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O poeta e a magia

Preso por ter cão... o Estanislau:

O poeta e a magia

Voz aos Escritores

2020-06-19 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Estou sentado junto ao «canudo» do Bom-Jesus, próximo de flores. Ao longe, a cidade de Braga. Não tenho pincéis, não sou pintor. Trago comigo um telemóvel, que é também uma máquina fotográfica. Para além disso, transporto comigo os meus sentidos, a minha sensibilidade, mais a minha linguagem e a capacidade para escrever sobre as coisas. Conheço pintores, fotógrafos, escritores, e tenho consciência do léxico que conheço, da gramática que me é intrínseca e que projeto em sintaxes próprias, da enciclopédia de conhecimentos que adquiri ao longo da vida, das relações históricas, filosóficas e sociais que sincronias e diacronias potenciam. Vem-me à memória uma quadra de António Aleixo: «A arte é dom de quem cria/Portanto, não é artista/ Aquela que só copia/ As coisas que tem à vista». Ao olhar a cidade, ao ver a sua beleza sob aromas inebriantes e sons de água a correr, ocorrem-me ideias que não consigo suster, mas de que fixo algumas, relevantes. No âmbito literário, pictórico ou musical, o que é a arte. Qual a diferença entre o artista e o artífice. Que significa criar, ou inventar, e, correlativamente, o que significa imitar ou copiar. O fingimento: por que razão finge o poeta de Pessoa. O que é a realidade, ou a natureza. O que é a poesia.

Não sei se António Aleixo leu alguma obra de clássicos como Aristóteles ou Quintiliano, se aprofundou conceitos como «mimese», «imitação», «criação» ou «invenção». Presumo que não, dada a sua frágil constituição linguística. Não deixa, no entanto, de ser extraordinário trazer à minha consciência, num contexto seminal plurívoco, indagações fundamentais da filosofia humanística, da teologia e da estética, e, porque não, do próprio labor científico.

Num lugar místico, protegido pelo Bom-Jesus, por símbolos teologais e figuras santificadas, de que forma se potenciaria a mimese, a imitação, a cópia, de que fala Aleixo? Sem pincéis nem tintas, posso pensar na máquina fotográfica, que também filma, e guardar para a posteridade figuras, imagens, cópias da realidade. Posso fazê-lo mecanicamente, em clara atitude artífica, instrumental, despida de emoção e sentimento. Qualquer pessoa desprovida de flux poético, qualquer artífice, pode desta forma figurar a realidade. Esta será uma figura, um quadro, mas não a realidade. Muito menos sentida. Penso na arte abstrata e na transformação onírica.

Sinto a magia do lugar, a elevação teológica, a atitude criadora, a divinização do poeta. Penso em palavras mágicas suscetíveis de descrever todo o meu sentir. Sinto-as delicadas, com ânsias de transpor-se a si próprias. Olho em volta. As palavras recolhem-se, trémulas, na sua significação. Eis a geometria dos escadórios, das capelas, das barras de ferro, do santuário, da cidade ao longe, cortada por paralelas, perpendiculares e luzes trementes. A arte é esta geometria, esta matemática, mais as emoções e os sentimentos que inserimos nela ou que ela potencia. Relaciono a matemática com a música e as artes, ouço grasnidos de melros, vêm-me à ideia as palavras «solitário» e «solidão».

Como podem as linguagens artísticas representar tudo isto? A pintura, a música, a literatura, podem fazê-lo sob diversas formas, usando técnicas adequadas. A literatura, porque usa léxico, sintaxe, tropos diversos, e usa a palavra, nas suas componentes significante e significativa, ademais de códigos linguísticos específicos, releva o poder da palavra em toda a sua instanciação. O poder da poesia é o poder da palavra na sua plenitude teológica, estética ou emocional. Sob pena de um entendimento ex-humano, a poesia apropria o passado cultural e projeta-nos num tempo que definimos como sendo futuro. Quem pensou o funicular, os escadórios, a igreja? Estendo-me no passado, na memória, na minha história cultural. Quem estará aqui amanhã e de que sonho é feito? Neste presente mágico, impregno-me de passado e de futuro. Procuro as palavras, relembro-as, meço significante e significado, disseco etimologias, salto da realidade para a metáfora.

Nestas minhas epifanias poéticas, já não uso papel e tinta. Tenho o meu telemóvel, é o meu axiomático companheiro de jornada. Registo os tropos, as imagens, as metáforas. Fecho momentaneamente os olhos. Não quero copiar a realidade, quero ser mágico. Conseguirei cativar a magia e inscrevê-la na regra e na convenção? Se toda a ação estética é social, será, com certeza, o leitor a dizê-lo.

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