhecidos dá origem a uma fraternidade que parece que existe desde sempre. O alguém, que eu encontro, é o pulsar da comunhão, que me leva a olhar a vida como um encontro consentido por Deus, para que eu seja feliz. Vida real, porque não tem aparências nem artificialismos ligados pelo vazio que dariam origem a uma vida de plástico...
O rosto de quem encontro não tem máscaras, porque é rosto de gente pobre, humilde que confiou tudo nas mãos de Deus. Deus como agradecimento dessa confiança deu-lhes um sorriso tão belo que quem vem a África nunca mais o esquece. Mas nem toda a gente que vem a África esteve em África, mesmo que tenha vivido 10 ou 20 anos nela. Estar em África é descobrir a beleza dos rostos que falam vida, contemplar cada sorriso, admirar-se com a forma simples, mas profunda deste povo viver. Muitos vêem à procura de descobrir alguma coisa de diferente, mas nunca estiveram verdadeiramente aqui. Porque matam com o seu olhar o rosto africano, porque só vêem miséria, porque se acham superiores, raça pura e esquecem que quem não sabe contemplar o rosto do africano é o maior de todos os miseráveis. Miseráveis sim, porque não existe maior miséria do que estar no meio da vida e olhar para ela como algo de morto.
O rosto de quem encontro anima os meus passos e escreve as páginas da minha vida. Sem eles não haveria nada para dizer e nada para recordar. Eles são a respiração da minha existência. Quando deixar de olhar para eles deixarei de ter existência, porque não terei respiração, mas só vazio...

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