Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O que fazeis da minha escola

A Europa paga aos agricultores para não produzirem?

Escreve quem sabe

2012-11-06 às 06h00

Cristina Palhares

Permitam-me começar parafraseando um homem que desde os meus 17/18 anos me deixou na memória uma imagem com uma frase: a frase estava inscrita numa foto de uma criança com sensivelmente 5 anos, em sofrimento, com uma lágrima que lhe rolava pela cara, e dizia: “O que fazeis do meu mundo?” Hoje, e ao fim de 30 anos, olhando para os nossos alunos parece que a pergunta se repete de outro modo.

“O que fazeis da nossa escola?” Pegando nela , e olhando para as crianças/jovens das nossas escolas apetece-me também perguntar: “O que estamos a fazer da escola delas?” A fantástica sabedoria indígena através de Dakota deixou-nos um compromisso excelente: “Seremos conhecidos para sempre pelas pegadas que deixamos”. E estas pegadas, diferentes de todos e de todas, são únicas. Cada um de nós, professores, deixará certamente uma pegada diferente. E é seguindo, imitando, moldando, interiorizando todas as diferentes pegadas que os nossos alunos vão construindo o seu caminho, tateando, procurando a pegada que melhor se ajusta ao seu crescimento, deixando de fora pegadas que tantas e tantas vezes fizeram rolar aquela lágrima pela cara abaixo. Gostaria de me fixar um pouco nesta lágrima. É uma lágrima de sofrimento.

Uma lágrima de quem, infinitamente triste, sabe que poderíamos fazer mais e melhor. Não matéria, não currículo, não testes, não exames... esses são os instrumentos para atingir objetivos puramente curriculares. São um meio e não o fim último da educação. Porque o caminho que percorremos, com os nossos alunos, no dia a dia, lado a lado, está muito além das notas de final de período, porque está muito além do sucesso escolar. A construção do fim último da educação é levar os nossos alunos à sabedoria.

E ser sábio, como tão bem Reboul exprimia é ser-se construtor do próprio conhecimento, passando por cima, devagarinho, calcando pegadas que lhe foram deixadas no caminho, escolhendo as pegadas que encaixam na perfeição a caminho da sabedoria. E então, por isto, é com certeza o professor que faz dos alunos construtores do seu próprio conhecimento.

“O professor dispõe do poder de encorajar ou desencorajar, de estimular ou de bloquear, de suscitar perguntas ou de as abafar.” (Reboul). As pegadas que Dakota falava eram as pegadas do professor que consegue fazer emergir nos seus alunos uma grande capacidade de admiração: não pelo que sabe, não pelo que ensina, mas sobretudo como sabe, como ensina, enfim, como é. E ser-se professor é antes, durante e depois de tudo, alguém que deixa pegadas. Mais profundas, mais ténues, mais agressivas ou mais meigas, que tanto fazem rolar uma lágrima pela cara abaixo, como provocam um sorriso pela cara acima. Está nas nossas mãos então a sabedoria de encorajar, de estimular, de suscitar... a isto se chama a arte de ensinar.

Que não se aprende, nem se ensina. Vive-se. E seremos então, não professores, mas artistas. E as nossas pegadas serão assim obras de arte que vão poder ser decalcadas por quem atrás de nos virá colocando-nos aquela pergunta: “O que fazeis da nossa escola?” E a quem, um dia, nós iremos saber responder, em uníssono: “Estamos a fazer o melhor que podemos, o melhor que sabemos.” E assim, quando aquela criança a quem rolava uma lágrima pela cara abaixo perguntar: “O que fazeis do meu mundo?”, vamos também poder responder: “Estamos a construir o teu mundo, o melhor que podemos e o melhor que sabemos, para ti!” E a lágrima transformar-se-á num sorriso. Saibamos nós merecê-lo!

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