Correio do Minho

Braga, quinta-feira

O pobre... e a arte de pedir

Um futuro europeu sustentável

Conta o Leitor

2013-07-02 às 06h00

Escritor

Félix Dias Soares

Sempre fomos um país com muitos pobres, mas a arte de pedir acentuou-se no período a que chamávamos o pós-guerra, com um número significativo de pobres que nos batiam à porta, cada um nos seus dias habituais. Faço referência ao pobre da quinta-feira: homem alto, sempre vestido de preto, a barba de alguns dias e chapéu de abas largas o que tornava o seu rosto sombrio e austero.

Arrastava uma perna auxiliando-se de uma bengala, da qual talvez não precisaria, mas era assim que todas as quintas-feiras passava à porta das pessoas, tendo-as já por clientes. Depois de bater à porta, formulava as suas rezas, os ditos padre-nossos e avé-marias, as pessoas da casa esperavam pelo fim da reza, para lhe trazer a esmola.

A esmola, por vezes, era uma bucha de pão, mas também havia, quem dava algumas moedas. Era o caso de um senhor abastado, que dera ordem à sua governanta para dar uma moeda aos pobres que passassem.
Certo dia o senhor abastado quando saia de sua casa, confrontou-se com o pobre ao portal, e logo perguntou o que desejava. O pobre ficou embaraçado mas logo respondeu que era o pobre que habitualmente pedia à quinta-feira em sua casa.

O senhor da casa olhou para ele e num tom duvidoso perguntou:
De onde é o senhor?
O pobre mostrou não ter entendido a pergunta, mas o senhor repetiu:
Como se chama a sua terra?
Então o pobre compreendeu que não podia fugir às perguntas, dizendo qual era a sua terra e a quantas milhas ficava.

Na semana seguinte, o pobre lá estava como habitualmente não mudando a sua rotina. Mas, para espanto seu, foi o patrão da casa que se presentou ao portal com a esmola, voltando a fazer perguntas. Intimidado pelo senhor abastado, respondeu às perguntas que este lhe fazia, ficando cada vez menos incomodado com elas. Via que era um homem bom, em quem podia confiar. À medida que o tempo passava o pobre vinha ganhando ami-zade ao senhor abastado, ao ponto de serem amigos. O homem rico, com a sua boa educação tratava-o como sendo alguém da sua classe social, mas o pobre remetia-se sempre à sua condição de pedinte, o que não impediu que em pouco tempo fossem bons amigos.

Muitas semanas e meses se passaram, sem que nada mudasse no comportamento do pobre. Para o homem rico tornou-se banal a sua amizade com ele.
Mas, certo dia, havia alguma coisa que o pobre tinha para dizer e não conseguia. Então o outro senhor vendo a dificuldade do pobre perguntou:
Então o que se passa consigo, somos amigos, diga lá o que tem para dizer!
O pobre encolheu-se e disse:
Convido-o para meu compadre. Tenho um filho para baptizar, aceita?

O homem rico aceitou ser padrinho. O pobre com um brilho nos olhos agradeceu, dando-lhe mais pormenores sobre a sua morada, ficando logo combinado o dia do Baptizado, e também como chegar a sua casa.
Chegado o dia do Baptizado, o homem rico meteu-se ao caminho, rumo à casa do pobre. Mas havia na sua mente dúvidas e incertezas, pois pouco sabia da situação daquela gente e, à medida que se aproximava da casa apontada, como sendo do pobre, ficava cada vez mais estranha a situação, pois era uma casa de rico. Já estava próximo do portal quando este se abriu. O pobre esperava o amigo de braços abertos, não sabendo como explicar ao futuro compadre a sua posição social, pois tinha tudo menos pobreza.

O homem rico, como bom observador, em pouco tempo viu que alguma coisa estava mal, pois todos os filhos do pobre eram aleijados. Seguiram-se as apresentações, mas o futuro compadre não se conformava com a situação, acabando por perguntar:
Porque é que todos são aleijados?
Então, o pobre respondeu:
Para pedirem esmola.
O homem rico mostrou-se irritado e disse:
O senhor não vai aleijar o meu afilhado.
O pobre respondeu:
Como queira. Mas vai ser o meu filho mais pobre.

Durante a cerimónia e a sua estadia o homem andava intrigado, não se conformando com a situação encontrada, não sabendo que futuro estaria reservado ao seu afilhado. Estava perdido nos seus pensamentos, quando o amigo pobre lhe pede desculpa, por não lhe ter dito toda a verdade. O homem rico retorquiu, pois tinha razões para duvidar do senhor, e por isso, propunha a tutela e a guarda do seu afilhado, em troca da amizade.
O pobre, contrariado, acabou por ceder ao pedido do compadre e tempos depois entregou-lhe o seu filho, sabendo que o seu padrinho cuidaria bem dele.

Muitos anos depois, aquele filho era Doutor. O pai falava dele com muito orgulho, mas logo dizia que foi à custa do seu padrinho. Quanto aos outros, limitados na sua condição física, pediam esmola nas feiras e romarias.
O pai arrependido e cheio de remorsos, lamentava a situação dos seus filhos, pois tinha predestinado o futuro deles… Seriam pedintes.
Mas, entretanto, os tempos tinham mudado e a arte de pedir também.

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.