Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O rapaz da boca fechada

O mito do roubo de trabalho

Conta o Leitor

2011-07-17 às 06h00

Escritor

Por Abdel Eusébio

- O rapaz é sempre calado, já não ouço a voz do miúdo há trinta minutos!?
Desde que entrou na sala a sua boca só abriu para dizer boa tarde.
Ouve lá rapaz, não falas?
- Fala sim tia, é o jeito dele.
- Como assim jeito dele!?
- Tia, ele fala pouco, percebes... É do tipo envergonhado…
- Envergonhado não, é mais do tipo assanhado…
- Não fales assim tia que ainda o deixas mais acanhado…
- Estou a perceber muito bem o teu tipo meu filho, sempre que vens na tia só lhe das boas tardes…estas a enganar quem!? Só te deixo casar com a minha sobrinha porque ela diz que te ama.
A sala de estar estava cada vez mais apertada. O chão em frente do rapaz parecia que ia abrir uma fenda e se abrisse o rapaz não hesitaria em lançar-se de cabeça nesse buraco.
Era a quinta casa que os noivos visitavam naquele dia, fim de tarde e início de noite, sempre com as mesmas perguntas atrás do rapaz. O seu jeito tímido sem graça e indeciso embaraçavam-no e limitavam cada vez mais a sua aproximação à família da noiva. Não se compreendia o porquê desse comportamento altamente compreensível, mas na família da noiva havia uma tia que não lhe curtia. A tia nguela chikala, senhora e dona dos seus 85 anos, que os conservava dentro de elevadíssimos padrões de beleza.
Foi só ela que lhes recebeu na sua humilde casa, na rua dos desordeiros, casa oferecida pelo estado português por causa da sua participação activa na promoção e divulgação da Lusofonia, no qual ganhou o direito a uma habitação. O seu jeito sério e muito directo nem sempre agradava a todos a sua volta, mas esta sua sobrinha era a única de quem ela gostava. Por isso, desde muito cedo, implicou com o rapaz devido a sua ausência de fala, e prometeu a si mesma que ia ressuscitá-lo de modo a desvendar os mistérios da boca fechada.
- Já te disse minha sobrinha que os homens do antigamente é que eram…chegavam em qualquer lugar e tomavam conta dos assuntos dos homens, falavam em primeiro lugar e só depois nós, as mulheres, é que tomávamos a palavra…
- Tia Chika hoje os tempos estão mudados, há homens sensíveis, e as mulheres já não precisam de esperar que seus maridos tomem a palavra primeiro.
- Hum…tua tia não se deixa enganar, já tratei do assunto para ti, sobrinha.
De facto a tia Chika, já havia preparado toda a feitiçaria lá na barraca do cota Bino, e o trato para desvendar os mistérios desse rapaz começaram a fazer efeito no pobre miúdo…
Nessa mesma tarde, início de noite, naquela mesma sala, ele começou a ter uns comportamentos estranhos.
- Eu vou fazer de tudo para agradar a sua sobrinha. Prometo que não lhe faltará nada em nossa casa. Vou fazer todos os testes necessários para melhorar o meu lado menos falador…hoje mesmo vou pesquisar um doutor para a cura da minha doença.
- Mas tu não estás doente. Disse a noiva.
- Está sim. Disse a tia.
O meu trato com o cota Bino está a resultar.
Amanhã mesmo vou lá para lhe pagar o trato.
Durante um mês o rapaz visitou vários psicólogos, médicos das mais diversas áreas e até curandeiros, mas a sua doença não tinha doença nenhuma que médico descobrisse.
Depois da visita à casa da tia Chika, o noivo começou a ver durante a noite, vários espíritos a rondar a sua cabeça, pareciam lençóis brancos com rostos que flutuavam em círculos perfeitos e faziam caretas medonhas, sentia calor e a sua boca secava constantemente, como se tivesse terminado de falar após 24 horas... acordava várias vezes para beber água e sentia uma enorme vontade de falar coisas a toa. Falava durante a noite, e durante o dia via-se a cumprimentar pessoas da rua que não conhecia, falava do seu casamento e perguntava coisas que no seu estado normal não se atrevia.
Toda a gente começou a reparar na sua atitude altamente sociável e em menos de três dias passou a ser o mais popular da zona.
Nguela Chikala, quando vinha do mercado reparou num grande ajuntamento de pessoas de raça negra. Eram muitos e reconheceu alguns, eles empurravam-se para assistir a algo que ao longe parecia ser uma pregação.
Aproximou-se e viu o noivo de pé, em cima de um muro, a falar bem alto que era o neto da rainha N`Zinga, e futuro rei de Angola. As pessoas em sua volta achavam piada às histórias que o noivo contava, mas sabiam que não eram verdadeiras, era tudo inventado por ele, mas a sua popularidade repentina permitia-lhe tais ousadias.
No fim do dia, fim do feitiço, o noivo caiu do alto do muro e ficou estendido no chão de barriga para o ar. Os seus braços bem abertos pareciam querer abraçar as imensas estrelas que brilhavam no céu escuro. Mal conseguia abrir os olhos e apenas via rostos desfocados e vozes que diziam repetidamente, “está bêbado” “é o noivo da sobrinha da tia Chika” e uma das vozes o rapaz reconheceu como sendo da tia Nguela Chikala que dizia “eu sabia…esse rapaz a mim não me engana.”
O rapaz desmaiou e quando acordou apenas viu na imensidão do céu negro uma única estrela que teimava em brilhar. Fazia frio e ele tinha sede. Ainda no chão, ficou demoradamente a observar o cintilar da estrela solitária. Nisto a estrela parecia querer descolar-se do céu escuro, e vibrava com muita suavidade. O astro deformava-se lentamente e o céu aproximava-se da terra. Assustado e de olhos bem arregalados o noivo viu por fim a estrela separar-se do negro céu e sentiu-a tocar-lhe suavemente na boca. Saboreou. Era salgada.
- Eu amo-te do jeito que és. Disse a noiva que chorava enquanto abraçava-o.

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