Correio do Minho

Braga, quarta-feira

'O rio teimoso', Por Paulo Taleixa

Semana Europeia da Prevenção de Resíduos

Conta o Leitor

2012-07-26 às 06h00

Escritor

Havia, num reino muito pobre, um rio que o atravessava de lés a lés.
Era grande e vaidoso, pois de outros reinos o enchiam outros afluentes e tinha no começo uma grande nascente. Era rico em peixe, marisco, e o povo desse reino vivia praticamente da pesca desse rio.

Logo que os fidalgos, e principalmente o rei, tiravam fruto do trabalho deles.
O rio desaguava num grande oceano, que ficava todo contente com toda aquela água fresca e pura.

Um dia, o rio pôs-se a pensar - ora, ora, por que sou eu sempre a levar a água ao mar? Por que o mar não sobe até mim? Por que me tiram os peixes em vez de me porem?
Nesse mesmo dia teve uma conversa com o oceano, e estava muito zangado.

- Só sou eu que te alimento! Que trabalho! E tu nada fazes senão receberes a minha água!
O mar, perplexo, ouviu aquela estúpida reclamação do rio teimoso, como se ele tivesse culpa.
Por fim falou:
- Amigo rio, a ordem da natureza é essa, e tem que continuar, que culpa tenho eu se tu nasceste rio e eu, mar? O sol brilha de dia, a lua de noite, deus fez assim a natureza! Nem tu, nem eu, nem ninguém a pode nem deve alterar.
O rio ouviu as palavras calmas do oceano, e ficou ainda mais zangado.
- Ai sim? Pois de mim não levas nem mais uma gota de água!
O oceano agitou-se um pouco, virou-lhe as costas e sorriu, pois não estava para aturar aquele maluco teimoso.

Mas, decidido no seu plano, o rio parou, e logo as consequências não se fizeram esperar. As margens começaram a transbordar porque os afluentes continuavam a entrar no rio teimoso, e a grande nascente não parava de jorrar a sua preciosa água. As terras começaram a ficar invadidas de água, e os afluentes perguntaram ao rio o que se passava. Ele explicou a situação, e eles disseram - ora, não estamos para trabalhar para o “boneco”! E tomaram outra direcção e formaram outro rio.

A nascente que fornecia o rio também lhe perguntou o que se passava, por que tinha parado, ao que ele lhe respondeu com tom de autoridade, e a nascente bondosa logo deixou de jorrar água. Então as margens do rio voltaram ao normal. Mas o rio não se mexia, e aconteceu que logo chegou o Verão, que naquele reino era muito forte, era escaldante.

O rio começou a baixar o caudal, a evaporar! Pois já não tinha nem afluentes nem nascente para o alimentar, nem iria chover durante longos meses.
O oceano teve que subir um pouco o caudal do rio para falar com ele, pois ele estava a encolher.
- Então, rio teimoso! Estás a ver as consequências da tua teimosia?
- Mas tu não te importas, oceano?
- Eu, não! Tu eras uma pequena gota que me alimentava. Agora os teus amigos formaram outro rio, para onde os homens foram pescar, onde há peixes, e tu estás a morrer!
- Ai de mim, oceano! Ajuda-me, diz aos afluentes e à nascente que voltem, não volto a fazer o mesmo.

- Não posso fazer isso, iria matar outro rio, e aquele é um rio bonito. E tu és feio e mal-educado.
Assim passado mais um mês, o calor era tanto que o rio teimoso evaporou de vez, deixando a debater-se uns peixes moribundos que apodreceram logo.

No seu lugar, do que foi um grande rio ficou apenas areia, pedras, em direcção ao mar, o que logo o rei foi visitar; e daquele trajecto, como já não estava lá o rio, fez uma estrada que foi direita ao mar fazendo um cais, docas, e assim começou a trazer vários turistas para visitarem o reino utilizando aquela que era a melhor estrada do reino.
Assim nasceu a indústria hoteleira naquele reino, tudo porque havia um rio que queria contrariar o círculo natural das coisas.

Moral da história: Quem é teimoso, acaba sempre mal.

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