Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O povo na rua e o PS escondido

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2013-03-04 às 06h00

Artur Coimbra

1. Este sábado, 2 de Março, entra na História como mais uma oceânica manifestação nacional que levou centenas de milhares (há quem fale em milhão e meio) de portugueses às ruas de 40 cidades do país, para protestar contra a odiosa e reiterada política de austeridade do actual governo, servil executor dos ditames da tríade internacional que nos empresta dinheiro a troco de inqualificável exploração especulativa.
Promovida pelo movimento «Que se lixe a troika, o povo é quem mais ordena», que começa a mexer com o coração e a raiva dos cidadãos causticados por uma crise financeira de que não se julgam culpados, e não o são, a contestação juntou pelos menos 800 mil pessoas em Lisboa, 400 mil no Porto, dez mil em Braga e inúmeras em outras cidades portuguesas e até em capitais estrangeiras.
Eram novos e velhos, desempregados e profissionais dos mais diversos sectores, reformados, gentes de diversa proveniência económica e social, a dar voz e rosto ao protesto contra a situação económica e as perspectivas dramáticas que se antevêem para o país. Toda a nação esteve representada!
Em todas elas, o povo se trajou de cartazes, telas, slogans e tarjetas contra as políticas selvagens do governo, que estão a destruir o tecido social e humano deste país, ao resultarem no aumento diário do desemprego para números absolutamente pornográficos, ao provocarem falências em série, ao evidenciarem uma estratégia de destruição do Estado Social, lesando os direitos da generalidade dos portugueses no legítimo acesso aos serviços de saúde, educação e segurança social, em condições de dignidade e justiça, como manda a Constituição da República, que tantos engulhos provocam a alguns, que mais gostariam de não haver constituição alguma.
Em fundo, e por todo o país, entoou-se até às lágrimas e ao mais fundo da alma revoltada a mítica canção «Grândola, Vila Morena», que Zeca Afonso escreveu em momento de épica inspiração, que foi santo-e-senha do 25 de Abril de 1974 e que volta a constituir lema icónico neste tempo de negrume e desesperança, de tristeza e rejeição do vampirismo, de justa e serena contestação. Por muito que custe a ministros incompetentes e a patrões que vivem à custa do povo, como Alexandre Soares dos Santos, que parasita os consumidores portugueses. O 25 de Abril está de novo no coração dos portugueses, sem dúvida!
Foi pedida a demissão do governo, a quem foi apontada a rua por quem na rua estava!
Enfim, um protesto enérgico, expressivo, eloquente para quem o queira “ler”, que não pode ser, por isso, desvalorizado nem menorizado pelo governo e pela tróica, que são os algozes dos cidadãos, de um povo que está farto de ser espezinhado, calcado, maltratado, espoliado e que, na hora certa, saberá responder cabalmente à situação, não tenham dúvidas os políticos bulldozers dos nossos aziagos dias!
É que estamos fartos de ser bem comportados, alinhadinhos com uma Europa que não nos liga nenhuma, que se borrifa para os mais fracos, que apenas quer prosseguir os seus interesses capitalistas e financeiros, que não são rigorosamente a nossa praia.

2. Enquanto o povo se manifestava exuberantemente na rua, com toda a sua paixão, com a sua justa indignação, com o furor do seu descontentamento, o secretário-geral do PS não teve mais que dizer aos portugueses, em Campo Maior, que “têm muitas razões para estarem indignados». E que o governo devia ter a inteligência de reconhecer que falhou.
António José Seguro acusou o primeiro-ministro de praticar uma política baseada na «inconsciência» social, e que «só quem não conhece a realidade e o sofrimento por que passam os portugueses, é que pode dizer, perante o maior aumento do desemprego que nós conhecemos na história do nosso país, que esses dados estão em linha com as previsões do Governo». «Nunca vi tamanha inconsciência do ponto de vista social num governante no nosso país», sentenciou o líder socialista.
É claro que o que António José Seguro tinha obrigação de fazer era estar na rua, na tarde deste sábado, com a justa indignação dos portugueses. O PS só será poder quando se demarcar decisivamente, claramente, cristalinamente, do governo, da ignorante tróica e de um memorando que não tem nada a ver com o que foi assinado há quase dois anos. Só um líder fraco, demasiadamente light e sem a mínima convicção, diz o que diz e não sai para junto do povo, para manifestar a revolta contra uma situação de destruição ideológica de Portugal. Pode estar à vontade e sem peso de consciência, que os portugueses já perceberam que o memorando que o actual governo tanto acena ter firmado com o BCE, o FMI e a Comissão Europeia do grande patriota Durão Barroso, que é quem mais se entesa para o endurecimento das condições impostas ao povo do seu país, tem tanto a ver com o que o PS assinou como algumas lasanhas têm a ver com a carne de vaca!
Inacreditável, simplesmente, esta submissão aos fantasmas de um socratismo que é pura imaginação do poder vigente, para melhor domesticar um Partido Socialista que não se consegue libertar das suas sombras recentes!
Razão tem o antigo presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César, ao considerar que o PS «ainda não concretizou o grande desafio» de «corporizar» o descontentamento dos portugueses contra o governo.
Proclamou ele, este fim-de-semana: «Tenho dito que o Partido Socialista tem feito um grande esforço para corporizar, dar dimensão e interpretar este descontentamento que há no nosso país e construir uma política alternativa, mas, verdadeiramente, o PS só será eficaz se o crescimento do descontentamento em Portugal tiver uma proporção no crescimento da influência do PS e do seu potencial eleitoral. Enquanto o descontentamento crescer mais do que a confiança no PS, ainda não somos suficientemente fortes para responder afirmativamente e com credibilidade aos anseios do povo português».
Este é o julgamento de António José Seguro, que se tem mostrado incompetente para capitalizar o justo descontentamento que grassa na sociedade portuguesa. Com a sua atitude passiva, de mero criticismo comicieiro, não vamos a lado nenhum. Ou rompe com a situação ou não chega a S. Bento. Ele é que tem de escolher, e urgentemente!
Os portugueses não podem esperar mais!

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