Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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O pequeno “babuch” lá chegou a primeiro-ministro

Dia Internacional da língua materna

Ideias

2015-11-27 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

“O pequeno «babuch», como era tratado em família (significa «menino» em concani, dialeto goês”(vide revista «Domingo», do C.M. na semana de 15 a 21/11), apesar de querer ser bombeiro um dia, aliás como todos os miúdos, lá acabou por chegar a primeiro-ministro após muita controvérsia e discussão e um percurso em que a audácia, a ousadia, a teimosia, a capacidade de diálogo, uma imensa vaidade, muita astúcia e toda uma série de “jogadas”, algumas discutíveis, não deixaram de assomar e de prevalecer, com todos os seus efeitos perversos ou não. Que não são nada despiciendos, diga-se, já que possibilitam os mais diversos juízos de valor num quadro de formação, atitude, personalidade e carácter.

Mas isso já são contas de outro rosário que de certo contendem com o pensar e simpatia de cada um, muito embora não se possa minimizar o facto real de todo um assumir “responsável” (?!)) das responsabilidades e do querer de um povo, e da sua projecção no histórico de um país, com naturais consequências, claro.

Aliás a posição e o atraso havidos resultaram de um dilema do próprio Cavaco que “só pode(ria) investir em Antóno Costa se desinvestir em si mesmo” (J.M.Tavares, in Público, 19.11.15), face às suas anteriores palavras e exigências, mas de modo nenhum justificavam frases e exclamações como «isto é um escândalo» (J.Lacão), «é indigno» (Marisa Matias) ou o «é um gangster» ( Tiago Barbosa Ribeiro, deputado do PS), posicionamentos que apenas encontram explicação numa ânsia incontornável de poder e na cricunstância de, porque “ convencidissima de que a jogada de António Costa foi limpinha, limpinha, a esquerda olha (va) para Cavaco como se ele fosse um apanha-bolas a queimar tempo para impedir a equipa contrária ”(id.).

Sendo óbvio não se pretender questionar a justeza e rectidão dos processos, avaliar ou ajuizar questões de carácter nem discutir a correcção dos tempos, palavras, promessas e discursos, é ponto fulcral e de importância vital que uma qualquer ânsia de poder ou mera vã glória de mandar não hipotequem de novo o país, já que se impõe de todo em todo “evitar” que se entre numa nova bancarrota e se desbaratem, se percam ou se deitem ao lixo todos os sacrifícios feitos e posições assumidas.

Acompanhando o sofrimento de todos quantos foram atingidos pela austeridade, onde aliás nos incluímos, sem dúvida que desejamos uma real melhoria das condições de vida dos portugueses, mas, porque não frequentámos a Haward nem outras que tais da estranja, temos sérias reservas e muitas dúvidas quanto à verdadeira realidade que nos espera e tememos fundadamente que, longe de melhorar, se agrave a situação e a vida de um povo. Como natural consequência e sequela incontornável, diga-se, das muitas utopias, ideias e projectos de muitos “doutorados” e outros “embezerrados” políticos que vivem embrulhados num cego fanatismo do poder, aliás de um pendor “revolucionário” assente em quiméricas teorias de uma nova “encruzilhada” e “trajecto” político-governamental.

E já que, quando ainda “babuch”, desejava ser bombeiro, apenas nos resta a esperança de que, neste momento difícil, conturbado, de crispação, subsequente a toda uma austeridade e sacrifícios, o mesmo «babuch», agora já homem crescido e com barba, indigitado pelo PR para primeiro-ministro após muitas audições e respostas a certas condições, saiba apagar os “fogos” e os “fogachos” de seus parceiros parlamentares, não atire gasolina para o “fogo” e não se deixe tentar pelas “centenices” e mais loucuras de muitos irresponsáveis de cátedra e políticos que tão só sabem “jogar” em tabuleiros de hipóteses e conjecturas, esquecem as realidades, e tão só ... valorizam os seus próprios interesses.

Aliás Armando Esteves Pereira diz que “se um político quer distribuir o dinheiro que ainda não existe, devemos ficar preocupados”(CM. 17.11.15), e assiste-lhe razão para tal. Na verdade, já muito martirizado com cortes e impostos não se consegue vislumbrar como e onde se possa arranjar dinheiro para satisfazer tantas promessas e intenções bolçadas, afigurando-se-nos que, embora não se seja “doutorado” em economia nem “bolseiro” da política, os impostos (taxas, subsídios ou qualquer outra coisa que se invente e chame) indubitavelmente irão surgir e aumentar, o défice irá crescer e a troika (ou outra entidade qualquer) possivelmente irá voltar, desgraçando-nos a vida e a nossa autonomia. E isto não é apenas pessimismo, diga-se!...

