Correio do Minho

Braga, terça-feira

O regresso do fantasma!

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2014-11-02 às 06h00

Artur Coimbra

1. No último dia do debate na generalidade sobre o Orçamento de Estado para 2015, que vai continuar a infernalizar a vida aos portugueses e foi aprovado, sem qualquer surpresa, pela maioria de direita, que o fez e o perfilha, o facto mais saliente foi a “ressurreição” do passado recente, o que até nem está mal para a véspera dos Fiéis Defuntos. Neste caso, foi o “fantasma” de José Sócrates que regressou em grande polémica, como arma de arremesso político, de ambos os lados da barricada parlamentar.
O líder parlamentar do PS, Ferro Rodrigues, atreveu-se a chamar à colação do debate o nome do antigo primeiro-ministro, para exaltar os esforços que fez, até ao limite, em 2011, para evitar a entrada no país da intervenção estrangeira, que se concretizaria no memorando da troika, porque, indisfarçavelmente, a vontade da direita chegar ao poder a todo o transe era mais forte que qualquer tentativa de, desinteressadamente, servir o país. Isso é história recente, e faz parte de uma narrativa que a direita subverteu completamente ao longo dos últimos três anos e meio, como se sobretudo o PSD não tivesse culpas no cartório da ingente necessidade de recurso ao crédito internacional. Teve-as e muitas.
Infelizmente, o anterior secretário-geral do Partido Socialista não foi capaz de combater essa mistificação, repondo a verdade histórica, o que acabou por ser também um dois factores que levou à sua humilhação nas “primárias” de Setembro que António José Seguro inventou, para nelas se queimar.
É claro que os partidos da direita vieram logo a terreiro vituperar a “assombração” e tentar desmontar a história. Paulo Portas, como vice-primeiro ministro ou líder do CDS, nunca se consegue saber onde (não) há estadista, encenou o seu pasmo perante a evocação de Sócrates, procurando fazer crer a quem o ouvia e o aplaudia freneticamente, como mero atestado de sobrevivência, que não foi nada assim e que o país estava às portas da bancarrota quando o PS foi obrigado a pedir a intervenção estrangeira. E estava. Porque a direita proclamava não estar disponível para exigir mais sacrifícios aos portugueses, que já tinham atingido o limite (até Cavaco embarcava na mesma liturgia…), por isso chumbou o PEC IV e o resultado foi a sua ascensão ao poder, que tanto almejava e, ao contrário de tudo o que prometera, num exercício macabro de incoerência e vigarice políticas, determinou uma dose cavalar de austeridade que é a “coroa de glória” deste governo, “amigo” do empobrecimento generalizado, mas também do surgimento de milhares de novos milionários, vá-se lá saber por quê; do brutal aumento de impostos com que atrofiou a economia portuguesa; do aumento selvagem do desemprego; do desmantelamento do tecido empresarial e comercial do país; da expulsão para a emigração de centenas de milhares de portugueses, sobretudo dos jovens qualificados. Podem limpar as mãos à parede pelo significativo trabalho de destruição e venda do país que legam aos vindouros.
Por isso, são apenas risíveis, as declarações patéticas de Luís Montenegro, quando apelidou os críticos do orçamento, que é, na verdade, mais do mesmo da receita da austeridade troikiana, de 'derrotistas' e 'cúmplices do passado'. Tem o desplante de proclamar que os portugueses 'percebem hoje que o PS não está preparado para governar', porque 'não compreendeu o seu falhanço e não aprendeu a lição do seu passado'. É preciso ter lata e não perceber nada do que se passou no país, nestes últimos três anos e meio, porque “os portugueses” de que fala Montenegro estão fartíssimos da política deste governo e sabem perfeitamente que, após um mandato de gente absolutamente imatura, impreparada, desconhecedora da realidade nacional, qualquer solução é bem melhor do que o caos instalado. Basta atentar nos últimos desenvolvimentos da incompetência governamental em áreas fulcrais como a justiça, a educação e a saúde, para não irmos mais longe.
Não quer isto significar, de modo algum, que é positivo o “regresso ao passado”. Não é, e espero bem que o Partido Socialista se credibilize com o recurso a gente nova, competente e conhecedora da realidade do país, para não repetir os erros e os desmandos de quem actualmente detém os comandos do poder e que lá chegou por insistente bulário de demagogia e pelo culto reiterado da mentira.
É urgente a renovação de rostos, de políticas e de estratégias. Porque de Cavacos, Portas, Ferros, Barrosos e quejandos, que dominam a vida política desde o 25 de Abril, praticamente, estamos todos fartos até à raiz dos cabelos!
Os portugueses merecem uma classe política mais forte, mais aberta, mais competente, mais eficaz, mais credível, mais próxima dos cidadãos, mais amiga dos valores e não dos interesses, mais voltada para o desenvolvimento do país e menos prisioneira das grandes empresas e do sistema financeiro.
Uma classe política que, de uma vez por todas, energicamente e sem receios, empreenda um combate frontal e desapiedado à corrupção e ao compadrio, cancros maiores e causas da decadência do país!...
2. Outras fantasias regressaram por estes dias. Pela voz de Portas, e relativamente ao orçamento de Estado, a fantasia de que o país tem 'mais soberania', 'mais dignidade', 'mais credibilidade'. Basta olhar em nosso redor, para concluir que o homem delira.
E a ficção do “crescimento económico acima da média da Zona Euro”, quando todos os indicadores revelam o contrário.
E a utopia da 'redução acentuada do desemprego'. Paulo Portas aludiu à queda da taxa de desemprego para 13,6%. 'Entre o início de 2013 e este Outono de 2014, diz o Eurostat, há 298 mil pessoas, portugueses, que deixaram o desemprego” - vangloriou-se, absurdamente.
Se o homem sabe matemática, faça um simples exercício: conte quantos portugueses emigraram, à média de 150 000 por ano, neste mesmo período. Acrescente quantos milhares de jovens (e menos jovens) estão envolvidos em estágios e programas de formação financiados pelo Estado, para mascarar o desemprego.
E tenha a coragem de confessar que a diminuição do desemprego não passa de uma treta. Não há menos desemprego. Há é menos portugueses inscritos nos Centros de Emprego, porque emigraram, porque desistiram de procurar emprego ou porque estão integrados em programas cujo objectivo é dissimular a realidade dramática da falta de oportunidades. O resto, é pura e simples demagogia!

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