Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O Natal em Moçambique

Como sonhar um negócio

Conta o Leitor

2012-08-20 às 06h00

Escritor

Por Torres de Campos

A missão do chiúre, onde estou, fica em plena savana africana, a 160 Km da cidade de Pemba, no norte de Moçambique. A comunidade mais longínqua fica a 120 km da sede da missão. Aqui tudo é simples e profundo. É também um mundo pobre, atormentado por muitas carências...
Ficar nas aldeias e sentir o calor humano do povo ajuda-me a entender, que a minha presença no meio deles é um sinal de esperança. Por isso, no meio de tanta miséria, a minha vida tem sentido. Aqui, as razões de viver prendem-se ao essencial e àquilo que é prioritário para se ser feliz.
A vida no mato é amarga e dura... mas os dias são felizes, amassados com lágrimas e suor e regados com alegrias e encantos. São dias de paraíso nas mãos de Deus. Quero-vos contar um pouco como foi o meu dia de natal, por estas terras africanas.
Saí, de manhã bem cedo, para Ocua, comunidade que fica a 30 Km da missão. Receberam-me com cânticos, palmas e com um sorriso de quem estava muito feliz. Para estes cristãos, é uma graça de Deus, terem eucaristia e a presença do padre no dia de natal. Depois, de cumprimentar os responsáveis pela comunidade e grande parte das pessoas ali presentes, começamos a distribuir tarefas para que a festa fosse um momento de alegria para todos.
Iniciamos com a oração da manhã, seguida de uma celebração penitencial. Reconciliaram-se cerca de umas 70 pessoas. A grande maioria, não sabe falar português, fala o dialecto local, que é makhua. Desde que cheguei a Moçambique tenho aprendido bastantes palavras em makhua, o que me permite perceber algumas palavras. Tenho um pequeno bloco de folhas, com a listagem dos pecados em makhua e alguns conselhos para os poder ajudar a serem mais humanos e melhores cristãos. Enquanto, algumas pessoas celebravam o sacramento da reconciliação, os animadores do canto ensaiavam os cânticos para todos poderem cantar.
A Eucaristia, é uma grande festa para este povo. São pobres e miseráveis nos caminhos da vida, mas alegres e felizes na relação com Deus. Estava uma multidão de gente. A capela era demasiado pequena. Celebramos ao ar-livre, debaixo de uma árvore, por causa do sol. Para que todos se sentissem bem e participassem activamente, fiz todos os diálogos da Eucaristia em makhua. É certo, que antes, pedi-lhes desculpas, por não saber ler, tão bem como eles e para me perdoarem algumas falhas. Todos foram compreensivos e ficaram contentes, pelo meu esforço em pronunciar alguns dos seus sons. A homilia foi feita em português e traduzida para o dialecto local. A grande festa, começou às 9h40m e terminou por volta das 11h30m. As danças, os cânticos, os símbolos, os silêncios... foi algo de tão eterno, que mais uma vez, compreendi que ainda sou muito pobre...
Terminada a grande festa com Deus e depois de termos saudado o menino Jesus, deu-se inicio a uma reunião para toda a comunidade. Estas reuniões, são momentos muito importantes para toda a comunidade. Nelas apresentam os problemas que os atormentam. Os discursos foram lidos pelo animador da comunidade e pelo responsável dos jovens. O resto da comunidade permaneceu em silêncio profundo. Olhavam para mim, para o animador paroquial e para o animador zonal, observando a nossa postura, perante as palavras dos seus representantes. Eu escutei com muita atenção, para mais tarde comunicar ao pároco tudo quanto ali foi dito. Aqui, a pastoral comunitária é uma realidade viva. A comunidade interfere seriamente nos diversos problemas que afectam todos. Não existem manifestações nem actos de terrorismo paroquial.
Os tambores, as danças, as peças teatrais e os cânticos abrilhantaram o resto da manhã, até às 13h15m. Estava eu a tirar algumas fotografias, quando me avisaram que o almoço estava pronto, chimá com galinha. Não foi nenhum almoço farto, mas o amor que aquela gente colocou naquela refeição alegraram-me tanto que foi como se tivesse comido caviar ou cabrito. Muitos esperaram que eu terminasse a refeição, para se despedirem. Para me apertarem a mão e darem-me um sorriso sincero e profundo. Era esse único presente que me podiam dar e podem ter a certeza que nunca recebi presentes tão grandes. Senti, mais uma vez, o carinho de um povo pobre, mas com um coração muito rico.
Voltei para a sede da missão, com uma enorme alegria e com a certeza de ter vivido um dia de Natal, que me ficará na memória para sempre...

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