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O Natal na casa da Avó

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O Natal na casa da Avó

Ideias

2023-12-24 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Com base na iniciativa “Natal com histórias”, da Câmara Municipal de Braga, da Antena Minho e do Correio do Minho, os jornalistas Manuela Barros e Manuel Pinto tornaram público o “espírito natalício” no âmbito da terceira idade.
Esta oportuna iniciativa leva-nos a recordar o elevado número de pessoas, especialmente idosos, que vivem sozinhos, como é o caso de Benedita.
Através de palavras quase impercetíveis, devido à idade, gosta ainda hoje de recordar que os seus avós lhe diziam que a pedra para a construção da casa veio de Ponte de Lima. "É das melhores pedras da região", afirma.
Benedita, com quase 96 anos, ainda reside na sua casa, localizada a cerca de 6 km do centro político de Braga (Praça do Município). A sua única companhia é a senhora Eduarda, de 62 anos, que a acompanha durante o dia. "A Eduarda é muito carinhosa; se não fosse por ela, eu não sei o que seria de mim", reconhece a idosa.

A avó Benedita costuma receber os seus netos uma a duas vezes por ano. Não a visitam mais vezes porque "andam muito ocupados com o seu dia a dia. Os meus netinhos têm muito que fazer", afirma com submissão e um ligeiro inclinar da cabeça para baixo.
A visita dos netos é sempre acompanhada pelo seu animal de estimação. Um deles, diz Benedita, tem um cão tão bonito que é o centro das atenções quando vêm cá! "Que raça é o cão, Eduarda?" - pergunta à senhora que a ampara diariamente. "É um Cão de Água Português.", responde Eduarda.

A “casa da avó”, como os filhos e netos gostam ainda de se referir à habitação, fica no largo principal da freguesia, muito próximo da igreja paroquial, que tem São Bartolomeu como padroeiro. A casa da avó tem um imenso quintal, com um poço de captação de água, um tanque em pedra e ainda muitas árvores de fruto. Os netos não gostam muito da fruta deste pomar. Dizem que aquela que se compra nos supermercados tem um aspeto muito melhor, e não dá trabalho a colher.
A viúva Benedita cujo marido faleceu em 2020, por altura da pandemia de Covid 19, tem seis filhos, todos vivos e bem realizados na vida. Mantém a sua beleza de espírito e de compreensão, é dócil, fala e pensa mais nos filhos e nos netos do que nela própria. Não se importa de ter a companhia apenas da “menina Eduarda” e de estar sozinha durante a noite, porque os filhos e netos “têm a sua vida”.

Há dias recordou o Natal de outros tempos. Referiu que por esta altura comprava sempre o melhor bacalhau numa casa ali para os lados da Sé de Braga. Era o melhor bacalhau que por cá se vendia. Agora “não sei onde se compra o melhor bacalhau”, diz Benedita. “É quase todo comprado nos supermercados”, responde Eduarda.
Todos os fins de semana, a casa estava sempre cheia de pessoas, mas “no Natal é que era, não faltava nada”!
Então, logo no início de dezembro, os filhos iam pelas redondezas procurar um pinheiro, para colocar no centro da sala de jantar. Depois, colhiam musgo, “azevinho” (que dizem ser proibido colher), faziam um presépio com muitas peças em barro e iam colocando junto do pinheiro de Natal as prendas que eram distribuídas na noite de consoada.

Ainda se lembra da alegria que era ver os filhos e depois os netos a percorrerem os campos e, nos muros, arrancarem o musgo que servia para compor o presépio!
A avó Benedita tinha uma preocupação enorme com a consoada, pois nada faltava: “até os animais que tinha comiam mais e melhor nessa noite”, afirma Benedita!
As refeições eram realmente fartas: pratos de bacalhau, de polvo, de frango, de peru, de “vitela”. Depois a sobremesa rica: pudins, saladas de fruta, “mexidos”, “aletria” e rabanadas! O vinho e o champanhe era abundante…
A alegria era contagiante, pois as conversas e as gargalhadas aumentavam à medida que a noite também ia avançando.
Outro momento alto era a altura em que as prendas eram abertas. Pela meia-noite, os papéis coloridos e as fitas que serviam para decorar as prendas, espalhavam-se pela casa. “Como eram bons esses tempos”, afirma a avó Benedita com um sorriso conformado e desgostoso. São tempos bens diferentes dos de hoje.
Com a pandemia, os filhos e os netos reduziram as suas visitas à “casa da avó”. Habituaram-se e este ano também será assim.

Os filhos, que agora dizem não querer vir à casa da avó porque não tem as melhores condições, até me convidaram para ir a casa deles, mas eu prefiro ficar aqui. “Como umas batatinhas, um pouco de bacalhau” e depois vou para a cama, porque lá é que se está bem, nestas noites frias. Vejam só como as coisas mudaram: “há dias um dos filhos até me disse que ia passar o Natal num restaurante, na Serra da Estrela”, afirma a avó! Mas, o que “eu quero é que sejam felizes”.
A vida mudou, as mentalidades mudaram e os costumes também. A casa da avó Benedita, que no tempo dos seus filhos, e também no tempo em que os seus netos eram mais novos, era uma casa cheia de alegria, de fartura, de comida, de prendas. Todos gostavam de cá vir sempre, durante o ano, mas a altura do Natal era inesquecível.

Hoje a casa da avó Benedita é bem diferente: o telhado está sujo e inclinado, a pedra que “veio de Ponte de Lima” está esverdeada da humidade, o interior é marcado pelas paredes cinzentas do bolor, pelos móveis antigos e gastos e pelas rachadelas no soalho desgastado.
É nesta casa que a avó Benedita vai passar hoje a sua noite de Natal. Sozinha, mas feliz, porque os seus filhos e netos estão “todos bem”.
Quem circula pela “estrada municipal”, que mantém o piso ainda em paralelo, a casa da avó fica do lado direito, a 150 metros do largo da igreja paroquial.
É fácil identificá-la: tem à frente umas árvores mais altas que o telhado!

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