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O povo dos milagres

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O povo dos milagres

Ideias

2021-10-18 às 06h00

Carlos Pires Carlos Pires

Ontem foi o Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza. A análise de dados do INE mostra que, em 2020, 9,5% da população empregada do país (cerca de 1,6 milhões de portugueses) vivia com rendimentos abaixo do limiar da pobreza, ou seja, com menos de 540 euros por mês, uma realidade que afeta famílias numerosas, mas também quem vive sozinho, idosos, crianças, estudantes e trabalhadores.
Há muito tempo que ouço pessoas de outras nacionalidades, nomeadamente, e aqui ao lado, os “nuestros hermanos” espanhóis, revelaram o quão espantados ficam com a forma como nós, os portugueses, levamos a vida. Eles que muito reclamam e protestam por não terem o poder de compra dos europeus do norte da europa.
O salário mínimo nacional em Espanha é de 965 euros, mais 300 euros do que a realidade portuguesa. Contudo, estranham os espanhóis, como é que nós, os “tugas”, conseguimos sobreviver quando tudo é mais caro do que em Espanha!?

Desde logo, os preços das casas. Se os grandes centros urbanos, como Madrid e Barcelona, ostentam preços e rendas ao nível do Porto e de Lisboa (e Braga! Acho que podemos agora acrescentar…), certo é que no demais território espanhol há casas muito mais baratas e acessíveis do que aquelas que encontramos nas pequenas localidades portuguesas. Em muitas das pequenas vilas de Ourense, na Galiza espanhola, a habitação tem preços a metade do que se pratica em Vila Verde ou Barcelos, por exemplo.
Mas não é só a habitação que é mais cara em Portugal. O supermercado, o combustível, a farmácia. Os portugueses ganham muito menos e pagam mais pelas coisas. Ah, e não obstante, apontam ainda os nossos vizinhos espanhóis, os portugueses conseguem viajar, ir a restaurantes, ter o seu carro (um parque automóvel geral ao nível do que se vê noutras paragens!). Como gerem os descendentes de D. Afonso Henriques as suas finanças pessoais? Que pozinhos mágicos adicionam para com tão pouco conseguirem aparentemente tanto? Será que é a tão afamada capacidade de desenrasque do nobre povo lusitano que justifica tudo isto? O que a História mostra é que tem sido sempre assim e eu acho que já nos habituamos a esta realidade, o “triste fado” a que nos ajustamos e com o qual nos compadecemos.

No dia em que escrevo este artigo os portugueses já pagam dois euros por litro de gasolina, a eletricidade bate recordes. Adicionalmente, as reservas de gás europeias, onde Portugal surge num perigoso lugar, estão em mínimos num momento em que ainda nem o frio chegou. O preço das matérias-primas energéticas disparou, e com isso o aumento brutal do custo das energias e um agravamento substancial do custo de vida. Ainda não recompostos de todos os constrangimentos – sociais e económicos - causados pela epidemia, certo é que, atónitos, assistimos ao risco de falhas no abastecimento de energia durante o Inverno, ao aumento de insolvências em sectores como os transportes e distribuição, bem como a um agravamento substancial da inflação, pondo em causa o crescimento económico e a sustentabilidade das famílias.

Enquanto se discutem, as causas e as soluções – e julgo que temos forçosamente de assumir que falhámos, que o caminho foi mal feito e que é necessário recuar um pouco antes de podermos eliminar de vez tudo o que não é verde, pelo menos enquanto a oferta sustentável não for suficiente e com produção estável e acessível - exigir-se-á aos portugueses que ajustem aquela fórmula mágica de sobrevivência para níveis ainda mais “insuportáveis”, certos, porém, de que está no seu nível máximo o risco de uma verdadeira crise social.
Manterão atualidade as palavras proferidas pelo Presidente da Republica, Marcelo Rebelo de Sousa, a propósito dos elogios feitos a Portugal pelo eficaz combate à Covdi-19, referira: "Se isto é um milagre, como os outros lá fora dizem, então nós, povo português, somos um milagre vivo há quase nove séculos. Se isto é um milagre, o milagre chama-se Portugal". Quer continue, pois, o milagre. Com coragem para todos nós.

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