Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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O pão, o circo, as unhas… e o Gurosan

A Europa e o futuro

Ideias

2010-10-28 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Por estes dias, de crise e de … austeridade (a tal palavra que eu ouvia na minha infância e que cheguei a julgar já só existir nas narrativas de vida de quem as quisesse partilhar) o pão é pouco e, acima de tudo, anda muito mal distribuído (veja-se André Freire em O Público, 25/10/2010).

Já de circo, andamos todos de barriga cheia, seja o desempregado, seja o assalariado com ordenados em atraso; seja o funcionário público que assiste já quase sem reacção às sucessivas machadas no seu real poder de compra; seja enfim aqueles que nesta babel de muitas línguas de muitos queixumes, vão passando menos-mal e alguns até muito bem. O circo a que o nosso país assiste é como um sol: quando nasce é para todos! É num penoso sentido, um circo muito democrático.

Ficámos a saber que as rondas negociais para a aprovação do Orçamento de Estado 2011 (essa maravilha da Engenharia da Sobrevivência de um país à beira de um AVC colectivo) fracassaram, pelo menos até à hora em que escrevo na tarde de 26, porque este circo é tudo menos monótono. Ora, não sei o que mais me irrita na actual descompostura do nosso sistema governativo: se este PSD pseudo-preocupado em salvar as famílias portuguesas da queda livre para um abismo a que já só conseguem escapar agarrando-se às bordas com unhas em sangue; se este PS a anunciar a vinda apocalíptica do FMI; se este Presidente da República assumindo-se como o coro de tragédia grega que tudo profetizou e tudo anunciou em tempo oportuno.

Mais preocupados em gerir a crise nacional, cada um parece preocupado em gerir os danos da crise nacional sobre a sua imagem e sobre o seu futuro eleitoral. Todos querem que amanhã deles se diga que salvaram o País, mas simultaneamente, nenhum quer arriscar arcar sozinho com o fardo das decisões políticas a que o salvamento os obrigar.

É certo que desta vez (ao menos desta) a nossa crise é a crise de muitos outros. Basta olhar para a Europa, de Norte a Sul (se bem que há excepções claríssimas como a da Alemanha, que deve andar a rir-se de todos nós).

É certo que qualquer crise com a dimensão que esta assume, implica sacrifícios e rupturas amargas com quotidianos de conforto que se julgavam relativamente a salvo. É certo também, que todo este cenário tende a ser bem mais dramático em estados que sempre procuraram ser estados sociais sem que alguma vez o tenham sido de forma sustentada. É o caso de Portugal. Creio que tudo isto, se compreende e se aceita.

O que dificilmente se pode aceitar - e por isso é que a actual crise governativa assume contornos de circo - é que tenham de ser sempre os mais fracos (e muito em particular o funcionalismo público que no nosso país constitui a maioria da classe média) a servir de Guronsans às ressacas de um Estado ébrio e que mesmo assim o Estado não saiba como os quer e quanto quer tomar. Estamos perante um Estado ébrio de despesismos; de derrapagens nas contas de grandes obras públicas; de perdões às asneiras do grande capital (sempre sob a máxima de que os bancos devem ser salvos porque um ‘banco não é um talho’); de triplicações na afectação dos parcos recursos em virtude da má articulação entre organismos públicos e privados; etc, etc…

E como se não bastasse sermos o Guronsan de toda essa bebedeira governativa, os nossos líderes políticos ainda se esgrimem sobre a melhor forma de nos dissolver: se em chá, se em água com gás, se em sumo de maçã.... É como ter um paciente na marquesa e dizer-lhe: “olhe, vamos ter de o amputar para evitar um colapso sistémico do organismo, enfim, o pior. Mas primeiro temos de nos acertar sobre se cortamos mais acima ou mais abaixo.” Enquanto isso, a gangrena alastra-se. E o paciente só não delira porque a vontade de manter-se agarrado à vida é maior do que o desespero.

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