Correio do Minho

Braga, quarta-feira

“O que te diriam as gaivotas”

O CODIS fala

Ideias

2019-05-13 às 06h00

Carlos Pires


Na 6ª-feira o meu serão foi passado de forma diferente. Rumei a Fafe a fim de apresentar o último livro da poeta Leonor Castro, editado pela “Labirinto”. Poeta, sim, não gosto da palavra “poetisa”, comungo da ideia de Sophia de Mello Breyner: “poetisa” parece reconduzir as poetas-mulheres a uma categoria subalterna e inferior, o que não é de forma alguma verdadeiro e justo.
Conheci a Leonor Castro há dois anos atrás, quando apresentei, em Braga, na “Centésima Página”, o livro de poesia “Noivos do Mar”, de Henrique Levy. Na altura, a Leonor leu alguns dos poemas desse livro e ninguém ficou indiferente, porque ela lê poesia como poucos. Talvez tal se deva à voz límpida que possui, que molda à cadência do poema, e que ora se apresenta revestida de candura, ora de certeza e gravidade, sempre com velocidade ajustada ao texto. Mas tal não será alheio ao facto de ela própria ser poeta, ela própria é a confirmação de que há poetas em que o destino se faz inteiramente de poesia, ou ainda mais, poetas que são eles o próprio destino da poesia. A poesia está-lhe no sangue, no ADN. Não tivesse ela o nome de uma das divas inspiradoras do pai de todos os poetas portugueses: Luis de Camões.
Aceitei de imediato o convite que me foi dirigido para a apresentação do livro, mesmo antes de o ler. Aceitei tal missão, não enquanto académico, mas como alguém interessado e movido por paixão pelas artes, visuais ou escritas, em particular pela obra da Leonor. E foi de facto um prazer a leitura de “O que te diriam as gaivotas”, livro no qual, Leonor, poeta e professora, segue algumas das linhas condutoras da sua obra anterior – “(In)contidas Emoções” -, de 2016 - , na certeza de que este é apenas mais um passo no seu crescimento e solidificação como autora. Penso não estar a cometer nenhuma heresia se disser que autora tem, bem enraizado no seu âmago, a perfeita consciência dos caminhos que quer ver trilhados pela sua obra. O que é tão bom testemunhar.
Em Leonor, vida e obra formam uma unidade. A sua poesia alimenta-se de sua autobiografia, dos seus quotidianos, do seu território, dos seus afetos (seja com o marido, mas também, com os filhos Mateus e Miguel, com os pais, com os amigos, colegas e alunos), e é reveladora intensa das suas experiências, dos seus amores e prazeres, mas também das suas inquietudes. Permitam-me que cite José Saramago quando refere que: “Todos os livros deviam ser vendidos com uma cinta a envolvê-los, com os seguintes dizeres: - Cuidado, tem uma pessoa dentro!”. Assim se passa com a poesia de Leonor.
Espero sinceramente que estas minhas palavras, mais do que esclarecedoras do conteúdo deste livro, sejam ela catalizadoras da curiosidade dos leitores, como se de um aperitivo se tratassem, e que cada um (re)encontre, não só neste livro mas também no anterior, as temáticas mais fortes do trabalho da Leonor: o amor, a Liberdade, a relação com Deus, a natureza ou a própria poesia. Aqui fica o desafio.


E houve casa-cheia, “a arrebentar pelas costuras”, na Sala Manoel de Oliveira, em Fafe, com a presença de várias dezenas (mais de centena, seguramente!) de amigos e leitores da Leonor, num evento que pretendeu constituir uma conversa com a própria, a propósito do seu livro “O que te diriam as gaivotas”, prefaciado pelo Professor Doutor Jose Cândido Oliveira Martins, da Universidade Católica Portuguesa, e ilustrado com trabalhos do artista plástico Rui Coutinho.
Um evento que constituiu um diálogo interartístico, uma vez que se falou de (e ouviu) poesia, mas também foram exibidas pinturas, houve música e canções, o que enriqueceu seguramente o tempo que todos os presentes despenderam. O tempo que todos damos à cultura é sempre um investimento, nunca é tempo perdido.
Assim como não é dinheiro perdido aquele que é gasto na aquisição de equipamentos para a cultura. Desconhecia que Fafe tinha tão boas instalações. A sala onde decorreu a apresentação do livro da Leonor tem o nome “Manoel de Oliveira”, em homenagem ao nosso maior cineasta, que aí participou tantas vezes em certames de cinema). Desconhecia que Fafe tinha uma agenda cultural tão viva e intensa, nomeadamente um festival anual de cinema internacional, que este ano certamente não perderei atento o interesse que me despoletou. Registo e aplaudo. Isso sim é servir bem as populações.
Termino esta crónica, uma crónica de felicidade, reproduzindo o vigor metafórico de uma das poesias da Leonor, em jeito de hino a esse valor supremo que é a vida, que urge abraçar, sempre.

Não tenho nada para exibir
só tenho o sorriso que é franco e limpo
ao ver o encanto das flores que plantei
nesse canteiro chamado vida
Não tenho nada e estão vazias as minhas mãos
só tenho a certeza de querer enlaçar os meus dedos nos teus
e de afagar com elas os teus cabelos
Não tenho nada de valor
Só este coração que pulsa livre e louco
a perseguir os sonhos que um dia
ajudaste a construir
Nada é meu porque amo a vida toda a acontecer

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