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O pão de Santo António nasceu em Braga

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O pão de Santo António nasceu em Braga

Ideias

2022-02-20 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Num momento em que a Arquidiocese de Braga tem um novo Arcebispo, a quem desejamos naturais sucessos, irei recordar aqui uma das ações mais nobres cujos religiosos de Braga iniciaram no nosso país. Refiro-me ao “Pão dos Pobres”, ou o “Pão de Santo António”.
Estávamos na última década do século XIX quando ocorreu um acontecimento estranho em Toulon (França), exatamente a 12 de março de 1890.
Luísa Bouffier, proprietária de uma loja, deparou-se com uma fechadura encravada, quando se preparava para abrir a porta. Preocupada, prometeu oferecer pão aos pobres se alguém conseguisse resolver o problema. Chamado um serralheiro, este abriu-a com facilidade, o que provocou espanto geral na população. Como sinal de agradecimento, Luísa Bouffier afixou uma imagem de Santo António na sua loja e uma caixa para recolher esmolas para comprar pão para os pobres.

Este método de auxílio aos mais carenciados foi-se espalhando, primeiro pela região de Toulon, depois por toda a França e de seguida por parte da Europa.
Cinco anos após este acontecimento, iniciou-se em Portugal a prática de distribuição do pão pelos pobres cujo início ocorreu em Braga, em 1895.
Tudo começou no Convento do Montariol com o franciscano Frei João da Santíssima Trindade e Sousa. Tendo este conhecimento do episódio em França planeou introduzir em Portugal essa prática do “Pão dos Pobres”, ou “Pão de Santo António”.
A 9 de março de 1895 o Commercio do Minho referia que “Por iniciativa dos religiosos franciscanos de Montariol, vae ser estabelecida na egreja da Ordem Terceira d’esta cidade, sob a inspecção da respectiva meza, a Obra denominada “Pão de Santo António”, que esta muito em voga no estrangeiro, especialmenle em França”.

Convém referir que na altura viviam-se momentos de grandes dificuldades económicas e sociais, com graves repercussões na vida das pessoas. Os assaltos violentos eram uma prática comum e nem os párocos a eles escapavam. Em abril de 1890 o reverendo Gaspar de Freitas, de S. João da Ponte, foi assaltado com crueldade dentro da sua própria residência.
Da mesma forma eram frequentes os anúncios para pessoas carenciadas. Basta recordar o que foi publicado a 30 de abril de 1890, no Commercio do Minho, a pedir esmolas urgentes para socorrer os seguintes pobres: Ana Maria, de 78 anos, cega e com um cancro no peito, moradora na rua das Chagas; José Manoel Gomes, violeiro, de 20 anos de idade, tísico em último grau, morador na rua de S. Marcos; Filomena Rosa, solteira, doente com uma tísica, da rua da Boavista; Delfina Rosa, viúva, com 5 filhos doentes, do então Bairro Democrático; António Joaquim Ferreira Salsa, antigo tipografo, doente e com quatro filhos, da rua do Pai Amante e Inácia Maria da Cunha, viúva e cega, com 80 anos de idade, do Bairro Democrático.

A 12 de março de 1895 o Progressista referiu que “aumenta de dia para dia o número dos pobres que têm fome que, devido à falta de trabalho, não têm pão nem para si, nem para as suas pobres famílias. Esta desgraça partia o coração de dor a qualquer pessoa!”.
Foi neste contexto social que, apesar da opinião contrária das autoridades religiosas de Braga, entre as quais os superiores do Convento de Montariol e até da Mesa da Venerável Ordem Terceira de Braga, Frei João da Santíssima Trindade e Sousa conseguiu, a 25 de março de 1895, colocar na Igreja dos Terceiros um cofre para recolher esmolas dos fiéis. Assim, foi dado início, nesse dia, a um dos mais nobres atos de solidariedade que a Igreja bracarense desenvolveu junto dos mais necessitados.

Cerca de três semanas depois, exatamente a 18 de abril, foi aberto pela primeira vez o cofre que continha as esmolas para o Pão de Santo António, verificando-se que “rendeu desde 25 de março até ante-hontem mais de 50$000 réis” (CM, 20 de abril de 1895). Este valor causou admiração a todos, por ser um valor superior ao recolhido em “esmolas” no Santuário do Bom Jesus do Monte e de Nossa Senhora do Sameiro!
Dez dias depois da abertura do cofre, foi efetuada a distribuição do pão pelos pobres de Braga e da região.
Nesse dia 28 de abril de 1895, antes da distribuição do pão, houve na igreja dos Terceiros uma prática alusiva ao ato, feita pelo reverendo Frei João da SS Trindade. De seguida foram distribuídos por 380 pobres as 430 broas de pão de milho, que pesavam cerca de 3 kilos cada uma. A quantidade de pão era de tal forma elevada, que o sobrante foi entregue aos presos da cadeia de Braga.

No dia 23 de maio de 1895 voltou a abrir-se a mesma caixa que se encontrava na igreja dos Terceiros, destinadas a esmolas para comprar pão para os pobres, tendo sido apurada a quantia de 34$680 réis, rendimento apurado entre o dia 15 e 23 de maio desse ano! Com esse dinheiro foram distribuídas 380 broas e outros tantos trigos a pobres previamente escolhidos e cujos nomes foram elencados pelos párocos das freguesias e pela Conferência de S. Vicente de Paulo. Foram ainda oferecidas 25 broas à Oficina de S. José e igual número ao colégio de Preservação, por serem instituições que lutavam com maiores dificuldades económicas. Foi ainda oferecido um trigo a cada um dos presos da cadeia de Braga!

O número de pobres a quem foi entregue pão comprado com as esmolas desta caridade foi aumentando. Em julho de 1895 eram cerca de 500 e em agosto 750 pobres!
O padre João António Veloso escreveu no CM, de 30 de abril de 1895, que Santo António foi denominado a partir daí “Provedor dos pobres sem pão”. Referiu ainda que a imagem de Santo António, na igreja dos Terceiros, tem a seus pés duas caixas: uma para receber as súplicas que se fazem e outra para a gratidão dos suplicantes e está reservada exclusivamente para pão dos pobres.
Depois de se ter espalhado em França e em Itália, o “Pão dos Pobres” ou “Pão de Santo António” chegou a Portugal pela iniciativa de Frei João da SS Trindade, e desenvolveu-se a partir da igreja dos Terceiros.
Daqui espalhou-se por toda a região e por todo o país, chegando mesmo ao Brasil, país onde muitos párocos seguiram esta ação bem meritória que teve início em Braga, passam agora 127 anos.

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