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O piropo esticou o pernil?

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O piropo esticou o pernil?

Voz aos Escritores

2021-04-23 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Pois é. Este mundo não está para brincadeiras, anda tudo muito sério, afere-se cada palavra, cada frase, com o paquímetro da aceitação, seja nossa, seja social, e poucos se põem no lugar do outro, no lugar das suas verdadeiras intenções.
Esclareçamos: o piropo é, por definição, a cor do próprio fogo, um elogio alto, em geral – mas nem sempre –, relevando os atributos físicos de um homem ou de uma mulher. Longe vai o tempo do “olá, borracho!”, ou do “fiu, fiu!”, dito e assobiado lá do cimo dos andaimes pelos trolhas zunindo de suor, como longe vai o tempo dos soldados em trote síncrono, respondendo alto ao furriel “É boa? É!!!”. E lá deixavam a garota sorrindo para si de tão elevada exaltação. Não consta que fossem apresentadas queixas, porque a medida da “intenção” era lavada à priori de eventuais impurezas. Pensando bem, pode o piropo ultrapassar pelos dois lados a pretendida “ofensa linguística”? Como se mede a linha que a separa do elogio verdadeiro? Se alguém, homem ou mulher, diz a outrem “és uma bela flor”, qual o alcance da metáfora? Na ausência do contexto situacional (localização, tonalidade, gesto…), como identificar a forma como sente, e reage, o destinatário?
Em ambiente romântico, “és uma bela flor” é altíssimo elogio. Em ambiente de guerra, podemos chamar-lhe ofensivo piropo? Mais claros, talvez, surgem os célebres “ó flor, dá para pôr?”, ou “ainda dizem que as flores não andam”, que trolhas e companhia endereçavam (endereçam?) às belezas que calcorreavam a calçada. Algumas sorriam, matreiras; outras chispavam de viés, que ditos deste jaez não se dirigem a damas de gabarito. Muito menos a explosão do motorista perante celestiais aparições: “tantas curvas e eu sem travões” não fala, com toda a certeza, das curvas da estrada, nem dos travões do camião. Trata-se de um piropo brejeiro, geralmente complementado, a um nível considerado mais ofensivo, por “tanta carne boa e eu em jejum”, ou, em termos piscícolas, por “que rica sardinha para o meu gatinho”.
Nem os trolhas nem o Zé conhecerão, tenho a certeza disso, Searle e a teoria dos atos ilocutórios, nem distinguirão teoricamente a ordinarice da mera subtileza, o que é religioso do que é simplesmente espirituoso.
Estou para descobrir onde está a ordinarice em “ainda dizem que a fruta verde não se come”, se ali, bem ao lado da morena, uma bela macieira oferece de mãos abertas o seu suculento fruto. Que por acaso é verde, mas podia ser vermelho, que nisto de maçãs valem bem todas as cores. Ora digam lá que ato ilocutório se vislumbra em “estou a lutar desesperadamente contra o impulso de fazer de ti a mulher mais feliz do mundo”. Não é bonita e profundamente romântica esta exposição sentimental? Será piropo, mas só prova que o Zé está profundamente apaixonado. Se ele mendigar, de olhos postos no céu, um “diz-me lá como te chamas para te pedir ao menino Jesus”, que ela lhe diga imediatamente o nome, pois há casamento à vista.
Perturba, pois, o artigo cento e setenta do Código Penal, quando decreta prisão de um ano ou multa de muitos dias a quem “importunar” outrem com propostas de teor sexual. Como se afere o “teor sexual” de “acreditas em amor à primeira vista ou tenho de passar aqui outra vez”? O que terá um juiz a ver com quem se dispõe a ser um patinho de borracha para passar o dia na banheira dela? Ideia excelente será a de se inventar um medidor de intenções, uma espécie de craveira linguística eletrónica, capaz de dizer “pi” a cada movimento neuronal em direção à líbido.
Dizem que, no caso dos homens, o instrumento apitaria diariamente um milhão de vezes. Dizem. E no caso das mulheres: apitaria o instrumento?

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