Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O que não vem na tv

Uma carruagem de aprendizagens

Conta o Leitor

2014-08-06 às 06h00

Escritor

Evangelista Miranda  

Fugindo ao trabalho árduo e duro do campo, o Bastusso se fez técnico de mecânica, a trabalhar na cidade trocando sempre os vícios desta, pela paixão na Ciência e nas Técnicas. Por isso: já no serviço militar ponha por vezes em pânico os graduados/professores de davam as aulas técnicas de mecânica no curso de sargentos, fazendo intervenções, às quais os professores nem sempre sabiam responder. Mobilizado para a guerra colonial em Moçambique, como primeiro responsável pela frota de viaturas de uma Companhia de Caçadores, instalada no mato, ao norte da província: onde, o Bastusso era frequentemente escalado pelo comandante da Unidade, para ir à cidade de Nampula ou Porto Amelia, tratar de assuntos da Companhia, especialmente da aquisição de materiais, combustíveis, equipamentos para as viaturas etc. Certo dia: regressado ao seu aquartelamento no mato, é informado por um condutor de honimog, que o motor do seu carro, tinha partido qualquer coisa lá dentro e, deixado de trabalhar, pois fez um grande barulho por dentro. Ao perguntar-lhe se era ele o condutor na altura da avaria: o condutor engasgou-se e, por aí transpareceu, não ser ele o responsável pela avaria, pois já era frequente, os graduados tirarem da mão o volante das viaturas - quantas vezes, para fazerem experiencias menos recomendadas. Feito um primeiro diagnóstico, o Bastusso ficou logo com a ideia de que havia um pistão partido no interior do motor, com a danificação do cilindro. Sabendo das dificuldades que havia em fornecer viaturas às companhias por parte dos comandos militares: o Bastusso, reuniu com os seus colaboradores, cabos mecânicos, ficando decidido desmontar a cabine, para depois extrair o motor, e de seguida a sua desmontagem, onde se verificou de facto que havia um pistão partido, com grandes sulcos no cilindro. Seria preciso agora, uma Oficina/fábrica, capaz de fazer uma camisa para o cilindro, coloca-la no lugar (bloco) e rectificar este na medida stande: e um pistão. Ora, não havia pistões novos e, se os houvesse, só se vendiam em jogo de seis, o que tornaria a reparação onerosa, tanto mais que eram precisos outros acessórios sobressalentes. Foi quando o Bastusso se lembrou de recorrer ao Batalhão do Serviço de Material em Nampula: localidade onde se encontrava o bloco de cilindros a encamisar. Dirigindo-se ao B. S. M. N. foi ter directamente com um furriel contando o sucedido e, das grandes quantidades de motores/carros minados e outros, lhe cedesse um pistão de honimog. Este: de pronto lhe respondeu que quem mandava nisso era o 1º Sargento, e que só com autorização dele, poderia ser servido; Foram então os dois ao encontro do 1º Sargento que se encontrava num gabinete, onde o Bastusso contou a sua história mais uma vez, dizendo que tinha o bloco a encamisar e que precisava de um pistão stande, daqueles que vocês têm lá fora, em bom estado. O Sargento ouviu a história: fez uma cara de espanto e, interpelou-o: ora diga lá outra vez? O Bastusso lá repetiu o pedido e, depois disso, o 1º sargento olhou o Bastusso de cima abaixo e exclamou: você não está bom da cabeça! O Bastusso ficou a medir a atitude do sargento e respondeu…estou…estou. O Sargento vira costas e vai-se embora para outro lado, ficando o Bastusso em frente ao furriel sem solução para o seu problema. Diante deste impasse, olhando um para o outro, diz o furriel: nós cá no Batalhão não fazemos um serviço desses e, tu pões-te a fazer isso no mato! É verdade, respondeu o Bastusso: faço isto no mato e, se quiseres, depois até posso trazer o carro para tu veres - é só arranjarem-me o pistão. Não se dando por vencido: insiste e, pressiona o furriel para irem os dois, ter novamente com o Sargento. Quando se aproximam este exclama: ainda não o despachaste, dirigindo-se ao furriel. Nessa altura o Bastusso atalhou e, quando começa a falar: o Sargento faz um gesto com a mão para o furriel apontando a cabeça, dizendo ao mesmo tempo que o Bastusso era tolo e não regulava bem. Aí, o Bastusso afrontou o sargento dizendo; desafio-o aí para as oficinas para trabalhar ao meu lado, no que quer que seja, e, vai ver quem é mais competente e conhecedor de mecânica. O sargento vira costas e, perante a situação: o Bastusso repete: eu quero uma resposta! Foi quando o sargento meio de soslaio diz para o furriel: olha, atura-o tu, que eu não estou para isso. Então, o furriel diz para o Bastusso: olha que eu não trato disso, terás que ser tu a faze-lo, pois não costumamos recuperar peças dessas, porque não reparamos motores. Não te preocupes, diz o Bastusso: o que eu preciso é de ferramenta e um paquímetro para medir, se o pistão está na medida stande. Dali por pouco tempo, estava com a peça que pretendia na mão e, a caminho da rectificadora - oficina montada por dois sócios, antigos alunos dos cursos industriais, tirados em regime pós-laboral em Abrantes, pois eram naturais do distrito de Santarém, onde aprenderam desde jovens a trabalhar na especialidade de torneiros/rectificadores. Assim: de volta ao aquartelamento no mato, lá foi o Bastusso tratar de montar o motor com os seus colaboradores, que apesar de não ter as ferramentas e os equipamentos mais adequados: mesmo assim o honimog, era dos melhores que passou a ter, apesar de toda a frota estar sempre operacional e, onde não havia viaturas a serem postas a trabalhar de empurrão, como era frequente noutras Companhias e Batalhões de operacionais. Com o Bastusso não havia viaturas desmontadas e, peças espalhadas pelo aquartelamento debaixo dos cajueiros. Por isso, pela sua competência e dedicação, o Bastusso tal como os seus colaboradores receberam um louvor atribuído pelo comandante, pois já durante a recruta e o curso da especialidade, dois anos antes, tinha subido à tribuna para receber uma pulseira de prata com o nome gravado e um diploma de melhor condutor, entregue pelo Coronel, comandante da Unidade da Serra do Pilar em Gaia. De notar: que as forças Armadas e o Exercito em particular, serão ainda hoje talvez, as instituições, que mais reconhecem o mérito dos seus servidores: muito para além das restantes instituições e empresas do Estado.

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