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O que se passa à direita?

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O que se passa à direita?

Ideias

2021-02-02 às 06h00

João Marques João Marques

A sair de umas eleições presidenciais sem surpresas relevantes, o espectro político português estranha-se mais do que se entranha.
Como escrevi aqui há um mês, “Sem desprestígio pela coragem dos que avançaram, o desnível entre as candidaturas [foi] notório”. A inevitabilidade de “Marcelo Presidente” confirmou-se e, de resto, com números expressivos a adornar a ladeira que, para utilizar as parábolas de Rans, subia para os contendores como a etapa da Sra. Da Graça e descia como um escorrega para “Celinho”.
As ondas de choque do alinhamento dos astros políticos nacionais saído destas eleições é que parecem ter sido mais difíceis de antecipar.
Paradoxalmente (ou talvez não), foi à direita que o impacto mais custou. Com um candidato não socialista a vencer e com os paupérrimos resultados das forças da extrema-esquerda, nem o segundo lugar honroso, mas “poucochinho”, de Ana Gomes deveria afastar o debate político da estrondosa derrota da esquerda. Só que não foi assim.
Percebe-se e aceita-se que boa parte do eleitorado de Marcelo é, por estes dias, tributário das ideias, das políticas e dos líderes do Partido Socialista. Como deixei aqui vincado antes do início da campanha, a decisão de António Costa (de apoiar um segundo mandato do Presidente) era taticamente compreensível, ainda que politicamente chocante. Ainda assim, o que sobra das eleições para o PS é o conforto da anestesia inexistencial. Se Lili Caneças tinha razão quando revelava que “estar vivo é o contrário de estar morto”, António Costa veio demonstrar que, em política, nem as lapalissadas estão seguras.
Também é de aceitar que o magnetismo político dos afetos é de tal forma poderoso que até ao Bloco de Esquerda e PCP subtrai votos e apoios.
O que é menos óbvio é o motivo pelo qual essa conjugação de evidências tornou o candidato da “direita social” (o que terá pensado Rui Rio deste posicionamento ideológico?!) que venceu as eleições no maior problema do campo não socialista da política portuguesa.
Claro que o cavalgar de André Ventura na noite eleitoral contribuiu decisivamente para a criação de uma rutura eventualmente inultrapassável entre os “portugueses de bem” e todos os demais, se é que ela não tinha sido já alicerçada na forma, no método, nos temas e nos modos do “Le Pen” português.
E para o esfrangalhar da direita também ajudou a desnorteada interpretação que Francisco Rodrigues dos Santos fez da noite eleitoral, tomando para si e para o CDS as rédeas de uma quadriga onde PS, PSD, Marcelo Rebelo de Sousa e o povo português alegremente lhe obedeciam.
Sem esquecer que o PSD teria também a obrigação de centrar a sua reação política nos feitos de Marcelo e na decência e clarividência do povo português e menos no aparente êxtase criado pelos segundos lugares obtidos por André Ventura um pouco por todo o Alentejo, como se daí pudéssemos extrair que, finalmente, a “lança em África” estava firmada e agora é só seguir o trilho do explorador do Chega.
Mas tudo isto, em conjunto com a fragmentação partidária que até ao Iniciativa Liberal concedeu uma moderada vitória, em função seguramente da ultrapassagem do Tino, não deveria ser bastante para explicar a aparente decadência do espaço à direita do PS em Portugal.
A explicação, parece-me, está alicerçada na degradação provocada pelo fim (eventualmente precipitado) de um tempo em que para os portugueses era evidente o contraste entre os diferentes lados das barricadas.
Sim, voltamos a Passos e a Portas, à PAF e à vitória mais amarga da democracia portuguesa. Com a geringonça de 2015, o que caiu não foi apenas um bloco partidário com identidade ideológica, mas um projeto alternativo, distinto e claro em que os eleitores sabiam ao que iam e reconheciam o valor acrescentado do que lhes era apresentado. Tão forte que obrigou a esquerda a combatê-lo cegamente e em conjunto, tal era o receio do seu sucesso.
Não sei se o regresso ao passado é a resposta mais certeira para enfrentar o futuro, mas olhando ao que se passa no CDS, assistindo-se à consolidação do Chega e ao imobilismo eleitoral do PSD, seguramente que se deverá aceitar que algo de muito errado está a acontecer à direita portuguesa.
Até porque nada à esquerda pode fazer crer qualquer português (de bem ou de qualquer outro tipo) que não venha aí o “diabo”, seguros que estamos quanto ao mantra infinitamente repetido que que “vem aí uma crise social e económica profunda”.
Não é tempo de terramotos políticos e de assaltos ao poder, mas também não pode ser o tempo da inação e desistência.

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