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O Padre de S. Miguel da Carreira

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O Padre de S. Miguel da Carreira

Ideias

2021-10-31 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Celebra-se amanhã, 1 de novembro, mais um dia dedicado aos fiéis defuntos, dia em que as romarias aos cemitérios tornam-se práticas comuns em Portugal e em todos os países católicos.
Nestas cerimónias religiosas, a presença do padre é essencial para, entre outros aspetos, dar conforto espiritual aos familiares daqueles que já partiram.
Numa altura em que membros do Clero são investigados por abusos de menores, como é o caso de França ou do Canadá, entre outros, é importante destacar alguém que dedicou toda a sua vida, de mais de meio século, aos seus paroquianos. Refiro-me a Manuel Vieira Gonçalves, padre de S. Miguel da Carreira (concelho de Barcelos).
Considerado na altura em que faleceu, a 11 de agosto de 1985, o sacerdote mais idoso da diocese de Braga, o padre Manuel Vieira Gonçalves dedicou a maior parte da sua longa atividade pastoral a uma freguesia pobre do concelho de Barcelos.

S. Miguel da Carreira está situada, segundo a descrição constante nas “Memoriais Paroquiais de 1758” (Capela, 2002) em “terra plana e della se descobrem as freguesias de Farelains, Santa Maria de Nine, Santa Maria de Viatodos, Sam Thiago do Couto de Cambezes, Sam Thiago de Sequiade, Santa Maria de Moure, Sam Romam de Fonte Coberta, Sam Joan e Sam Salvador de Silveiros”.
O padre Manuel Vieira Gonçalves nasceu em Barcelos, a 3 de setembro de 1886, e aos 23 anos foi ordenado sacerdote, a 18 de dezembro de 1909, numa cerimónia realizada na igreja do Paço Arquiepiscopal de Braga e presidida pelo então Arcebispo de Braga, D. Manuel Batista da Cunha.
A vida deste eclesiástico ficou marcada por um percurso singular, pois assistiu não só a alguns dos mais marcantes acontecimentos da história de Portugal como também da Humanidade. Refiro-me à queda da Monarquia e instauração da República, ao longo regime ditatorial de Oliveira Salazar, ao período da Revolução dos Cravos, à primeira e segunda Guerras Mundiais e ainda à desgastante Guerra Fria.
Dois dias antes da implantação da República, e curiosamente no dia em que foi assassinado Miguel Bombarda (3 de outubro de 1910), Manuel Vieira Gonçalves foi nomeado pároco de Areias de S. Vicente, no concelho de Barcelos.

Na freguesia de Areias de S. Vicente manteve a sua atividade pastoral até junho de 1918. Três anos depois, a 16 de julho de 1921, foi nomeado pároco de S. Miguel da Carreira, mantendo-se ininterruptamente nesta freguesia durante quase 48 anos, exatamente até 13 de março de 1969.
Quando assumiu a paróquia de S. Miguel da Carreira, e segundo os “Recenseamentos Gerais da População” de 1920 (ano anterior à sua nomeação para pároco desta freguesia), esta freguesia tinha apenas 656 habitantes. Quando deixou a paróquia, ainda segundo esta fonte, mas referente a 1970 (um ano após abandonar a sua atividade sacerdotal), S. Miguel da Carreira tinha quase o dobro da população, exatamente 1 119 habitantes.
Depois de deixar a sua atividade pastoral, Manuel Vieira Gonçalves manteve uma profunda ligação a esta freguesia, continuando a residir aí até ao fim da sua vida.

Em 1984, um ano antes da sua morte, celebrou as suas bodas de diamante sacerdotais (1909-1984). Nessa ocasião, e quando já se encontrava com 98 anos de idade, demonstrou enorme lucidez, facto que causou admiração nas gentes desta freguesia e das várias freguesias vizinhas, que muito admiravam este pároco.
Manuel Vieira Gonçalves exerceu toda a sua atividade pastoral num período de grande miséria económica, mas também grandes dificuldades políticas, sociais e culturais, uma vez que correspondeu praticamente a todo o período ditatorial.
Numa região do Minho marcada pelas grandes dificuldades das suas gentes, facto visível quer em S. Miguel da Carreira, quer nas freguesias vizinhas, o padre Manuel Vieira Gonçalves assistiu à abertura de uma empresa que muito contribuiu para elevar o nível de vida de muitas famílias. Refiro-me à “Sociedade Agrícola da Quinta de Santa Maria”, localizada em S. Miguel da Carreira.

Trata-se de uma quinta que foi inaugurada no domingo, 25 de março de 1945, sob a direção de António Joaquim Borges Fernandes Vinagre (filho de Lúcia Borges Vinagre e de Delfim Lopes Fernandes Vinagre, então importante diretor da Casa Bancária Borges & Irmão, no Porto). A Quinta de Santa Maria foi conhecida, durante décadas, e pela maioria da população, pelo apelido dos seus proprietários: “Quinta do Vinagre”.
Foi precisamente esta quinta que contribuiu, como vimos, para aliviar as dificuldades económicas de muitas famílias desta área geográfica, pois é ainda muito recordada na região a época em que centenas de pessoas eram chamadas a trabalhar nesta quinta, principalmente na época das colheitas.
O trabalho laboral aí exercido, quer a entrada da manhã, quer a saída ao final do dia, quer ainda a hora de almoço, era efetuado por um forte toque, semelhante a um alarme dos bombeiros, e que se ouvia em várias freguesias. Por essa altura, viam-se então uma multidão de trabalhadores a circundar esta extensa quinta agrícola.

Se a Quinta de Santa Maria funcionava como um enorme complemento económico para as gentes pobres desta região, o padre Manuel Vieira Gonçalves contribuía com a sua humildade espiritual aos seus paroquianos e ainda a outros povos vizinhos que a ele recorriam com frequência.
Assim, é importante registar o momento de enorme pesar que constituiu a sua morte, também pela idade avançada que ocorreu a um mês de completar 99 anos!
O funeral de Manuel Vieira Gonçalves, presidido por D. Joaquim Gonçalves, Bispo Auxiliar de Braga, realizou-se a 13 de agosto de 1985, na freguesia onde exerceu o seu longo período sacerdotal, tendo sido sepultado no cemitério da localidade.
A freguesia de S. Miguel da Carreira, do reverendo Manuel José de Oliveira Guimarães (1831-1896), célebre Deputado da Nação, eleito pelo círculo de Braga, presta-lhe homenagem na sua toponímia (Praceta Padre Manuel Vieira Gonçalves).
Numa altura em que chegam alguns exemplos menos simpáticos, vindos de algumas dioceses da Europa e da América, é importante recordar este pároco, como tantos outros que, anonimamente, pelo trabalho que desenvolvem ao longo de toda a sua vida, vão dotando gerações com os valores da dedicação, da humildade e da solidariedade.

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