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O que devemos aos políticos

Lacuna, o espaço em branco

O que devemos aos políticos

Ideias

2020-11-29 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Desde as últimas eleições legislativas, de 6 de outubro de 2019, que temos assistido a uma crescente hostilidade relativamente aos políticos portugueses. Refiro-me a uma agressividade verbal dirigida fundamentalmente a quem ocupa cargos políticos a nível nacional, mas também contra os políticos eleitos para o poder local.
Em todas as áreas da nossa sociedade há quem ocupe cargos de forma mais ou menos diligente, de forma mais ou menos assertiva, de forma mais ou menos compreendida. Na área da política não é diferente. Contudo, na maioria dos casos, encontrámos aqueles que dedicam muito do seu tempo, das suas aptidões e empenho a uma causa local, regional ou nacional, e que nos tem levado a um crescimento económico e social bem evidente.
Para os que agora gostam de defender o radicalismo, recordo que o nosso país foi governado durante 48 anos (1926-1974) por dirigentes extremistas, intolerantes e autoritários. Durante esse período, o nosso país atrasou-se em relação à maioria dos países da Europa, ficando cada vez mais no fundo da tabela em várias áreas cruciais ao nosso desenvolvimento.

Só quando os portugueses decidiram colocar um ponto final no regime extremista é que se verificou um lento, mas sustentado crescimento, que nos retirou da cauda da Europa.
Antes do 25 de abril de 1974, o único partido com total liberdade de ação foi a União Nacional (de 1932 até 1970) e o seu sucessor, a Ação Nacional Popular (de 1970 até 1974). Todos os outros partidos e ações políticas estavam limitados e até impedidos de exercerem a sua atividade. O vencedor das eleições estava encontrado, mesmo antes do ato eleitoral. A liberdade e a universalidade do voto em Portugal só aconteceram após o 25 de abril de 1974, com a lei n.º 621/74 de 15 de novembro.
Antes do 25 de abril de 1974 não se podia festejar o Dia do Trabalhador, não havia liberdade de reunião e de associação.

Antes do 25 de abril de 1974 não havia salário mínimo nacional. Os patrões pagavam o que quisessem aos seus trabalhadores, mantendo-os desta forma sob a sua alçada laboral, mas também económica e social. Só a 27 de maio de 1974 é que foi criado o salário mínimo nacional de 3300 escudos. Os patrões reagiram de forma negativa, mas a economia portuguesa cresceu, fruto do poder de compra dos trabalhadores.
Antes do 25 de abril de 1974 o interior de uma parte das habitações portuguesas era em terra batida, mesmo na cozinha; o aquecimento em muitas casas provinha do calor e do bafo dos animais que coexistiam nas habitações; raramente existiam móveis ou eletrodomésticos e os colchões eram feitos em colmo, que era colocado a secar em dias de sol!

Antes do 25 de abril de 1974 as idas ao Hospital ou ao médico eram uma verdadeira tortura. Em 1974 existiam 122 médicos por 100 mil habitantes; hoje existem 416 médicos por 100 mil habitantes. Em 1974 existiam 205 enfermeiros, hoje existem 622 para o mesmo número de 100 mil pessoas.
Em 1974 a taxa de analfabetismo em Portugal era de 26%. Hoje é de 5%; em 1970 apenas 0,9% dos portugueses frequentavam o ensino superior; hoje é frequentado por 14,8%!
Em 1970, a esperança média de vida em Portugal era de 66,7 anos. Em 2018 era de 81,5 anos. São mais 15 os anos que os portugueses vivem, em média!

Antes do 25 de abril de 1974 a ligação entre Lisboa e Porto, por automóvel, era tão difícil e demorada que muitos faziam um testamento de vida antes de efetuar a viagem, que demorava cerca de 8 horas. Só em 1961 é que foi iniciada a construção da autoestrada Lisboa-Porto, com a construção do troço Lisboa-Vila Franca de Xira. As autoestradas, para o regime de Salazar, eram um capricho dos ricos! A autoestrada Lisboa ao Porto foi concluída apenas em 1991!
Antes do 25 de abril de 1974 as mulheres vestiam predominantemente de preto e andavam de cabeça baixa, por submissão à sociedade e ao próprio marido. As saídas mais frequentes eram ou para o campo ou para as igrejas. O chefe de família continuava a ser o homem, que à noite frequentava regularmente as tabernas.
Antes do 25 de abril de 1974 os jovens dedicavam quatro anos da sua vida ao serviço militar, sendo dois deles na Guerra Colonial! Cerca de metade das despesas do Estado eram destinadas à Guerra contra as colónias africanas. Os portugueses só tinham sucesso económico se emigrassem.

Antes do 25 de abril de 1974 não havia rede de esgotos, de saneamento, de água canalizada, de iluminação elétrica; a agricultura baseava-se ainda na força animal e os agricultores eram na sua maioria analfabetos ou com a escolaridade básica; a cultura nacional praticamente não existia e a que existia era controlada pelo Estado. 46 anos após o 25 de abril de 1974 o nosso país encontra-se hoje a um nível equivalente em muitos aspetos aos seus parceiros europeus.
Devemos aos políticos pós 25 de abril o fim da Guerra Colonial e do serviço militar obrigatório; a liberdade de ação política; a liberdade de voto; a igualdade entre homens e mulheres; a liberdade de opinião; a liberdade de imprensa livre e o Serviço Nacional de Saúde.

Devemos aos políticos pós 25 de abril uma rede moderna de estradas e de vias de comunicação, escolas modernas e hospitais eficazes.
Até 1974, os descontentes com os políticos eram perseguidos, presos e torturados. Agora os descontentes com os políticos exercem o seu poder nas eleições, votando.
Aos que atualmente enveredam por extremismos e radicalismos, dão claramente a entender que não conhecem o caminho sinuoso que a Democracia levou a conquistar. A terminar basta lembrar Manuel Alegre, quando refere que não pode ser a Democracia a desconstruir a própria Democracia. E a Democracia somos nós!

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