Correio do Minho

Braga, sexta-feira

O novo ciclo do PS

Amarelos há muitos...

Ensino

2015-10-06 às 06h00

Jorge Cruz

Curiosamente, no passado domingo, a força política que venceu claramente as eleições, a coligação Portugal à Frente (PSD e CDS/PP), foi também a única que perdeu deputados face aos resultados de há quatro anos. Todos os restantes partidos que já tinham representação parlamentar conseguiram aumentar o seu número de eleitos, assumindo particular destaque, neste crescimento, o Bloco de Esquerda, com os seus 19 deputados.

As políticas injustas e de enorme insensibilidade social levadas a cabo na anterior legislatura pela coligação de direita tiveram como consequência a perda de mais de 800 mil votos face a 2011. Mesmo assim, embora desbaratando a maioria parlamentar de que dispunha, a direita liderada por Passos Coelho conseguiu impor-se a um Partido Socialista que se mostrou totalmente incapaz de capitalizar o descontentamento generalizado da maioria dos eleitores.

No rescaldo da noite eleitoral, Paulo Portas mandou um recado: “Os cidadãos não apreciam ouvir toda a gente dizer que ganhou”. Estranho, porém, é que se pode dizer, sem faltar à verdade, que nestas eleições todos ganharam. A excepção será o PS, embora, em rigor, também tenha registado um ligeiríssimo crescimento. Poucochinho, poucochinho, mas a verdade é que cresceu, o que não evitou que tivesse sido o grande derrotado.

Ao duplicar o resultado de há quatro anos, passando a dispor de um grupo parlamentar de 19 deputados, o Bloco de Esquerda foi, também ele, um dos grandes vencedores. A CDU, cujas expectativas naturalmente não eram comparáveis às do PS, ombreou com os socialistas em termos de crescimento, ou seja, também se pode dizer que a coligação de esquerda cresceu poucochinho, elegendo apenas mais um deputado.

Os resultados saídos destas legislativas mostram claramente duas coisas. Em primeiro lugar, que o divórcio entre cidadãos e a política continua a aumentar assustadoramente e daí os mais de quatro milhões de concidadãos que não se dignaram comparecer nas mesas de voto, o que fez alimentar o crescimento da abstenção. Depois, a maioria de deputados de esquerda que compõe o novo Parlamento comprova também que as políticas levadas a cabo no último quadriénio merecem a repulsa da maioria dos eleitores.

A grande desilusão destas legislativas foi, não há como escondê-lo, o Partido Socialista. Não foi motivador o suficiente para capitalizar o descontentamento, bem pelo contrário, desperdiçou um capital de esperança que nele foi depositado, parte por mérito próprio, outra por demérito da coligação de direita. Cativou, é certo, um extenso rol de independentes de grande craveira intelectual e enorme prestígio profissional, mas não soube rentabilizar o seu contributo, antes acabou por os envolver numa campanha com demasiado amadorismo e, aqui e além, a raiar a indigência.

No distrito de Braga, por exemplo, onde foi possível convencer um independente da craveira do Prof. Caldeira Cabral para liderar a candidatura, o anquilosado aparelho federativo encarregou-se de impor uma lista cuja principal preocupação era servir caciquismos e pagar fidelidades. O resultado foi uma derrota copiosa em todos os concelhos, mesmo nos tradicionais bastiões rosa, com a única e honrosa excepção de Vizela. Aliás, no concelho de Braga o PS não conseguiu vencer em qualquer freguesia.

Naturalmente, ignoro as cenas dos próximos capítulos. Sei, como todos os portugueses, que António Costa perdeu a sua grande batalha, arrastando o PS, mas não parece convencido de ter perdido a guerra. Agarrou com as duas mãos a perda da maioria por parte da coligação de direita para colocar o PS como partido charneira na formação de eventuais maiorias - à direita ou à esquerda. E como sabe que a coligação precisa do PS para governar e que, em caso de falhanço das negociações, os socialistas podem avançar sozinhos para um governo minoritário, vai tentar capitalizar, principalmente no interior do seu partido mas também fora dele, a indispensabilidade do PS em quaisquer acordos de governação.

Mas recuso-me a acreditar que o ambiente mais ou menos bafiento que se vive em muitas das estruturas do partido se mantenha por muito mais tempo. Creio que os socialistas não podem nem vão desperdiçar esta oportunidade para, com o máximo de desprendimento pessoal mas também com toda a serenidade, procederem à reflexão que há muito se impõe. Reflexão que deverá conduzir não a uma qualquer caça às bruxas mas que não pode dispensar a assumpção de responsabilidades por quem as tem, nos diferentes níveis da organização. Só dessa forma, através de um consistente processo de reflexão interna e de catarse, é que será possível encontrar o verdadeiro eixo ideológico do partido, aquele que, com novos protagonistas capazes de unir o partido, iniciará o novo ciclo que conduzirá às grandes vitórias de que o PS tem estado arredado.

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