Correio do Minho

Braga, sexta-feira

O poder de compra português é dos mais baixos da UE

As Bibliotecas e as Escolas

Ideias

2018-03-17 às 06h00

António Ferraz

Opoder de compra (ou nível de vida ou de bem-estar) de um país é, em geral, expresso por um indicador chamado Produto Interno Bruto (PIB) per capita (“PIB pc”) - produção total de bens e serviços de um país/por habitante/ano. Contudo, para ser mais credível o indicador é calculado em paridades de poder de compra, ou seja, o “PIB pc” ajustado ou corrigido pelo diferencial de inflação entre um Estado-membro e a média da União Europeia (UE), o que permite fazer comparações do nível de poder de compra entre os países. Ora, dados mais recentes referentes ao ano de 2016 com fontes no INE e no Eurostat), apontam para Portugal um “PIB pc” em paridades de poder de compra, em Portugal de 77,3% (face a média da UE=100), um valor que revela, por um lado, uma melhoria (embora ligeira) do poder de compra dos portugueses (76,8% em 2015 e 76,7% em 2014) e, por outro, a manutenção de Portugal no grupo de Estados-membros situados na cauda da UE.
Assim, se considerarmos apenas os 19 países da zona Euro, Portugal ocupa a 14.ª posição da tabela de poder de compra em paridades de poder de compra, bem longe da média da zona Euro e muito mais ainda de países como como o Luxemburgo (257,6%), a Irlanda (183%),a Holanda (127,6%), a Áustria (127,5%) e a Alemanha (123,4%).
Portugal apenas supera, por pouco, a Eslováquia (76,9%), a Lituânia (75,4%), a Estónia (75,1%), a Grécia (67,5%) e a Letónia (64.6%).
Mas, se o “PIB pc” em paridades de poder de compra em Portugal é dos mais baixos da UE, também sucede o mesmo (embora em menor medida) quanto ao consumo das famílias. Na verdade, em 2016, o consumo per capita (em paridades de poder de compra) das famílias portuguesas é de 81,7% da média comunitária (UE=100). Note-se ainda que entre os países com um “PIB pc” em paridades de poder de compra maior que o português, somente a Eslovénia consome menos do que Portugal (75,9% da média da UE). Em suma, Portugal apresenta uma evolução positiva (embora ligeira) do seu nível de poder de compra (de nível de vida ou de bem-estar, contudo, permanece ainda bem longe da maioria dos seus parceiros da UE.
Ou seja, desde 2014, com o findar da fase de austeridade excessiva que Portugal passou a inverter o cenário de recessão económica e a apresentar valores positivos em indicadores económicos relevantes. De seguida, apresentamos então alguns dos indicadores favoráveis:
(a) taxas de crescimento económico positivas de 2,7% em 2017 (previsão) e de 1,6% em 2016;
(b) baixa acentuada do desemprego, agora menos de 8% (foi de 17% no auge da crise) e criação de novos empregos;
(c) melhoria do poder de compra (de nível de vida ou de bem-estar) nacional;
(d) valorização do factor-trabalho com a reposição de rendimentos e direitos;
(e) descida sustentada do défice orçamental de 2,0% do PIB em 2016 e de 1,2% do PIB em 2017 (previsão);
(f) redução (embora ligeira) da dívida pública de 130% do PIB em 2016 para 126% do PIB em 2017 (previsão).
Mas podemos perguntar agora: será este cenário positivo sustentável, de longo prazo? Tudo depende da evolução da conjuntura externa dado o país ser altamente dependente do exterior. Igualmente depende da superação de fragilidades que se mantém na economia portuguesa. Daí, se infere da necessidade de uma profunda reflexão da sociedade e governação portuguesa sobre medidas a tomar de forma a evitar a acautelar os eventuais efeitos de choques negativos na economia portuguesa.
Concluímos elencando algumas as principais preocupações na sociedade portuguesa no presente:
(1) o crescimento económico português resulta, e muito, da conjuntura externa favorável (crescimento económico na UE, taxas de juro historicamente baixas, descidas do preço do petróleo, etc.), então qualquer choque externo negativo imprevisto trará graves problemas a economia portuguesa;
(2) o crescimento do nível do investimento (público e privado) está ainda muito aquém do desejado para garantir a sustentabilidade do próprio crescimento económico;
(3) apesar de ser um dos factores mais positivos do crescimento económico, a verdade é que o saldo das contas externas (exportações menos importações) desacelerou em 2016;
(4) a evolução do crescimento económico tem permitido Portugal se aproximar (um pouco) do nível de crescimento económico europeu (média da UE de 2,6% em 2016), mas está ainda bem longe dos seus principais concorrentes externos: Espanha (3,1%), Irlanda (7,0%) e alguns países do Leste europeu;
(5) a baixa acentuada do desemprego supera o esperado tendo em atenção a taxa de crescimento económico, logo, resulta de investimento em sectores trabalho-intensivo: turismo, construção e serviços;
(6) a insuficiência de investimento em sectores capital-intensivo: indústria, sectores de alta tecnologia, etc. e as baixas qualificações dos trabalhadores e dos empresários explicam todo um processo de baixa da produtividade média e, logo, de perda de competitividade externa da economia portuguesa.

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