Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

O regresso à sociedade feudal

Comunidades de aprendizagem

Ideias

2012-01-23 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Creio não existirem dúvidas que um país evoluído tem, necessariamente, que se apoiar num numeroso grupo de pessoas que possui hábitos sociais, culturais e económicos razoáveis. Esse grupo de pessoas, que não se insere nem nos mais carenciados nem nos mais abastados, são comummente conhecidos por classe média.

Como consequência das características próprias e úteis que possuem, a classe média acaba sempre por se tornar no principal motor de desenvolvimento, de equilíbrio e de justiça de uma sociedade. Sendo ela frágil, também a sociedade se torna inevitavelmente desigual.
Em tempos mais recuados, esta classe média poder-se-ia comparar à burguesia, que se situava precisamente entre os nobres e os camponeses, e que contribuiu, no caso concreto de Portugal, para o período mais áureo da nossa história: os descobrimentos.

Nas sociedades onde a classe média era frágil ou inexistente, verificaram-se períodos de estagnação económica, social e civilizacional. Em casos mais extremos, verificou-se mesmo um retrocesso na própria sociedade.
Têm surgido nos últimos dias e semanas cada vez mais pessoas a questionarem a fragilidade da actual classe média portuguesa. Não se escusando mesmo a afirmar que as estruturas da sociedade portuguesa tendem a equiparar-se às estruturas da Idade Média (1), com a sociedade feudal como epicentro.

Parece-me que, se entendermos a classe média como aquela camada da população que, de uma maneira simplista, ganha e gasta numa proporção idêntica, então creio que estaremos na actualidade perante um regresso das estruturas sociais a parâmetros muito próximos dos verificados na sociedade feudal.

Se atendermos à sociedade portuguesa actual, onde os mais ricos são uma minoria, e que pouco movimentam a economia e a sociedade; e se por outro lado atendermos aos mais desfavorecidos, que são cada vez mais, e que apesar de terem vontade, não possuem poder de compra que se torne significativo, então não restam dúvidas da importância de uma classe média para o fortalecimento de um país.

Se recordarmos que uma das características da sociedade feudal era a existência de um regi-me em que se identificava bem quem dominava com clareza e firmeza (era o senhor) e outro que era veementemente dominado (que eram os vassalos), então as estruturas da sociedade portuguesa actual tendem a aproximar-se da realidade medieval.

Se verificarmos que a sociedade feudal estava centrada em três ordens sociais: os que combatiam (nobreza); os que rezavam (clero) e os que trabalhavam (povo), verificamos que actualmente estas são características muito idênticas na nossa sociedade. Vejamos:
Em relação ao clero, actualmente desempenha um notável papel de meditação, mas também de mediação e até de alerta para os problemas sociais. Os seus membros são de uma formação excepcional, de uma sensibilidade social notável e de um sentido de humanismo e justiça altamente apreciáveis.

Neste contexto, dou apenas dois exemplos: as qualidades de D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga, e as qualidades de D. José Policardo, cardeal de Lisboa. Quem nos dera termos dirigentes políticos e governativos com estas qualidades e com esta preparação!

Em relação ao povo, podemos considerar que se enquadra aqui a maioria dos portugueses. Ou seja, são aqueles que trabalham cada vez mais, que servem cada vez mais, que pagam cada vez mais impostos, que possuem cada vez menos direitos laborais, que prestam vassalagem aos seus superiores, que lhes devem obediência, respeito e submissão. São o povo, ou terceiro estado, se nos lembrarmos da Revolução Francesa.

Finalmente temos a nobreza, ou seja, aqueles que combatem. E quem são eles? São precisamente uma grande parte dos dirigentes políticos, que combatem o povo, não com armas ou castigos corporais (como nos tempos medievais) mas com medidas e decisões feudais, uma vez que são medidas sempre centradas nos ataques aos mais desfavorecidos (cortes de subsídios, aumento geral dos preços, redução do poder de compra…) e na defesa dos mais privilegiados (grupos financeiros, amigos/compadrios….).

A sociedade feudal, entre ou-tras características, baseou-se no clima de medo, de subserviência e de carência. Alguém duvida que estes valores não estão cada vez mais presentes na nossa sociedade?

1) A Idade Média é o período histórico que vai desde o ano de 395, ano em que o imperador Teodósio dividiu o Império Romano pelos seus dois filhos (Honório ficou com o Ocidente, com capital em Roma, e Arcádio ficou com o Oriente, com capital em Constantinopla), até 1453, ano que correspondeu à queda de Constantinopla, então capital do Império Romano do Oriente.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho