Correio do Minho

Braga, quinta-feira

O PS e as presidenciais

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2016-01-26 às 06h00

Jorge Cruz

O resultado das eleições presidenciais deste fim-de-semana veio acentuar ainda mais os problemas internos do Partido Socialista que, sem candidato oficial, dispersou os seus votos, pelo menos, por dois aspirantes ao mais alto cargo da Nação - Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém.
A eleição de Marcelo Rebelo de Sousa logo à primeira volta, embora podendo representar o mal menor para o governo de António Costa, não deixa de significar uma nova derrota para o PS. E o partido sai vencido porque a estratégia que adoptou não surtiu o efeito desejado, isto é, acabou por não ser validada pelos portugueses nas urnas.

Tendo em conta a incerteza do resultado, isto é, se haveria ou não segunda volta, a postura de assobiar para o lado, eventualmente desenhada por um leitor apaixonado de Sun Tzu ou de Nicolau Maquiavel, até seria compreensível sob o ponto de vista de preservar o partido a uma eventual derrota.

Acontece, porém, que a peregrina ideia de deixar o maior partido da esquerda de fora da escolha do primeiro magistrado da nação nem é boa para a democracia nem sequer para o próprio PS. Até se percebe que o clima interno não era muito favorável à escolha de um candidato presidencial. Que os riscos - ou certezas? - de acentuar clivagens eram enormes. Desse ponto de vista, a questão era muito simples: porquê, então, enfrentar esses riscos se a multiplicação de candidatos à esquerda poderia contribuir para evitar a eleição de Marcelo à primeira volta e, desse modo, o PS seria “chamado” para assumir grande protagonismo na eleição presidencial?

O problema é que os resultados deitaram o plano por terra e, consequentemente, da sua leitura só com uma colossal dose de bondade alguém pode afirmar que o PS não saiu fortemente beliscado destas presidenciais. O PS fez de conta que não existe e, pela primeira vez na sua história, decidiu não ir a jogo. Ora, quem não vai a jogo, quem não participa, nunca poderá verdadeiramente sair vencedor.

Esta será, naturalmente, a leitura possível e legítima de um processo que começou mal e acabou bastante pior, com a derrota da estratégia delineada no largo do Rato. Pelo caminho trucidou uma destacada militante, que já exerceu altas funções no Estado e no partido, e o próprio “segurismo”, de que Maria de Belém era um dos principais rostos. É certo que, politicamente, esta candidatura foi um equívoco que a própria candidata acabou por constatar um tanto ou quanto tardiamente.

E nessa altura, quando já no terreno sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés, isto é, quando percebeu que ia recolher menos votos do que Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém e alguns destacados socialistas decidiram eleger a direcção do partido como alvo privilegiado dos seus ataques. Ora, estou em crer que foi essa atitude emotiva e desesperada, a que se juntou a mal explicada questão das subvenções vitalícias, que potenciou a dimensão da derrota da ex-presidente do PS, para números verdadeiramente humilhantes.

Mas a decisão de não comprometer o PS com as presidenciais teve ainda outras consequências: a campanha eleitoral contribuiu para acicatar ferozmente desavenças antigas, cavando ainda mais o fosso já existente entre correntes socialistas, como se pôde constatar na própria noite das eleições. Neste quadro, a resolução da questão de fundo - a divisão na família socialista - apresenta-se cada vez mais como uma miragem desfocada. E essa é uma realidade insofismável e indesmentível que, infelizmente, não está circunscrita aos meios próximos do largo do Rato. Não, os tentáculos da discórdia estão disseminados por todo o país. E esse é um problema que o PS tem que resolver rapidamente a bem da democracia, que precisa de partidos interventivamente fortes, mas também no interesse do seu projecto político. Até porque os ciclos eleitorais não param…

Mas estas eleições tiveram o condão de fazer emergir uma candidatura independente, uma candidatura de esperança, protagonizada por um homem que impôs a si próprio a tarefa de recuperar a nobreza da política e que, com esse objectivo, conseguiu unir à volta do seu projecto mais de um milhão de pessoas.

Com a sua acção, com o seu empenhamento, António Sampaio da Nóvoa logrou recuperar para a intervenção cívica e política muitos dos que, como eu, se entusiasmaram com os ideais do 25 de Abril, homens e mulheres de uma geração, que também é a dele, que vibraram com os primeiros anos da revolução. Mas a candidatura de Sampaio da Nóvoa também encontrou acolhimento noutras gerações, num número crescente de pessoas que, almejando uma vida melhor, se identificaram com a postura séria do candidato e demonstraram a vontade de intervir cívica e politicamente com um entusiasmo por vezes esfuziante.

Ao contrário de outros, também na hora de despedida Sampaio da Nóvoa foi um grande senhor: saudou e reconheceu o vencedor como o seu Presidente e de todos os portugueses, tentou assumir sozinho o facto de os objectivos não terem sido alcançados, o que claramente não é culpa sua, e apelou a um maior empenhamento cívico de todos, independentemente dos veículos dessa participação - partidos, associações ou quaisquer outras formas. Um comportamento ético e de cidadania exemplar e que a todos deve orgulhar.

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