Correio do Minho

Braga,

O Perfume das Rosas

Escrever e falar bem Português: Um item complicado

Conta o Leitor

2014-07-11 às 06h00

Escritor

Maria João Quintas


Eu cresci a observar esta casa da janela do meu quarto, a imaginar como seria por dentro e a desejar, secretamente, poder, um dia, descobrir. Por fora, é, simplesmente, a mais linda casa que alguma vez vi. Mas o que a torna, realmente, única, são as inúmera roseiras que a rodeiam, enchendo o jardim de rosas brancas e o ar de um perfume inebriante.

Na verdade, a velha casa tem outra singularidade, pois, apesar da sua incontestável beleza, quem conhece a sua história garante que está amaldiçoada. Eu nunca acreditei em nada disso, mas sempre me diverti a ouvir os mais velhos contar que a casa foi mandada construir, há muitos anos atrás, por um homem apaixonado como presente de casamento para a sua esposa.

Em seu redor, o marido devoto pediu que plantassem tantas roseiras quantas conseguissem encontrar que dessem rosas brancas, pois eram as flores favoritas da sua amada. Mas, nem um ano volvido, a jovem mulher perdeu a vida em trabalho de parto, assim como a criança pela qual tanto ansiavam. O viúvo desgostoso amaldiçoou a casa que lhe trouxe tamanho sofrimento e jurou que a mandaria demolir mas, também ele, faleceu antes que pudesse cumprir a promessa. A casa acabou, então, por ser posta à venda, mas desde aí, todas as pessoas que lá moraram viram as suas vidas, de alguma forma, marcadas pela tragédia.

Eu vivi anos em frente da malfadada casa, sempre à espera de ver alguém mudar-se para lá, mas esta parecia estar destinada ao eterno abandono. A minha avó costumava contar que as últimas pessoas que lá viveram, ainda a minha mãe era criança, foram um casal com um filho pequeno. Pouco depois de se terem instalado na casa o rapazito adoeceu e a sua saúde deteriorou-se tão rapidamente que nada se pôde fazer para o salvar. A mãe, arrasada pela súbita perda do seu único filho, enlouqueceu e o marido preocupado apressou-se, então, a desfazer-se da casa e a levar a sua pobre esposa para bem longe do lugar que tanta dor lhes causara.

Mas estes relatos não me impressionavam e eu continuava a alimentar a esperança de que um dia a casa seria, novamente, habitada e talvez, então, eu pudesse travar amizade com os novos proprietários e concretizar o meu antigo sonho de conhecer o seu interior.

E foi numa fria manhã de Dezembro que o meu desejo se concretizou. Já passou quase um ano mas lembro-me como se tivesse acontecido ontem. Eu estava a olhar distraidamente pela janela do meu quarto quando o vi entrar na casa acompanhado por uma senhora que presumi ser a agente imobiliária. Era um homem jovem e muito bonito, alto, com cabelo pelos ombros, loiro e ondulado. Muito diferente dos outros rapazes que moram por aqui. Escusado será dizer que fiquei imediatamente interessada em conhecê-lo. Nessa noite sonhei que me enchia de coragem e, assim sem mais nem menos, tocava à campainha para me apresentar, quando a porta se abria, o meu novo vizinho, que mais parecia um deus grego, nem me dava tempo para abrir a boca, pois logo me tomava nos braços e me beijava apaixonadamente.

Quando, finalmente, e de uma forma bastante menos arrebatadora, tive oportunidade de o conhecer, fiquei a saber que era pintor e que se tinha mudado para cá para se dedicar à sua arte. Acho que não consegui esconder o meu fascínio, toda a sua história parecia saída de um filme. A partir daí tornamo-nos bons amigos e, eventualmente, mais do que isso. Quando ele me convidou a mudar-me para sua casa, fiquei em êxtase e respondi-lhe imediatamente que sim. Num momento de tamanha felicidade, a suposta maldição a que a casa estaria sujeita foi a última coisa que me passou pela cabeça. Até ao dia de hoje...

Cheguei mais cedo do que o habitual e esperava encontrar a casa vazia, por isso fiquei em sobressalto ao ouvir ruídos vindos do andar de cima. Resolvi passar pela cozinha e pegar numa faca antes de subir as escadas, talvez não fosse nada, mas sentia-me mais segura assim. Quanto mais me aproximava do quarto e os ruídos se tornavam mais distintivos, outras sensações se foram apoderando de mim, não queria acreditar naquilo que estava a ouvir. Relutantemente, transpus a porta para confirmar o que temia. Encontra-lo na cama com outra mulher foi como um murro no estômago, engoli em seco e senti os meus dedos apertarem-se com mais força em torno do cabo da faca que trazia na mão.

Não sei ao certo o que se passou a seguir, só sei que agora estou petrificada a olhar fixamente para os dois corpos sem vida em cima da cama, da minha cama. Quero desviar o olhar mas não sou capaz de me mexer. Procuro, desesperadamente, uma justificação para aquilo que fiz, mas sei que não existe. Então, tudo se torna claro, sei o que tenho que fazer. Sinto os meus músculos perderem a rigidez e começo a caminhar na direção da varanda, deixando para trás um rasto de sangue. Aproximo-me do parapeito e olho para baixo, para as rosas que continuam a florescer indiferentes a todas as tragédias que já testemunharam, sinto o seu aroma que parece chamar por mim, que tem chamado por mim ao longo de todos estes anos. Sinto-me tranquila, quase como que anestesiada, fecho os olhos e aproximo-me mais um pouco enquanto inspiro, pela última vez, o perfume das rosas.

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