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O problema do vira-lata!

Por Terras de Sombra e Sombras

O problema do vira-lata!

Escreve quem sabe

2020-02-23 às 06h00

Cristina Fontes Cristina Fontes

As diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil, dos PALOP ou de Timor são apenas ortográficas?
Não. As diferenças entre as variedades do português são muitas e variadas. Para além das diferenças ortográficas, há diferenças a nível fonético, morfológico, sintático, semântico e lexical, âmbitos em que o Acordo Ortográfico não tem qualquer influência.
O português come amendoim, o cabo-verdiano mancarra e o angolano ginguba. O brasileiro viaja de ônibus, o moçambicano de machimbombo e o português de autocarro. A claque da equipa do Braga rivaliza com a torcida do time do Flamengo. O sotaque de “eu te amo” é mais melodioso do que o do prosaico “amo-te”. A dolência do gerúndio “estou lendo”, “estou comendo”, “estou andando” contrasta com a cadência articulada do “estou a ler”, “estou a comer” ou “estou a andar”. E como é “gostoso” ouvir dizer “senhóra” marcando bem o “ó”.

Este colorido linguístico só enriquece a língua portuguesa e eu tenho o privilégio de contactar diariamente com ele na minha sala de aula. Todavia, apesar de todos falarmos a mesma língua nem sempre nos entendemos.
Num exercício sobre uso do pronome pessoal em adjacência verbal, pedi que os alunos substituíssem a expressão “o cão vadio”, na frase “ele viu o cão vadio” pelo pronome pessoal correspondente. Já tínhamos trabalhado o conteúdo, mas uma aluna brasileira continuava sem conseguir fazer o exercício, até que perguntou “o que é vadio, professora?”. Nesse momento, percebi que o seu problema não era propriamente a estrutura frásica, mas o vocabulário usado. Depois de explicar que “um cão vadio” era “um vira-lata”, as dificuldades dissiparam-se e lá acabou por escrever “ele viu-o”.

Com a vinda de tantos alunos brasileiros para Braga, as escolas têm de se adaptar a esta nova realidade. Não podemos assumir que eles, por falarem português, nos entendem sem dificuldade quer oralmente quer por escrito.
Muitos destes alunos completarão aqui o ensino secundário e farão o exame de Português. A anteposição do pronome pessoal é um aspeto penalizado na correção. A estrutura típica da variedade brasileira do Português “ele me deu” / “ele me dará” não é aceite, penalizando os alunos (brasileiros e alguns africanos) que sempre a usaram. Será isso correto?

Esta semana, estudávamos a acentuação e a propósito das palavras esdrúxulas dei como exemplo a palavra “género”, que todos eles escreveram e pronunciaram “gênero”. Aliás, as nossas palavras agudas, graves e esdrúxulas são conhecidas no Brasil como oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas (aqui também, mas não usamos esta nomenclatura no ensino básico e secundário).
A aula terminou com uma animada conversa sobre “fiambre” que é “presunto” e “presunto” que é “bacon”. Afinal uma “rapariga” é uma “moça de família” e a galera foi bem-disposta e a pensar “ir na escola” no dia seguinte, mas saiu correndo para o ponto de ônibus, agarrada ao celular.

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