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O rio Este e o lavadouro público de Braga

Aprender para ensinar a adaptar

O rio Este e o lavadouro público de Braga

Ideias

2021-04-08 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Apandemia, que nos afeta há mais de um ano, reforçou os cuidados de higiene que todos devemos ter. A distância que somos aconselhados a manter entre outras pessoas, a proteção que devemos colocar para que os efeitos da nossa respiração não infetem os outros, através do uso de máscara, a higiene das mãos e, em geral, do corpo, são agora bem mais frisados e enraizados do que antes da pandemia.
Nas últimas décadas, no nosso país, temos verificado uma melhoria acentuada nas condições de vida das pessoas, cujos reflexos são visíveis ao nível da qualidade das habitações, da alimentação, da higiene, da saúde e, em consequência, do aumento da esperança média de vida.
Sendo os cuidados de higiene um dos fatores que mais contribui para a expansão de doenças, de epidemias e até de pandemias, como a que vivemos, importa recordar um tema central na higiene doméstica e até pública que se verificava em Braga no início do século XX e que era causadora de várias doenças.
Na altura, com a exceção de um pequeno número de pessoas que vivia em casas senhoriais, e por isso com mais conforto, a larga maioria de bracarenses vivia no limiar da pobreza.
Então, como agora, um dos elementos essenciais para uma maior qualidade de vida era a água. Assim, a água canalizada apenas chegara às habitações do centro da cidade em 1914. Até então, as pessoas estavam dramaticamente limitadas deste recurso, indispensável às condições mínimas de vida. As casas, na sua maioria, não tinham água à disposição e eram poucas as que tinham fontenários ou nascentes de água.
Perante estas limitações, os fontenários que existiam espalhados pela cidade eram o primeiro recurso das pessoas mais pobres, mas também de animais que deambulavam livremente pela cidade e que aí iam beber, nomeadamente: cavalos, bois, vacas, ovelhas e carneiros.
Não havendo água canalizada, também a higiene pessoal era afetada. No entanto, no que se refere a tanques para as pessoas lavarem as suas roupas, as limitações aqui existentes eram levadas ao extremo. Assim, na falta deste recurso, os bracarenses andavam com frequência com roupas sujas e muito raramente tomavam banho. Daí resultavam doenças e, em vários casos, mortes.
Foi neste contexto que surgiram pedidos em Braga, logo no início do século XX, para que se estabelecessem na cidade tanques públicos onde as pessoas mais necessitadas pudessem lavar as suas roupas. Estes “lavadouros públicos”, como era frequente designa- rem-se, permitiriam às pessoas mais pobres um pouco de qualidade de vida, uma vez que “dentro das suas pequenas habitações sem ar, sem luz e sem água suficientes, não podem lavar convenientemente as suas roupas”. (1)
Assim, enquanto os ricos têm em casa água suficiente para lavarem as suas roupas ou, quando a não têm, podem pagar a “lavadeiras de fora da cidade” para que façam esse serviço, os pobres bracarenses não tinham essa regalia à disposição!
Uma vez que os pobres não tinham lavadouros públicos à sua mercê, tinham de deslocar-se principalmente ao rio Este. Há vários testemunhos, escritos e fotográficos, de mulheres a lavarem as suas roupas nas águas do rio Este, concentradas principalmente junto à ponte de S. João.
Uma vez que nos meses de outono e de inverno o frio fazia-se notar de forma intensa, muitas mulheres preferiam nem sequer lavar as suas roupas. Desta forma, o odor de muitas destas pessoas era nauseabundo, devido às suas roupas sujas, e devido aos seus corpos por lavar. Como consequência, as doenças eram constantes e até as epidemias ocorriam com frequência!
Perante esta situação, o desejo dos bracarenses era estabelecer em Braga um amplo lavadouro público onde “pelas suas comodidades, pelo seu asseio, pela sua situação e pelo seu abrigo, se derive uma corrente de concorrência, que afaste muita imundice e que incite o povo á pratica da limpeza, condição indispensável para a boa hygiene”. (1)
A concretização de um lavadouro público atrairia, garantidamente, muitas pessoas à sua utilização. No entanto, para evitar aglomerados de pessoas junto ao tanque, seria necessário criar um regulamento específico, que limitasse o seu acesso preferencialmente aos pobres bracarenses, tendo os ricos, se o quisessem frequentar, que pagar “alguma coisa pela lavagem das roupas”.
As doenças comuns em Braga, neste início do século XX, eram a difteria, a febre tifoide, a meningite, a tuberculose e várias pneumonias, a maioria delas provocadas pela falta de higiene e pela imundice que aqui vigorava. Aliás, Braga registada uma taxa de mortalidade de 32% por 1 000 habitantes, valores então dos mais elevados da Europa. E uma das causas principais para esta triste realidade era a inexistência de lavadouros públicos e ainda de água canalizada. Acrescia a esta situação, as pobres habitações, muitas delas em terra batida e com animais a coabitarem com os seus donos e com as suas famílias.
Por esta razão, para além do lavadouro público, várias pessoas defendiam a construção de uma piscina pública, onde os pobres pudessem banhar-se e retirar dos seus corpos a porcaria que os cobria com regularidade. Desta forma, contribuía-se para a melhoria da qualidade de vida das pessoas e da saúde pública.

1) Jornal “Correio do Minho”, de 4 de abril de 1902.

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