Correio do Minho

Braga, sexta-feira

O oitavo mandamento

Bragafado 2018: a trindade do fado tradicional

Ideias

2017-04-09 às 06h00

José Manuel Cruz

Foi à rasquinha, por arranque fulgurante antes da recta da meta, mas a condenação suprema da mentira e do falso testemunho lá conseguiram entrar no top10 dos preceitos do bom Deus. Mas é mandamento pouco tido em conta e de facílima desobservação. Aliás, deslizam os seus rebentos por toda a parte, com vigor primaveril, do lar modesto ao palacete do vizir, da vulgar fraternidade desportiva à bendita congregação de respeito divino, dos ébrios desacertos de bar às maquinações malquerentes de falsos companheiros de trabalho: enfim, do vulgo ao dignitário.

Do reles ao nobilitado não falta quem não polua a vaporosa Veritas. Parece que ao Homem se cola, a mentira, como natureza segunda - quiçá primeira! E não haver baptistério que a depure! No ponto em que estou, mais me mói a erosão da Verdade, do que o degelo da calota polar, até porque, se não é totalmente seguro que o segundo fenómeno resulte de acto humano, já da evidência da primeira não há anal da Torre do Tombo em que ela não figure. Eu, para meu descanso, para consolo dos meus irmãos, ainda procurei traço de mentira no reino natural, dos extremófilos aos símios superiores. Lamento reconhecer: não deu em nada. Anos de trabalho deitados a perder! Desgostoso, rasguei a dissertação.

Já a estas páginas chamei a “pós-verdade”. Não é assunto que se arrume de uma penada, nem maleita para a qual eu despenda paliativo. Partilho tão-só incómodos, pois se para o mundo olho como espelho a que me fitasse e, incrédulo, dezena de caras visse: dez “eus” de um Eu uno inexistente. Dez carantonhas, máscaras de conveniência de dorsal espinha decuplicada.
Uma me chega, cara, com todos os trejeitos e flutuações de estado. Uma me chega, a que possa regressar, exultante ou penitente, depois de um transe de qualquer sinal. Não compreendo heterónimos, nem por estrabismo de último grau. Não acolho “eus” alternativos, nem por diplopia medicamente atestada. Acordamos para a “pós-verdade” como se fosse uma porrice dos dias correntes. Engano: vocábulo de cunho fresco para a industriosa propaganda, para a louvável demagogia, para a sapiente oratória.

Brotam - a “pós-verdade”, a propaganda, a demagogia - porque com sorriso complacente olhamos para a trapaça, para a aldrabice. Acomodamos as flutuações da verdade, porque ao museu da língua entregues palavras em desuso, como “pulha”. Tudo é dizível, como se, destituídas de matéria, não tivessem as palavras tabela periódica que as prendesse, como se não houvesse gesto ou pegada à qual toda e qualquer elocução não acabasse indelevelmente ligada.

Não! Não é de Trump ou Putin que falo. Não é de banqueiro, Costa ou Coelho. Se bem que não compreenda floreados de alecrim e manjerona sobre números - estrepitosos ou deploráveis - da recuperação económica, se bem que não compreenda que não haja culpas em biliões esturricados, que não compreenda quem mata quem no Levante, ou quem se mete com quem nas eleições daqui ou dacolá, o que me rói, realmente, são as “pós-verdades” que se desenham a um palmo do nosso nariz, porque são essas que adubam e amanham o terreno para as que vêm de alhures.

Deixo, por antecipação, que preparo um soro poderoso. Já o testei com camaleões, e deu resultado. Testá-lo-ei, em melindroso passo seguinte, com mentirosos compulsivos. Acolhem-se voluntários/as. Aguardo autorização do infarmed. Vai ser um estouro.

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