Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O Pelourinho

Macron - Micron

Ideias

2018-05-04 às 06h00

José Manuel Cruz

Há crimes económicos e financeiros que facilmente poderíamos enquadrar como actos de terrorismo, como actos de traição. É populismo? Não, julgo que não: é mágoa. Há crimes que, uma vez provada a sua factualidade uma vez aventada, sequer deveriam vir acompanhados de uma pena acessória de indignidade cívica, de um édito de excomunhão civil. Ao presente, no ordenamento jurídico, não dispomos de um instrumento de execração desta ordem. Nos dias de hoje, a im- prensa é o veículo de escárnio perdurante em tempos consubstanciado no pelourinho. Não querem, os putativos culpados, que os seus fazeres caiam em praça pública. Compreende-se: custa menos roubar, do que se saiba que se é ladrão.

Não prestei particular atenção à série de programas consagrados ao inquérito «Sócrates». Indignam-se, uns; acham bem, outros. Prove a Justiça o que seja capaz, certo é que, para a maioria de nós, Sócrates jamais cumprirá pena à dimensão dos factos que lhe imputamos, até porque há crimes morais não contemplados em nenhum código penal. Um primeiro-ministro não pode prevaricar da forma como alegadamente supomos que ele o fez. Um primeiro-ministro não é um vulgar assaltante. Resumo desta forma: seria menor, o crime de uma quadrilha que roubasse dez vezes mais do que aquilo que se contabiliza que José Sócrates tenha entesourado com favores avulsos.

É difícil de encaixar que ninguém desse por nada nos vários ministérios. É dificílimo de aceitar que os eventuais visados possam invocar que andavam nas suas vidinhas, e que nenhuma coscuvilhice lhes pegava de estaca. Mais difícil é de engolir que não houvesse mecanismos redundantes de alarme. Que não houvesse, e que continue a não haver, aparentemente.

A semana passada, a bastonária da ordem dos enfermeiros deu uma para ajuda. Os mesmos contentores, ano após ano alugados à mesma entidade hospitalar, sob nomes contratuais distintos? Se a solução era legítima, porquê a cortina de fumo? Há quanto tempo a situação seria comentada em pequeno círculo? E valem os pré-fabricados pelo aluguer que o hospital suporta? E quanto custariam quatro paredes de chapa soldadas numa empresa pública, forradas a material isolante? Portugal é avesso à transparência. Cai um assunto ou outro na ordem do dia, agitam-se as águas, tomba este ou aquele em desgraça, mas o mais certo é que voltemos ao mesmo rame-rame.

Há ou não rendas excessivas na EDP? Os SWAPS tinham sido bem ou mal ajustados, isto é, com prejuízo do interesse colectivo, e com majoração da vantagem bancária? E a Lusoponte? E as PPP, grosso modo? Enfim: quantos exemplos poderemos nós recensear, sempre com o mesmo guião?
É impossível viver sob a sensação constante de conluio, de cartelização, de favores compensados com liberalidades várias vezes milionárias. É impossível viver com a sensação opressiva de que o nível de canalhice aumenta à medida que se sobe na hierarquia social, e que um malfeitor, para ser dos bons, tem que ostentar, por cartão-de-visita, um rectângulo com um CEO de qualquer porcaria em relevo, ou título ministerial.

Quer o PSD saber quem são os maiores devedores da Caixa. E não sabe já? A propósito: não dizia, o Ângelo Correia, que não percebia como é que o seu nome vinha à baila nos «Panamá Papers»? Bom, admitamos que o Rui Rio não sabe, por causa dessas coisas do segredo bancário. E por que é que tem que haver segredo bancário, em geral? Uma vez mais se é tudo legal e legítimo, de que tem um bom capitalista que se eriçar? Ninguém lhe vai roubar nada! Ninguém lhe vai ver se pagou os impostosinhos todos! E que se veja: se não os pagou, pois que os pague, e com as coimas que se prevêem. Esconde-se, por aí, mais o dinheiro do que as amantes, agora que o pecado caiu em desuso, e que a família é um diorama de museu de antropologia.

No ponto a que chegamos, nenhum segredo bancário ou fiscal é sustentável, a menos que o interesse público seja uma mera ficção. A sociedade é uma unidade colectiva, cujo interesse se sobrepõe ao individual preconizar o contrário é deixar a porta permanentemente aberta à malfeitoria.
O fascismo já lá vai. Portugal é uma democracia reconciliada consigo e com a História. O povo não é dos piores, e circulam na net os quarenta e tanto argumentos para considerar Portugal um dos melhores países para se viver. Entretanto, bom é que ele sirva aos nacionais. Costa, ou outro que lhe suceda se Costa não estiver à altura pode associar o futuro da Nação ao seu nome, se for capaz de dar o passo em frente, criando um mecanismo seguro de controlo dos negócios escuros, sobretudo os que envolvem as estruturas do Estado. Esperemos que realmente o queira fazer.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.