Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

O rigor dos invernos

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2010-03-08 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A época em que estamos a viver, marcada por temperaturas baixas, chuvas permanentes e tempestades constantes, é propícia a lembrarmo-nos de outros Invernos, com características semelhantes ao actual. De uma forma necessariamente sucinta, lembrar-se-ão aqui alguns dos Invernos mais rigorosos que a humanidade já assistiu.

Assim, um dos Invernos mais frios de que há registo aconteceu no longínquo ano de 547, onde se verificaram temperaturas tão baixas, que em França as pessoas atravessavam a pé todos os rios desse país.
Em 603, também em França, os Invernos foram de tal forma rigorosos, que os vinhedos foram destruídos em todas as regiões francesas.
Em 763, a temperatura no norte da Europa atingiu níveis tão negativos, que o Mar Negro gelou, numa profundidade de 45 pés (1); também nesse ano, o degelo abriu fendas nas muralhas de Constantinopla.
O Inverno de 974 atingiu temperaturas de tal forma baixas, que as pessoas atravessavam a pé o imponente rio Bosphoro (rio que atravessa a cidade de Istambul, maior cidade da Turquia, e que separa a Europa da Ásia).

O Inverno de 1011 ficou também marcado por baixíssimas temperaturas, uma vez que os rios Nilo e Bosphoro ficaram completamente gelados, de tal forma que as pessoas puderam circular por cima dos rios, e em completa segurança.

Em 1216 e 1224 todos os rios e lagoas de Itália ficaram completamente congelados. Já os Invernos de 1276 e de 1288 congelaram a região do Reno e de Vaidea.
No Inverno de 1337, o mar que liga a Dinamarca e o norte da Alemanha (cidade de Lübeck) ficou totalmente congelado, proporcionando mais uma vez que as pessoas circulassem com tranquilidade por cima desse mar.
Em 1364 o frio fez-se sentir de tal forma, que a região do Rhodano ficou com quinze pés de espessura.

Demasiado agreste foi o frio que se fez sentir no Inverno de 1408. Nesse ano, os gelos destruíram, na cidade de Paris, todas as pontes que existiam. Para além disso, o próprio procurador do Parlamento de França queixou-se que não podia registar os decretos, porque o frio solidificava a tinta da pena, apesar deste se encontrar junto à lareira. Nesse ano, mais uma vez, o mar entre a Noruega e a Dinamarca estava completamente solidificado. O frio provocou milhares de mortos, só em Paris. Verificaram-se, na ocasião, cenas horríveis, uma vez que os animais carnívoros circulavam pelas ruas da capital francesa e devorarem os cadáveres humanos.
No Inverno de 1430, o rio Danúbio ficou completamente gelado durante dois meses. Vinte e oito anos depois (1458), o mesmo rio, totalmente gelado, permitiu que acampasse sobre ele um exército de 40 mil homens.

Dez anos depois, na região da Borgonha, o frio congelou as bebidas, de tal forma que os soldados serviam o vinho às fatias congeladas.
Em 1493 o lago de Genebra e o porto de Génova ficaram totalmente congelados; em 1507 gelou o porto de Marselha, e em 1544, em Paris, o vinho vendia-se a peso e tinha que ser cortado a machado. Em 1594 o Golfo de Marselha e as lagoas venezianas ficaram completamente gelados.
Nos primeiros anos do século XVII verificaram-se, mais uma vez, Invernos rigorosos na Europa: em 1607 o gado morria de frio, dentro dos próprios estábulos, e em 1608 toda a vinha francesa ficou completamente destruída devido ao frio. Nesse ano, o pão congelava, logo ao sair do forno, e o vinho servia-se em gelo devido, claro, ao frio.

Em 1658 o rio Sena ficou congelado e Carlos X, da Suécia, atravessou-o com toda a tranquilidade, acompanhado pelo seu exército.
O rio Bosphoro voltou a gelar em 1669 e em 1683 um terço dos camponeses da região de Tours morreu devido ao frio. Ainda nesse ano, gelaram completamente os rios Sena, Adriático e Tamisa.
No século XVIII, logo em 1709, verificaram-se situações climáticas extremamente violentas, uma vez que gelaram todos os rios da Europa e da América Setentrional, tendo-se verificado ainda a morte de milhões de animais, nomeadamente aves. O Mar Mediterrâneo e ainda o Canal da Mancha ficaram, quase na totalidade, congelados. Em muitas regiões da Europa faltou o trigo, e na França, a vegetação desapareceu quase toda, devido, claro, ao frio.

O ano de 1740 ficou associado a um frio intensíssimo, uma vez que gelaram vários rios e alguns mares na Europa. Em S. Petersburgo, por exemplo, construiu-se um palácio de gelo, sobre o rio Neva.
O século XVIII não terminou sem se verificar mais um Inverno rigoroso. Foi o de 1795, durante o qual caiu neve em abundância, em 42 dias consecutivos. Episódio curioso ocorreu com a esquadra holandesa que, enterrada no gelo, foi tomada pela cavalaria francesa.

No século XIX verificaram-se Invernos rigorosos nos anos de 1803, 1823, 1829, 1830, 1833, 1855, 1864, 1865, 1871, 1876 e 1880. Destes, há a destacar o de 1830, que provocou a solidificação de quase todos rios de Espanha, provocando milhares de mortos. O Inverno de 1864 foi mesmo o mais frio, desde que se inventou o termómetro, atingindo a França 31.C abaixo de zero.
Quanto aos Invernos mais rigorosos do século XX, apresentar-se-ão aqui numa próxima oportunidade.

1) Pé (12 polegadas) corresponde a 30,48 cm.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

30 Novembro 2020

Um Natal diferente

29 Novembro 2020

O que devemos aos políticos

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho