Correio do Minho

Braga, sábado

O poder da família

Investir em obrigações: o que devo saber?

Conta o Leitor

2015-08-29 às 06h00

Escritor

Daniela Barbosa

Desde muito pequena que me lembro das férias em família, recheadas de momentos partilhados e histórias eternas. Não há uma única coisa que mudasse. Falo das férias porque todas elas foram sempre muito marcantes e comoventes. Comoventes! Não sei se será esta a palavra que deveria escolher, mas vou ficar com ela por agora…

Como todas as famílias normais quando as pessoas vão de férias levam a casa às costas. A expressão “casa às costas” tem mesmo esse significado, para além de levarmos malas que davam para sobreviver durante um mês quando só estamos fora uma semana, ainda vão tão cheias que temos de nos sentar em cima delas para as conseguir fechar. A diversão começa logo por aí. E ela continua… entre escolher hotéis, restaurantes e sítios a visitar. Entre discussões e ninguém se entende e toda a gente quer falar mais alto... Mais parece que estamos num debate político entre o PS e o PSD ou num jogo entre o Benfica e o Porto em que um lado da família são os “No Name Boys” e o outro os “Super Dragões”.

E quando finalmente chegamos ao destino é que tudo acontece. Quando pensávamos que preparar a viagem era a maior aventura que tínhamos, eis que o destino ou lá o que está acima de nós nos prega várias partidas. Lembro-me de umas férias em Fátima há já alguns anos, era ainda eu uma miúda a entrar na adolescência, num hotel. Um hotel de quatro estrelas, é preciso fazer essa referência.

Podia ser uma pensão, uma residencial de duas estrelas, mas não… era um hotel de quatro estrelas!!! Acho que foi a coisa mais “chique” e mais requintada que tinha visto em todos os meus poucos anos de existência. Não sei qual foi a ideia de escolher aquele hotel em particular, mas achamos que era uma boa escolha. Mas em Fátima tudo nos parece ser uma boa escolha. É um lugar sagrado, de proteção, achamos que pode acontecer tudo num lugar como aquele. E não é que aconteceu? Aquele hotel muito “fino”, muito elegante, muito organizado, com uma vista magnífica, ficou virado do avesso apenas numa noite. Uma noite. Foi tudo o que precisamos para perceber que aquele não era o nosso mundo.

Tudo começou quando andamos de um lado para outro do hotel, sobre escadas, desce escadas, elevador para baixo, elevador para cima. Agora vou ver o quarto da avó, agora vou ver a casa de banho privativa do primo, agora vou ver o que tem no frigorífico do quarto do tio, agora vou ver o salão de jogos… Salve-se quem puder!!! Tenho a certeza que numa parte da noite algumas pessoas pensavam que estavam num jardim zoológico ou num circo e não num hotel. Mas não, era só uma família normal com curiosidade. Curiosidade essa que levou a que o hotel ficasse sem luz.

É verdade. Então não é que alguém da família teve a brilhante ideia de ir mexer no quadro da luz do hotel. Então porque não? Ele estava ali, pronto para alguém começar a brincar ao jogo do “agora acende a luz, agora apaga a luz”. Não vejo qual é o mal, toda a gente faz esse jogo. E, obviamente, que esse jogo só acaba quando as luzes não acendem mais. Pensei realmente que era a hora, era a hora em que nos expulsavam. Era a hora em que toda a família ficava destroçada…

Mas não. Ainda não tínhamos pago a estadia. Deixaram-nos ficar. E ainda bem. Porque o melhor ainda estava para vir: a festa nos quartos. Confesso que o meu quarto era o mais divertido. Entre risos, volume da televisão no máximo e conversas sem fim, ouvimos uma batida na porta. Ainda me pergunto como ouvimos o bater na porta com a quantidade de barulho que fazíamos. Mas ouvimos e fomos abrir. E quando abrimos, para nosso espanto, estava do outro lado um senhor inglês. Que disse, com a sua expressão negativa e sotaque carregado “shut up”, do bom português “calem-se de uma vez por todas, porque quero dormir e estou farto de vos ouvir”. O melhor de tudo, ou o pior dependendo da perspetiva, é que ele estava em cuecas e a visão não era a melhor.

Uma noite atribulada num hotel maravilhoso, com uma família fantástica e muito divertida. As pessoas é que não percebem isso. O melhor disto tudo é o pequeno-almoço. Aquele espaço do hotel recheado de bolos, de croissants vindos diretamente de Paris de França, de sumos de todos os sabores, do cheiro a café… confesso que acho que a minha família revolucionou aquela sala. Por onde passávamos todos ficavam a olhar. Quero pensar que era porque nos achavam magníficos, mas agora que penso acho que olhavam porque eramos cerca de quarenta pessoas.

Um bom número para fazer uma manifestação ou uma coisa parecida. Mas foi bom ter todas aquelas pessoas a olhar para nós. Comecei a pensar que tinha de distribuir autógrafos ou assim, mas não tinha caneta e isso era um problema. Depois, chegou a altura de fazermos as malas para rumar a um novo destino. Mas quem é que vai para um hotel e não trás os sabonetes que eles oferecem ou os chocolates e bebidas que estão nos quartos? Obviamente que toda a gente trás. E a minha família, não é exceção. Gosto da parte em que toda a gente acha que está a cometer um crime porque “roubou” meia dúzia de sabonetes e chocolates… por favor, nós pagamos por isso! São nossos por direito.

E entre umas coisas e outras acontecem as mais caricatas histórias. Como ter um casaco vestido ao contrário e perceber isso dentro de uma igreja e toda a gente desatar às gargalhadas e ter de sair a correr porque não se deve rir dentro de um lugar sagrado. E uma criança começar a correr e o pai da miúda começar a correr atrás dela e escorregar numa das necessidades de um cão no meio da rua, que por acaso já lá estava e não foi a criança que fez aquilo, mas como têm de culpar alguém, culpam a pobre da fedelha.

Rir nos momentos menos apropriados, cair nos sítios menos improváveis, falar mais alto que uma voz num megafone, chorar de alegria, chorar de rir… são estas coisas que formam a essência de uma família. O poder da família está nas pessoas que fazem parte dela. Não há dinheiro nenhum que pague o que uma família nos pode dar. Felicidade, carinho, respeito e amor. Nunca me arrependerei daquilo que vivi com a minha. Só me arrependo de não me ter “despedido” das pessoas que já partiram, mas nunca vou esquecer do brilho no olhar delas, nem das suas mãos ásperas e brilhantes, a forma como encaravam a vida era e é uma coisa que me fascina.

Acredito que nunca nada é uma despedida, que nos vamos encontrar de novo, que voltaremos a estar todos juntos. Porque o mais importante numa família é a união, a disponibilidade, o ver para além de. A minha tem isso tudo. E não podia estar mais orgulhosa do poder da minha.

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