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O poeta que sonha ser cavalo

A Galileu

O poeta que sonha ser cavalo

Escreve quem sabe

2020-09-11 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

gosto, e muito. Os lusitanos mais longínquos que recordo galopavam nas bocas portuguesas descritas por Herculano em «A morte do lidador», «A cavalo! A cavalo!», e espantavam os árabes, que soçobravam em tropeços sem nenhum alento. Depois disso, vi-os, garbosos, encantados por Robert Redford, a ajudarem um adolescente ferido, ou a agirem como cavalos de guerra, naquele extraordinário filme de Steven Spielberg, exatamente intitulado «Cavalo de Guerra».
Vi-os, ainda, baloiçando cotovias nas abóbadas de Rilke, em «Matador de Leões», e apenas se me afinca na memória o grande cavalo de madeira, o de Troia, mais o maldito vírus computacional, origem de quase epilepsia quando da destruição de laborioso trabalho.

Seguindo os ensinamentos populares, e porque cavalo amarrado também pasta, aprendi a vê-los com olhar bucólico, a tender para o espiritual. Não diria, como prescreveu Hegel a propósito de Napoleão, que o espírito absoluto saltita em resplendente sela, mas juraria vê-lo, tal como aconteceu ao Carlos nos dias das corridas, numa Maria Eduarda ornada de sedas orientais. Cavalos e amantes costumam irradiar estas auras absolutas, e trocam porventura os olhos até de grandes escritores, que ficam, como o Antunes, coçando a testa e indagando-se, meio perplexos, sobre os cavalos que fazem sombra no mar.
Nunca lhe perguntei se o dorso dos cavalos, tal como afirmam os árabes, é o real paraíso terrestre, ou se no mar o cavalo do tempo pode ser detido (certo, Torga?), mas o título foi escolhido a dedo, que nisso - e, reconheça-se, noutras coisas mais - o Lobo Antunes é um verdadeiro mestre.
Gosto, portanto, de cavalos. E desde que Platão me disse que eles são sentimentos e os pensamentos são rédeas, comecei a procurá-los além da realidade, no texto, no poema, na metáfora, até no intertexto pictórico, como é o caso do cavalo da morte de Dürer.

É com certeza nele que Herberto Hélder pensa quando refere as caveiras dos cavalos enterrados e afirma a sua ressurreição pela noite dentro; é nele que Junqueiro matuta o passo lento do Cavalo da Morte; é dele, ainda, que Antero retira o símbolo da Morte (o corcel) e o símbolo do Amor (o cavaleiro).
Não admira esta amálgama de sentimentos e de pensamentos, de cavalos e de rédeas; nem admira a exposição da velocidade do cavalo, da velocidade da mente, e muitos menos a metaforização do poeta no cavalo. Galileu, Calvino, e muitos outros, já o haviam feito. Eugénio de Andrade, que gosta de escrever canções de cavalos, ou mesmo Pessoa, que andou por montanhas e montes cantando um cavalo de sombra e um cavaleiro monge, também o fizeram.
E é talvez por me imbuir de pintura e de poesia que sou o rei Ricardo e dou a minha vida por um cavalo. Ou melhor: já que li o belíssimo poema do chinês Hai Zi, na tradução da Sara Costa, eu sonho ser um cavalo. Sonho ser livre e puro, percorrer as planícies e as montanhas do Amor, cheio de garbo e de crinas a dançar no vento. E sonho voar, ser um cavalo alado, para acariciar as nuvens e as estrelas do mais profundo firmamento.

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