Correio do Minho

Braga, quinta-feira

O naufrágio da baleia

O Estado da União

Conta o Leitor

2013-08-19 às 06h00

Escritor

Mário Viana

No início daquela tarde enevoada de Outubro, um assombro do tamanho do mar tomou conta da vila dos sargaceiros: uma baleia acabava de dar à praia.
Ainda ao largo, emergira, do abismo do oceano, um dorso escuro e luzidio, que ficou a boiar sobre a água cinzenta como um corpo inerte. Depois, o colosso, de uma vintena de metros de comprido e outras tantas toneladas de peso, foi-se aproximando da costa, ao sabor das ondas, como um barco à deriva. Já perto de terra, a baleia ficou presa entre as rochas, mas depois, arrastada pela corrente, apontou à praia, quedando-se nos baixios, ainda com o corpo quase submerso pelas águas agitadas. A sua migração de Outono, em direcção ao sul, terminava ali.

De imediato, muita gente acorreu a ver o bicho, que, na rebentação das ondas, em vão lutava por regressar ao mar, mas viria a entrar inevitavelmente nos estertores duma morte adivinhada. Triste ironia, quedara-se defronte do edifício de socorros a náufragos, como se procurasse auxílio…

A maré começara a descer e a baleia, presa no areal e debilitada, iniciava uma lenta agonia. Estava ferida, por certo devido ao embate nas rochas, e perdia sangue, por um instante visível na brancura do seu ventre e logo lavado pela água do mar. Tinha ainda uma barbatana partida.
Alguém chamou as autoridades, vieram os técnicos, acorreu a comunicação social.

As testemunhas oculares davam entrevistas, descreviam os contornos do insólito naufrágio.
- Eu vi-a acolá… - dizia um homem, tisnado pelo sol, apontando para o mar - Vinha de norte. Foi arrastada pelas ondas, bateu naquela rocha, depois naquela e embicou para a praia, até se quedar ali.
- Há dezoito anos que se não via uma coisa destas - adiantava outro, mais velho.

A multidão quedava-se agora por detrás da fita plástica que delimitava o perímetro à roda do animal, tagarelando e fazendo fotos e vídeos, que iriam acabar nas redes sociais. Vencido o espanto inicial, as crianças corriam e brincavam na areia. Na orla do mar, dois agentes da polícia marítima, de mãos atrás das costas, miravam a baleia e esperavam. No alto, voavam gaivotas indiferentes.

Entretanto, as autoridades confabu-lavam sobre os procedimentos a seguir naquela situação inusitada. Sem poderem devolver a baleia ao mar, por causa da maré baixa, e estando o animal moribundo, alguém sugeriu a ideia da eutanásia, para lhe abreviar o sofrimento. E depois, com a ajuda de um bulldozer, que o corpo fosse carregado num camião e removido para a lixeira municipal. Mas os meios não vieram.

Os técnicos da natureza e da vida selvagem mediam a baleia, avaliavam-lhe o peso, tiravam fotos e notas. Solicitados pelas televisões, adiantavam explicações comedidas: que se tratava de uma baleia comum, que tanto podia ter dado à costa para morrer de morte natural, por estar velha ou doente, como podia ter sido vítima de acção humana, o que só uma futura necropsia permitiria saber. Alheio a tudo isso, e sem que lhe aliviassem o sofrimento, o animal, de olhos semicerrados, continuava a sua agonia muda, perto da rebentação das ondas, sob a impiedade dum céu baixo e fosco.

Antes fosse um elefante, que, segundo a lenda, se finaria no sossego dum cemitério secreto, algures na selva - digo eu. Mas não era: era uma baleia cansada de cruzar os mares, que atracou naquela praia minhota para morrer, num dia cinzento de Outono.
Os curiosos iam e vinham. Uns chega-vam, outros partiam. Novas fotos e vídeos se sucediam. Mais comentários se erguiam naquele ar húmido que cheirava a maresia. As autoridades desdobravam-se em contactos, em telefonemas e espe-ravam. E o tempo esgotava-se.

Ao fim da tarde, atrás duma cortina de chuva miúda, via-se um clarão dourado logo acima da linha do horizonte, no sítio onde o sol se escondia entre uma massa de nuvens escuras. Um barquito sulcava as águas cinzentas, agora mais calmas, na direcção da Póvoa, cujos prédios mal se viam lá ao fundo, do lado sul. Com a maré já de todo em baixo, o cetáceo jazia agora sobre a areia descoberta, agitando lentamente a cauda.

De repente, como se quisesse impelir-se de volta ao oceano, desatou a varrer a areia com a cauda, cavando uma poça onde o seu sangue se misturava com a água do mar. Depois, bateu a cauda na areia com desespero, durante dois minutos, de forma mecânica, espalhando em redor o líquido sanguinolento da poça. As pancadas lembravam o pulsar dum coração gigante e causaram viva impressão em quantos assistiam. Por fim, os batimentos diminuíram, de forma gradual, até se quedarem de vez. Quatro horas depois de ter naufragado, a baleia morria, como morria a tarde. Isso, toda a gente viu.

O que ninguém viu - por causa da névoa da distância - nem ouviu - porque não está ao alcance do ouvido humano e, ainda que estivesse, seria encoberto pelo barulho do mar - foi que o companheiro daquela baleia fêmea se manteve ao largo, plangendo a dor da separação definitiva. E que, quando a agonia terminou, se afastou, num mar de tristeza, em direcção ao sítio onde morre o sol.

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