Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O nosso dinheiro debaixo da água da chuva

O que nos distingue

Ideias Políticas

2012-02-07 às 06h00

Hugo Soares

As opções políticas têm como característica idiossincrática o facto de te-rem repercussão num tempo futuro. Umas vezes sem grande impacto; outras, como uma península que se solta de um continente, qual ‘Jangada de Pedra’, os efeitos perduram. E são sobretudo demasiadas decisões de efeitos duradouros que levaram ao actual estado do Estado. Hoje, em razão de opções políticas absolutamente irresponsáveis são impostos aos portugueses sacrifícios difíceis de aceitar e compreender.

Na verdade, a fronteira entre o ultrapassar das dificuldades - que todos desejamos - e o colapso total do modelo social como o conhecemos é tão ténue como assustadora. As opções que se colocam, face aos demasiados erros do passado, são simples: ou se exigem os sacrifícios que todos conhecemos ou ficaremos perante a falência do Estado.

E esta é a dura realidade que parece que alguns ainda não perceberam; livre-nos Deus de os ter ao leme nestas circunstâncias. Mas pese embora os escolhos que se encontrarão no caminho, com a determinação e competência do governo de Portugal e com a mobilização de todos dobraremos o ano de 2012 para colocar o País na senda do crescimento.

No entanto, ainda que o nosso foco deva estar na construção de um futuro melhor, as opções do passado não podem deixar de ser escrutinadas. E há umas, como já se disse, cujos efeitos são mais nefastos que outras. Há umas que são responsáveis pela desgraçada situação a que chegamos. E essas são censuráveis. Essas exigem a responsabilização de quem as tomou. Tomemos o exemplo que segue.

Há uma década atrás, a Câmara Municipal de Braga decidiu e anunciou a construção de uma piscina por vinte e cinco milhões de euros. À data, tal decisão era justificada pela necessidade de uma piscina com medidas olímpicas e de um tanque de saltos olímpicos. Pois bem, num País sem atletas de salto, sem treinadores de salto, com outras prioridades políticas, aquela foi uma decisão de um despudor, esse sim, olímpico. E a verdade é que o executivo socialista foi avisado, designadamente por Ricardo Rio e pelos vereadores da Coligação Juntos por Braga que sempre votaram contra.

Hoje, oito milhões de euros depois, cerca de dez anos volvidos, o nosso dinheiro está debaixo da água da chuva.
Veio agora a Câmara Municipal assumir a falta de condições para terminar o projecto. O que era prioritário, o que fez gastar oito milhões de euros, já não é uma prioridade e já não é possível. E como se não bastasse o disparate, ouvimos o actual Vice-Presidente da CMB, Vitor Sousa, dizer que nunca foi grande adepto do projecto. Mas votou-o. Mas nunca disse o contrário. Mas apoiou-o. Ó divina lata, ó divino despudor: como podem umas quaisquer eleições eternas deixar cair por terra a coerência e o respeito que deve ser exigido a quem nos governa? A política sem decência é uma vergonha!

Que fique, pois, muito claro que foram opções como esta que levaram o País ao actual estado. É e foi por isto que pagamos os impostos municipais pelo máximo; é por esta e por outras que sobem os preços dos transportes, que sobem os preços da saúde e da educação. São oito milhões de euros que agora nos dizem, com a maior das naturalidades, que foram mal gastos. São oito milhões de euros que estão debaixo da água da chuva à espera de alguma ideia luminária.

São oito milhões de motivos para responsabilizar quem assim decide. Outros entenderão de forma diferente, mas considero que perante este tipo de gestão, a responsabilização política já não é suficiente. A ética republicana, o estado de direito democrático e a dignificação da política exige a responsabilização civil e criminal.
O nosso futuro colectivo não se compadece mais com opções que não acautelem o seu impacto inter-geracional sob pena de... não termos futuro.

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