Os “casamentos” alegadamente feitos em breve se transformarão em separação de pessoas e bens e em divórcio mais ou menos litigioso quando as dificuldades e os problemas surgirem, sobretudo se já alcançados os “resultados visados” e a realidade se apresentar na verdade de toda a sua dureza. Até porque na génese de tão espúrios enlaces emerge logo uma impossibilidade de uma qualquer “consumação”, que, para os católicos, é sempre factor de fácil separação ou divórcio e ... até de anulação do acto matrimonial.

Não se podendo ignorar nem desconhecer que por detrás de toda uma “arremessada” simpatia e muitos sorrisos o “babuch” de outrora se sumiu como que por encanto, importará reter-se, lembrar e não menosprezar a agilidade, arte e habilidade do rapaz que aos 14 anos ingressou na JS pela mão de Aarons de Carvalho, a sua posterior ascensão nas estruturas partidárias, o seu curso de Direito e estágio na advocacia no escritório do Jorge Sampaio, a sua chegada a deputado aos 30 anos e todo um percurso na área do poder como Secretário de Estado e Ministro dos Assuntos Parlamentares, da Justiça, da Administração Interna, eurodeputado, presidente da autarquia de Lisboa, etc, nem as disputas pela liderança do PS, os seus“jogos” tácticos e acordos tácitos, a subida de Sócrates e depois todo o “levantamento” contra Seguro e o seu cargo de Secretário Geral do PS, porque havia ganho por poucochinho nas europeias de 2014, defrontando-o e ganhando-lhe nas primárias e depois nas directas.

E o homem que, já ufano como Secretário Geral, vira o PS subir nas sondagens e uma maioria absoluta no horizonte, acabara afinal por ver quase ruir e desmoronar-se o seu sonho de ser primeiro-ministro ao ter apenas 32, 3 % dos votos, “um resultado poucochinho”, diga-se, surprendentemente encetou então “uma fuga para a frente”, sendo de recordar e memorizar as palavras de Galamba quando diz que ele “é um político hábil. Se chegar a primeiro-ministro vai fazer tudo para sobreviver. Para já está agarrado à bóia. Resta é saber se a bóia não tem furos”.

Aliás, acompanhando com atenção o pensamento de Galamba, de alguns socialistas e de muitos outros que discordam do seu posicionamento, da sua atitude e dos seus esforçados acordos com a esquerda, afigura-se-nos que, mais do que salvar o país, preocupou-o salvar a sua pele de Secretário Geral do PS e satisfazer a sua ambição pessoal e de poder de ser primeiro-ministro como outros anteriores colegas da JS.

Ao que se diz e escreve, o «babuch» de outrora gosta e entretem-se a fazer puzzles para descontrair, mas o actual puzzle, como o de acordos com o PC, BES, PAN e os Verdes numa amálgama de “peças” de múltipla variedade e diversidade em cor, forma, princípios, fins e objectivos, não se nos afigura de total credibilidade, segurança e fiabilidade em termos de solução, pese embora toda a sua reconhecida teimosia e capacidade ímpar para negociar, temendo-se que o ocorrido não passe de uma insólita, discutível e aberrante posição pessoal para governar o país e atingir o poder.

Como aliás fez e tomou quando em 1993 se “candidatou à Câmara de Loures, um feudo inexpugnável do PC, e promoveu uma corrida entre um burro e um Ferrari para chamar a atenção para o trânsito caótico da Calçada de Carriche”. Sendo embora um homem corajoso e que não desdenha os desafios, crê-se que no presente caso, ao alcandorar-se a lider de toda a esquerda e ao avançar, como o fez, para primeiro-ministro, o nosso «babuch” deu um passo maior do que a perna, “agitando” consciências, “libertando” surdas vontades, “avolumando” crispações, “engrossando” obscuros “interesses”, e ... eventualmente fazendo “surgir” perversas fracturas na vida de um povo, com reflexos negativos na sobrevivência de certas forças políticas.

Mas até é muito possível que o “burro” ganhe agora a corrida, ainda que governar um país não seja o mesmo que dirigir uma Câmara, mas o percurso seguido e havido, além de sempre muito discutível, questionável e insólito, arrasta e envolve todo um séquito em que avulta um mundo de interrogações e desconfianças. E até de segurança e estabilidade, diga-se !...

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