Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O nível de vida português pode ser ultrapassado pelos países do leste europeu

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Ideias

2018-09-22 às 06h00

António Ferraz

Preocupante é sem dúvida a recente previsão da Comissão Europeia ao apontar para o facto de que num futuro próximo Portugal poderá ser ultrapassado no seu nível de vida ou poder de compra pelos países do último alargamento da União Europeia (UE) os países do Leste europeu. Ora, um dos indicadores mais relevantes para explicar o nível de vida ou poder de compra de um país é o Produto Interno Bruto (PIB) “per capita” em paridades de poder de compra (PPC), ou seja, o valor da riqueza produzida num país em dado ano, por habitante e ajustado ou corrigido pelo diferencial de inflação entre esse país e a média da UE. Se considerarmos que o PIB “per capita” em PPC da média da UE é dado pelo índice 100, então podemos verificar que em 2016, Portugal apresentava apenas um PIB “per capita” em PPC de 77,3% da média da EU, ocupando assim o 14.º lugar da UE, um valor apenas um pouco superior ao de 2015 (76,8%) e 2014 (76,7%). Acrescente-se que o PIB “per capita” (PPC) teve a sua maior expressão no ano de 1999 com 84% da UE28, em média.

No ano mais recente de 2017, o valor do PIB “per capita” em PPC português subiu ligeiramente para 78% da média da UE, subida explicada pelo aumento verificado da taxa de crescimento do PIB real (a preços constantes) de 2,7% (contra os 2,5% registado na média a UE), o que permitiu a Portugal duas coisas, convergir embora ligeiramente com a média da UE e evitar a ultrapassagem pelos países do último alargamento, países do Leste europeu. Apesar dessa melhoria, a verdade é o nível de vida ou poder de compra português foi ainda de menos de um terço do verificado, por exemplo, no Luxemburgo, o Estado-membro “mais rico” (indicador de 257,6% face à média da UE). Em suma, nos últimos anos apesar do registo de alguma melhoria, Portugal em termos de nível de vida ou poder de compra manteve-se na cauda da UE. Pior que de Portugal surgiam apenas sete países comunitários.

Voltando às previsões de Bruxelas sobre o desempenho da economia portuguesa, em particular, quanto ao nível de vida ou poder de compra , as notícias não são muito favoráveis se atendermos aos seguinte pontos:
(a) as previsões para Portugal apontam para a continuação de fracas taxas de crescimento económico, prevendo-se que o PIB real em 2018 e nos anos seguintes aumente apenas algo acima de 2% ao ano;
(b) as previsões para os países do Leste europeu, ao invés, apontam para taxas de crescimento económico (e taxas de investimento) bem mais elevadas que as portuguesas. Sendo assim, Portugal poderá ver a mais descidas do seu PIB “per capita” em PPC face aos países do Leste europeu.
Ainda, segundo a Comissão Europeia, em 2018, Portugal com um crescimento económico previsto (mais baixo face ao ano de 2017) de 2,2%, cairia para a 21ª posição na UE, sendo mesmo ultrapassado pela Lituânia, Eslováquia e Estónia. Se considerarmos apenas os países do Euro (19 países), Portugal desceria para o 17.º lugar, o que seria a pior classificação de sempre desde a introdução da moeda única. Isso implicaria que Portugal se tornasse o terceiro país “mais pobre” da zona Euro, apenas melhor que a Letónia e Grécia.

Então, o que poderá a governação portuguesa fazer para contrariar tal cenário desfavorável? Numa lógica de médio e longo prazo será necessário que o País tenha taxas de crescimento mais robustas do seu Produto Interno Bruto potencial (PIB potencial). Por produto potencial entende-se o máximo valor de produção possível em dado momento, ou seja, a máxima produção realizada em uma situação de pleno emprego e total eficiência na utilização dos seus recursos produtivos, nomeadamente quanto a força de trabalho e ao stock de capital (sendo dado o nível tecnológico existente).

O Banco de Portugal estimou que nos últimos anos a taxa de crescimento do PIB potencial tem vindo a situar-se entre zero e 2%, um valor seguramente baixo, cerca de metade do que foi em 2007! Ora, para que não se venha a assistir a um maior afastamento do seu nível de vida ou poder de compra face aos países do Euro (e do Leste europeu), podendo inclusive, tentar rever a situação, a governação portuguesa deverá encetar medidas que a médio e longo prazo conduzam a um crescimento mais robusto do seu PIB potencial.

Por fim, apontamos para dois elementos essenciais para que se alcance o objectivo prioritário de aceleração do crescimento do PIB potencial português:
(1) melhoria do funcionamento do mercado de trabalho, nomeadamente da força de trabalho com níveis ainda muito baixos de escolarização, em que a população nacional (e a população activa) tem vindo a estar sucessivamente em queda;
(2) criação de mais estímulos ao investimento (público e privado) permitindo aumentos continuados e significativos do stock de capital (após reduções acentuadas no período de crise).

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