Correio do Minho

Braga, terça-feira

O que sabemos do terrorismo suicida

Tancos: falta saber quase tudo

Ideias

2016-03-25 às 06h00

Margarida Proença

Quando olho para as imagens do que aconteceu em Bruxelas, há uma coisa que não consigo esquecer - aqueles dois jovens, a empurrar os carrinhos, no aeroporto, com um aspeto aparentemente calmo. Que estariam a pensar? Estavam os dois a muito pouco tempo de morrerem, matando e ferindo tantas e tantas pessoas no processo.
De acordo com dados da Universidade de Chicago - os americanos têm dados estatísticos sobre tudo ! - entre 1982 e 2015, houve 4.814 ataques suicidas, em mais de 40 países. Só em 2015, terão ocorrido 481 ataques desse tipo, e que resultaram em 4.554 mortes e mais de oito mil feridos.
A base de dados é simples de consultar, e está muito bem estruturada; tem mapas, que facilitam a constatação de uma forte concentração regional no Médio Oriente, na região do Paquistão e Afeganistão, e no norte de África. O professor Pape, que criou essa base de dados, argumenta que os ataques suicidas são conduzidos principalmente por motivos estratégicos, mais do que por efeito de um envolvimento pessoal religioso, fanático, ou por explicações psicológicas relacionadas com o ambiente sócio-económico. A ideia que defende, num artigo de 2003, é que o terrorismo suicida tem por objetivo obrigar as democracias liberais a fazerem concessões no seu território; e exemplifica com os ataques suicidas que forçaram ao abandono do Líbano em 1983 por parte das forças militares americanas e francesas , com a luta dos Tamils no Sri Lanka, ou dos curdos na Turquia, entre outros. De qualquer forma, adianta, o terrorismo suicida , mesmo nestes casos, só conseguiu obter resultados muito periféricos, e falhou no evitar de respostas militares agressivas. Ao longo de um artigo muito bem fundamentado, o autor acaba por concluir que a segurança deve aumentar, adotando controlos financeiros, mas reconhece também que tal pode levar ao aumento do seu número e á difusão geográfica dos potenciais suicidas , “trazendo-os até nós”.
Não há de facto muitos estudos sobre este fenómeno do terrorismo suicida. Uma outra abordagem defende que estes grupos são curiosamente pouco sensíveis ao desaparecimento do líder; são resilientes, porque são burocratizadas, com funções muito bem separadas e claramente atribuídas, e no fundo têm apoio popular, pelo menos uma rede de amigos e conhecidos que os suporta. O que não joga com a ideia que temos de grupos jovens, muito marcados pela ideologia e por um fanatismo religioso exacerbado, que sem líder tendem a desaparecer. Como qualquer organização burocrática, estes grupos terroristas são complexos, estruturados, diversificados, estabelecem rotinas que aumentam a capacidade de aprendizagem organizacional e nessa medida acabar com o líder, decapitá-los, não os elimina, e vão mesmo tender a reorganizarem-se, enfim a sobreviver. E as consequências tenderão mesmo a ser mais adversas se o líder era reconhecido por um ascendente específico qualquer, e possam aparecer comportamentos de vingança.
Olho para aquelas imagens dos jovens no aeroporto de Bruxelas, e sinto a estranheza de quem não consegue compreender. Nem eu a eles, nem eles a nós. Como viviam, de que viviam, como se relacionavam com os outros, com as comunidades onde estavam inseridos? Porque é certo que na generalidade dos casos, estes ataques não vêm de fora; seja no Afeganistão, no norte de Africa, em Paris ou Bruxelas, são pessoas que lá viviam.
Há aqui claramente uma conjugação de fatores locais ; nos meios empresariais, costuma muito sublinhar-se a importância de “pensar globalmente, atuar localmente”. Claro que podemos pensar “são árabes, logo são terroristas”, numa lógica á qual a Europa não está imune como o demonstrou ao longo de séculos : são judeus, são culpados, por exemplo. Mas os dados de Pape, a que se fez referência mais atrás, não vão muito por esse sentido - o terrorismo suicida, desde 1983 até cá, não encontra a sua principal explicação no Islamismo radical.
Estranheza. Medo do que é estranho, do que não se compreende, da racionalidade que se não constrói. Talvez certamente por defeito profissional, acho que esta insuficiência é perigosa. É preciso compreender verdadeiramente este fenómeno, não o abordar com explicações simplistas que só contribuirão para o agravar. Mas ainda assim, estranheza. E um olhar para o futuro carregado de passado.

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