Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O PEC, a pedofilia e o resto

Escrever e falar bem Português

Ideias

2010-03-29 às 06h00

Artur Coimbra

1 - O país vive a obsessão forçada do PEC. No fim da rua não se fala de outra coisa. Há quem lhe chame Plano de Estabilidade e Crescimento. É uma designação simpática, moralista e politicamente correcta, como convém aos burocratas europeus. Há, porém, quem o apelide de Plano de Espoliação dos Carenciados e com alguma razão. Ou então, Plano de Esvaziamento da Classe média, que é o mais certo, bem vistas as coisas.

O PEC anunciado por Sócrates e sancionado ou legitimado, “patrioticamente”, pelo PSD ainda de Manuela Ferreira Leite, arrasta consigo nefastas consequências não apenas para as classes médias, mas igualmente para as mais baixas, os eternos pagadores de promessas e sacrificados quando as coisas correm para o torto, ainda que não tenham a mínima responsabilidade pelo que fazem ou deixam de fazer os que, em seu nome, põem e dispõem da coisa pública.

Os funcionários públicos, como sempre, constituem o “público-alvo” preferencial das medidas mais gravosas que o governo anunciou. Como todos os portugueses que pagam impostos, vão ser atingidos drasticamente pela restrição dos benefícios fiscais; além disso, vão ver os seus rendimentos diminuídos, pelo congelamento dos salários, pela subida da inflação e pelo aumento dos impostos.

Mas também os desgraçados dos reformados, muitos deles com pensões de miséria, serão atingidos pelo plano que nada estabiliza e não faz crescer. E até os desempregados, que não têm culpa da sua situação, serão fortemente penalizados, sendo obrigados a aceitar trabalho escravo e salários de terceiro mundo. É esta a modernidade que se anuncia…

É claro que, relativamente aos tubarões da banca e das finanças, não há PEC que chegue aos paradisíacos “offshores”, às aquecidas piscinas, às acomodadas mansões onde se traficam influências e escândalos. O mínimo que a situação suscita é náusea, repugnância, aversão, quando se pensa na injustiça de ver um qualquer funcionário de uma qualquer empresa a pagar, com língua de palmo, a desregulação de um sistema económico que foi provocada, não por ele, não pelos seus pares, não pelos trabalhadores em geral, mas pela ganância, pela cobiça e pela cupidez de banqueiros, de parasitas e de especuladores sem escrúpulos que arrastam o mundo, e o nosso país, para o beco. Esses é que deveriam pagar a crise, se justiça universal houvesse, e não essa treta da resignação cristã!

O que os pobres portugueses esperam é que haja a mínima justiça na distribuição dos sacrifícios, como pede, e bem, Manuel Alegre. Espera-se que as grandes fortunas também ajudem a pagar a crise; e que o mesmo aconteça com as grandes empresas públicas e privadas, que se gabam de lucros de milhões e chegam ao desplante de premiar os seus administrado-res, pagos principescamente, pela façanha de explorarem caninamente os consumidores dos seus serviços.
Como se espera que os políticos, sobretudo os políticos, do Governo, à Assembleia e à Presidência da República, dêem sinais claros aos portugueses de que também participam activamente no esforço nacional de contribuição para a diminuição do défice, o que até agora não aconteceu. Não é só falar, não é apenas legislar, não chega impor.

É necessário explicar, mobilizar, motivar, dar o exemplo, para que os cidadãos percebam o que está em causa e se disponham a colaborar. Não é pedir aos portugueses para apertarem o cinto e depois saber-se de “boys” a ganhar milhões de euros, sem nada produzirem; ou governantes a deslocarem enormes comitivas bem falantes ao estrangeiro em mero turismo político, sem qualquer resultado prático. Ou manterem-se projectos faraónicos, ao nível das obras públicas, de que não estão absolutamente seguros os resultados, nem sequer a necessidade.

São um abuso e uma injustiça as medidas que se anunciam se não incluírem todos os portugueses, sem excepção, nos sacrifícios que é necessário acei-tar, até porque os trabalhadores estão fartos de serem o bode expiatório de todas as crises e o bombo da festa de todos os apertos. E o primeiro exemplo deve vir de quem manda, sem qualquer ambiguidade. No sentido de que todos percebam que os sofrimentos destes quatro anos têm como escopo um Portugal melhor, mais desenvolvido e mais solidário, e não a manu-tenção do pântano em que os políticos têm enredado a Nação na última década...

2 - Nos últimos meses, o mundo tem sido bombardeado com revelações sobre escabrosos abusos sexuais de padres, um pouco por todo o mundo, em colégios, seminários e internatos. Já não bastava as crianças serem pobres, pois só os pobres iam para aquelas instituições, como se vêm a descobrir crimes horrendos sobre os “elos mais fracos” dessa cadeia de ignomínia.

Foram aos milhares os casos de abusos registados nas diversas latitudes, e certamente que Portugal não está a eles imune. O que escandaliza é a hipócrita cobertura que as hierarquias, a começar pelo Papa, dão a estes crimes, como se a pedofilia cometida por cidadãos normais seja rigorosamente censurável e a mesma depravação cometida por membros da Igreja seja assumida como algo desculpabilizante, que terá sempre as suas santificadas justificações.

De toda esta vergonha resulta o indisfarçável descrédito da Igreja, disso não haja dúvidas. E a necessidade de a Igreja equacionar, sem preconceitos, nem tabus, a questão do celibato e do casamento dos seus membros. Cidadãos normais à frente das paróquias e dos seminários evitariam os odiosos escândalos de que tanto se vai falando por estes dias, com toda a pertinência!...

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