Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O Parque da Cidade

Cancro do Pulmão – de que morrem os portugueses

Ideias

2017-09-15 às 06h00

José Manuel Cruz

Para que realidade remete a discussão do Parque da Cidade? Como o desenha, quem dele fala? E falam, porque o desejem, porque lhe sintam a necessidade, ou batem-no como carta de trunfo, pelo que outros prometeram por atacado, atabalhoadamente?
O Parque da Cidade é uma realidade de verde e água, de frescas e clareiras ensolaradas, de passaredo e pequena bicharada, ou é uma mera locução substantiva, um conjunto de vogais e consoantes de conteúdo impreciso, uma bandeira de circunstância?
Pode discutir-se a urgência de um Parque da Cidade sem se precisar um território concreto, sem se levar em conta os hábitos de uma população?

Nos tempos em que Braga era pequenina, parque havia, o da ponte, dentro e fora de muros. Era um arremedo, uma sugestão, nenhum dos habitantes de então se perderia e, juntinhos, talvez coubessem, todos, com as proximidades de turba de noite branca.
Nos tempos em que a cidade era pequenina, desanuviavam, os bracarenses, pela Santa Marta e pelo Sameiro, de farnel e garrafão, pelo Bom Jesus com outra civilidade, sem lanche nos bornais. Nos tempos em que Braga era pequenina, banhava-se o rapazio nos Galos, nos Pelames, em Prado e na Ponte do Bico, por excursão pedestre, passeio de bicicleta ou à boleia.

Espairecia, o braguês desses tempos, no largo em frente à casa ou nos topos da rua em que morasse, em Santa Cruz ou em Santiago, nas Carvalheiras, no Campo das Hortas ou no Campo Novo, com mais árvores aqui, com menos ali, mas a poluição também não maçava.
Depois, a cidade deixou de ser pequena, ou talvez continue a ser, e o braguês é que se puxa a brios. Os largos por cá andam, desvirtuados, acimentados, infruíveis como território semi-natural e palco de deambulação. Imagine, o leitor com mais tempo, um Campo da Vinha, plaino, com árvores a cada dez metros. Quantas caberiam?

De parques se falou, em anos recentes, contra e a propósito de dinheiros: para que nas Sete Fontes não brotassem caixotas de betão, para que no Picoto se montasse um teleférico, ou uma pista de esqui com gelo artificial, sei lá eu mais o quê. Delírios.

Talvez um Parque da Cidade idealize quem por alguns tenha trotado, por essa Europa fora, bosques encravados entre linhas radiais de metropolitano, que numa ponta se sai, três horas ou mais se passeia, e noutra se entra, a caminho de casa. Talvez o Parque da Cidade idealize, quem piqueniques viu, de fogareiro e tudo, família aqui, família ali, nos rebordos de lago natural ou artificial, ou grupos de mocitos e mocitas em fato de banho, apanhando sol, testando namoros.

Talvez o Parque da Cidade idealize, quem o paradigma tenha de manhã bem passada, aquela que à recolha de bagas e cogumelos se consagra; castanhas ou nozes caídas, poderíamos nós ter, avelãs penduradas nas aveleiras.
De que Parque da Cidade precisamos? De algo de imponente, ou de estrutura mais de trazer por casa, à nossa escala, criando qualidade de vida um pouco por toda a parte? Precisamos de um Parque da Cidade majestoso, onde toda a gente vá, quiçá de carro que estacione e recupere em hora por azar combinada, provocando fila de trânsito, buzinadela, desentendimento?

Abstracção perigosa, o Parque da Cidade, coisinha da vulgata moderna. Dirimem argumentos, os políticos, projectos contrapõem, obra reclamam ou prometem, como se as matérias em discussão constituíssem valor em si mesmas. Ora, que me pareça, nada tem préstimo, se o cidadão não servir.
Tomo um Parque da Cidade como ingrediente de salada de bem-viver, não como prato servido por dieta de emagrecimento, elaborado por recém-licenciado de qualquer coisa, executado por firma com nome por fazer, mas constituída milagrosamente em cima da hora.

Faltar-nos-á um Parque da Cidade? Um Zoológico? Um Reptilário? Um Zoo-ornitológico? Uma Estufa de Borboletas? Um Jardim Botânico? Uma combinação de vários? Cada ideia, seu estudo de viabilidade. E por que não uma Bracalândia 1.2? Não dava prejuízo, consta. Que mais nos falta, aparte uma ideia de cidade?
Não há grande tradição de que obra pública se faça desinteressadamente, em nome de desenxabido bem comum, nem em Braga, nem noutras paragens. Na matriz de interesses em jogo, o bem colectivo costuma pedalar penosamente à frente do carro-vassoura, e ainda o Zé da burra não partiu, já um Fromm qualquer coisa cortou a meta e foi para sua bela casinha ataviado de troféus: uns à vista, outros nem por isso. Enfim, veremos no que a coisa dá.

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