Correio do Minho

Braga, terça-feira

O Radão não é um bicho papão

Com os valores de Abril, sempre!

Ensino

2018-02-14 às 06h00

António Curado

Oradão é um gás nobre, radioativo, que tem origem na cadeia de decaimento do urânio e não pode detetado pelos sentidos, uma vez que é um gás incolor e inodoro. Como não reage quimicamente, ao ser libertado espontaneamente dos maciços rochosos, onde é produzido, ou ao dissolver-se na água contida nos poros de materiais geológicos, mistura-se facilmente com o ar, degradando a sua qualidade. Nos solos e rochas, a distribuição do urânio e, con- sequentemente, do radão não é uniforme. As concentrações mais elevadas ocorrem, usualmente, em rochas graníticas (plutónicas) sendo mais baixas em rochas sedimentares como os calcários.

Em termos geológicos o Norte de Portugal pode ser caracterizado pela abundância de diversos tipos de granitos. Em alguns locais, a predominância de deter- minados minerais uraníferos e a existências de falhas podem ser responsáveis pela presença de uma quantidade de radiação natural dentro e fora de nossas casas. Se em ambientes exteriores não há qualquer problema devido à existência de uma baixa concentração deste tipo de gás, o mesmo não se pode dizer em ambientes interiores, onde devido a uma pobre ventilação, as concentrações do mesmo podem ser consideravelmente elevadas. Para além disso, na região do Minho, a construção granítica predomina em edifícios residenciais e não residenciais, sendo intrínseca à grande generalidade do património monumental classificado (solares, igrejas e casas senhoriais). Esta predominância de granito na construção apresenta um fator cumulativo quando consideramos a geologia da região no estudo desta problemática.

Segundo a OMS, a exposição prolongada a concentrações elevadas deste tipo de gás está diretamente relacionada com o aumento do risco do aparecimento de cancro do pulmão. Nesse sentido, é de vital importância a realização de um estudo alargado na região que permita medir e monitorizar a concentração do gás radão, no interior de edifícios, visto que um elevado teor do referido gás afeta consideravelmente a qualidade do ar do seu interior.

A qualidade do ar interior neste tipo de edifícios carece de análise específica tendo em vista poder salvaguardar a salubridade dos espaços e as condições de saúde dos seus ocupantes, tanto do ponto de vista da exposição a agentes biológicos causadores de potenciais riscos de alergias ou toxicidade, como da exposição ao gás radão, que segundo a OMS, é o segundo maior fator de risco associado ao cancro do pulmão, a seguir ao tabaco.
Para serem obtidos níveis de concentração tão reduzidos, há que monitorizar continuadamente e de forma exaustiva os edifícios graníticos, particularmente os pior ventilados e com maior densidade de ocupação. Nesse sentido, após monitorização, será desejável adequar medidas de mitigação e controle da emissão do gás radão, sem colocar em causa a ocupação e o funcionamento dos edifícios.

Nesse âmbito, o Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC) pretende tornar-se uma instituição de referência no estudo da mitigação do gás radão em edifícios graníticos do Minho, sendo o promotor do projeto RnMonitor: Infraestrutura de Monitorização Online e Estratégias de Mitigação Ativa do Gás Radão no Ar Interior em Edifícios Públicos da Região Norte de Portugal. Este projeto está a ser desenvolvido em co-promoção com o Instituto de Telecomunicações (IT), Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA) e a empresa BMViV, que opera na área da energia e ambiente e apresenta como principais objetivos a caracterização da concentração de gás radão numa amostra alargada de edifícios públicos nas regiões de Viana do Castelo e Barcelos, bem como o desenvolvimento de um piloto tecnológico no contexto da Internet das Coisas (IoT) que permita efetuar a monitorização online de um conjunto de edifícios públicos previamente selecionados, e desta forma sensibilizar a população e as autoridades locais para a necessidade de adoção de estratégias de mitiga- ção do gás radão em ambientes interiores.
Conforme é deixado claro no título do artigo, o gás radão não é de todo um elemento que impede a utilização permanente e exaustiva dos edifícios graníticos, no entanto a sua presença no interior dos espaços carece de análise e de uma consequente proposta de mitigação, quando necessário. O objetivo do estudo que o IPVC encabeça é consciencializar a sociedade civil para o problema, sem falsos alarmismos e numa perspetiva claramente construtiva. O propósito é sempre apontar caminhos e soluções, evitando o recurso a sensacionalismos populistas que em nada contribuem para uma discussão séria sobre o assunto.

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